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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

RUPTURA AMBIENTAL


Artigo de Jair Donato
O médico austríaco fundador da Psicanálise, Sigmund Freud, afirmou que “O homem não é o centro nem de si mesmo e que a consciência é apenas a ponta do iceberg de seu mundo inconsciente”. Essa ruptura existencial talvez seja a maior causa da falta de consciência e do corte na relação que o homem tem com o meio ambiente em que vive, principalmente quando se considera o alto índice de poluição no planeta pelo uso exacerbado dos recursos naturais.

Você já viu a diferença que há entre as pedras que estão na nascente de um rio e as que estão na foz? Certo autor usou essa pergunta para apresentar uma analogia muito interessante sobre a pedra e o ser humano. Acontece que as pedras enquanto permanecem na nascente são toscas, pontiagudas, cheias de arestas. E à proporção que elas vão sendo carregadas pelo rio, sofrendo a ação da água e se atritando umas com as outras, ao longo de muitos anos, elas vão sendo polidas, desbastadas.

As arestas vão sumindo. Elas ficam mais orgânicas, menos toscas, mais suaves, lisas, e o melhor, vão ficando cada vez mais parecidas com as outras, sem necessariamente serem iguais. Quanto mais longo o curso do rio, mais evidente é o fenômeno. O incrível é que a mesma coisa parece acontecer na vida do ser humano. Somente se ele se permitir estar em contato com as pessoas, sendo conduzido pelo rio da vida, no “atrito positivo”, no relacionamento com o próximo, com respeito à natureza, é que vai eliminando arestas, desbastando diferenças, parecendo-se e harmonizando-se mais uns com os outros, sem necessariamente perder a identidade que possui.

È claro que alguns desses contatos e atritos podem deixar marcas e tirar lascas, são as experiências. Mas, possivelmente um coração sem marcas será um coração que não amou, que não viveu. Um coração com sentimentos como o amor, o respeito ao que estiver próximo e a si mesmo e com valores como a ética e a reciprocidade, é como o tempero da existência. Sem isso a vida seria monótona, árida. O fato é que não existem sentimentos, bons ou ruins, sem a existência do outro, sem a existência do ambiente ao redor, sem o contato com que existe à volta de cada um.

Passar pela vida sem se permitir o contato próximo com os demais, com as outras formas de vida, sem destruí-las, não crescer, não evoluir, não se transformar é o mesmo que começar e terminar a existência com uma forma tosca, pontiaguda, amorfa, sem aprendizados. O homem está por aqui há tão pouco tempo, se comparado ao período de formação da Terra, e já provocou rupturas irreversíveis pelo excesso, pela ganância e por um mercantilismo barato.

Muita gente começa a jornada da vida como grandes pedras, cheia de excessos, e continuam assim, sem perceber a necessidade que tem de mudar, de se adequar, a si mesmo, aos demais e ao meio ambiente em que vive. Os seres de grande valor percebem que com o passar do tempo, até o final da vida, foram perdendo todo os excessos que formavam as arestas, se aproximando cada vez mais da própria essência, e ficando cada vez menores, e maiores em valor. É como um diamante, que muito se tira do próprio excesso para chegar ao âmago peculiar que o transforma em enorme valor.

As catástrofes ambientais ocorridas nas últimas décadas, como fenômenos antinaturais, tem sido uma amostra do quanto o ser humano precisa despertar, esse ser ainda com pouca consciência, como uma pedra da nascente do rio, de forma tosca e egoísta, que tem destruído milhares de nascentes e rios, a fauna, a flora, as florestas, contaminando oceanos e engrossando vertiginosamente a camada do efeito estufa que faz com que a Terra esteja sendo aquecida rapidamente e provocando inúmeras alterações no clima.

O pioneiro no desenvolvimento da consciência ambiental, James Lovelok, afirma que “Não é a Terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza. Mas podemos facilmente nos destruir”.Talvez o homem ainda esteja incompetente para perceber tudo o que está provocando no meio em que vive. O escritor e roteirista Aldous Huxley registrou que “A experiência não é o que acontece com um homem. É o que o homem faz com o que acontece com ele”.

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jairdomnato@gmail.com

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

VOCÊ É GEOCÊNTRICO OU HELIOCÊNTRICO?


Artigo de Jair Donato
A dificuldade que houve na cosmovisão do geocentrismo para o heliocentrismo, ou seja, na maneira de ver e aceitar as mudanças e os novos fatos científicos no Século XVI, se repete ainda hoje, em pleno século XXI, frente às questões ambientais, tanto por governos de países com economias fortes e grandes corporações, como também em situações comportamentais do cotidiano.

Aristóteles e Pitolomeu, filósofos predecessores da teoria Geocêntrica, que a igreja católica, aceitava amplamente, afirmavam que a Terra era o centro do Universo. Portanto, os demais planetas giravam em torno dela, inclusive o Sol. Um ponto de vista meramente mitológico. Mas, que foi aceito, virou lei e crença religiosa, uma espécie de verdade absoluta.

No entanto, o polonês Nicolau Copérnico foi quem resgatou a teoria heliocêntrica criada pelo astrônomo grego Aristarco. Ou seja, que a rotação era outra. O Sol seria o centro do sistema e, a Terra, assim como os demais planetas da galáxia é que giravam ao redor dele. Contudo, isso contrariava o que a igreja pensava, e ela se achava dona da verdade. Copérnico, como não tinha um telescópio eficiente que pudesse provar aquela descoberta, sucumbiu-se.

Por último, o astrônomo Galileu Galilei, nascido em 1564, cientista italiano de grande projeção no desenvolvimento do método científico, que também descobriu a lei da inércia, foi quem endossou a teoria heliocêntrica de Copérnico. Ele ousou enfrentar os dogmas, a falsa “verdade” que a igreja detinha e disse que o certo e comprovado era que a Terra era só mais um planeta do sistema cujo Sol era o astro principal.

Então, as autoridades eclesiásticas, em uma demonstração de poder e pseudo conhecimento, obrigou Galileu a retratar-se, e o julgaram diante da inquisição, em Roma. Frente ao clero, após a retratação exigida, eis que Galileu registrou o célebre desabafo, aos 67 anos de idade: “A verdade é filha do tempo, não da autoridade”.

Isso nos remete ao comportamento dos poluidores do meio ambiente, que em pleno século XXI que continuam a destruir os recursos naturais e a engrossar a camada do efeito estufa, como se o ser humano fosse o centro da natureza. É esse comportamento ‘geocêntrico’, de quem se acha dono da verdade de que ‘não polui’, que compromete as gerações futuras e antecipa o fim da humanidade. É preciso uma outra mudança radical no modo de ver a vida na Terra, e sem demora. Afinal, a Terra é um pontinho na relação com o Universo, mas é tudo que o homem precisa para viver. A natureza é frágil e está em agonia, por conseqüência de mentalidades retrógradas e inflexíveis.

Galileu provava o que estava dizendo, sem sequer fazer uso do senso comum, tampouco de ‘achismos’ ou suposições. Por várias vezes o cientista clamava pela presença das autoridades religiosas da época para que fossem até o observatório dele e observassem o fenômeno do sistema solar no telescópio de alcance elevado que possuía. Mas, todos se recusavam a aceitar a mudança de que a terra girava, porque era daquela forma que a igreja acreditava, ninguém poderia mudar. Ele foi julgado pela violação ‘às leis’ de 1616.

Conta-se que Galileu, após retratar, fazendo o gosto das autoridades, disse em voz baixa e olhando na direção do solo: “Mas, que move, move”. Ele percebia o que pulsava no Universo

Mas, mesmo com todo um histórico de inflexibilidade, o ser humano é capaz de mudar, se tiver empenho e consciência. O fim da corrida nuclear entre EUA e a ex-União Soviética, o Protocolo de Montreal em favor do fim dos CFC’s, as legislações ambientais mais rigorosas, o Protocolo de Kyoto, e tantas outras conquistas são algumas dessas provas de que o homem pode construir diferente, e sem destruir.

Se cada segmento comprometer e agir dentro dos próprios sistemas, mecanismos e valores, desde que com o mesmo foco, pode ser possível mudar esse curso sombrio a que o planeta está se destinando. A grande questão é se os gestores de interesses econômicos estão prontos e vão despertar a tempo para essa necessidade.

É importante que o homem reflita sobre a forma que age em relação às causas ambientais, a começar pela rotina simples do dia-a-dia, dentro de casa, na empresa, na rua, nas horas de lazer, enfim no ambiente em que vive. Afinal, você como cidadão, como consumidor e poluidor em potencial, é geocêntrico ou heliocêntrico? Possui uma única verdade ou é flexível às mudanças? A vida na Terra e a extensão dos recursos naturais às gerações futuras dependem da atitude de cada um, agora. A lição de Galileu precisa ser apreendida.

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jairdomnato@gmail.com