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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

NÚMEROS CLIMÁTICOS DO SÉCULO



Artigo de Jair Donato

O mundo é matemático e através dos números, uma medida fria, porém exata, o ser humano pode refletir profundamente sobre os dados que mostram os impactos já provocados por ele na Terra desde que passou a habitar por aqui, principalmente nos últimos cem anos. Números que também se tornam úteis para analisar os choques que serão provocados até o final deste século. No ano de 2050 o planeta terá o peso do consumo de aproximadamente 9 bilhões de pessoas, segundo a Organização das Nações Unidas. Isso merece melhor atenção de cada cidadão que hoje, pelo que mostram os fatos, não ocupa tão bem o ambiente em que vive e muitas vidas já estão sendo eliminadas em virtude do mau uso dos recursos naturais e dos danos implacáveis provocados no meio ambiente.

Nas últimas 04 décadas, como consequência de toda a atividade industrial no século XX, o do nível de CO² na atmosfera chegou à média de 400 partes por milhão (ppm), faixa que não tinha sido alcançada nos últimos 650 mil anos, segundo estudos científicos. A projeção é de que 200 bilhões de pessoas podem sofrer até a metade do século com os impactos do aquecimento global, fenômeno climático que ainda não preocupa muita gente que polui em demasia, mas que já alastra catástrofes sobre os continentes.

A 15ª Conferência das Partes das Nações Unidas, COP-15, evento foco do final de 2009, em Copenhague, na Dinamarca, foi organizada para que um acordo mais arrojado e que dê continuidade ao Tratado de Kyoto, com a participação de mais países, como os EUA e a China, potenciais poluidores, seja de fato assumido por governantes de mais de 150 países. Do cumprimento das metas propostas nesta conferência, para redução nas emissões de gases poluentes que aquece a Terra, depende a qualidade de vida das gerações presentes e futuras. Das grandes negociações aos pequenos acordos, todo movimento em busca de soluções verdes são válidos.

Ainda em 2007, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas fez um alerta oficial ao mundo através de estudos sobre a temperatura da Terra, que não poderá subir mais que 2ºC. E para isso seria necessário que as emissões de CO² fossem reduzidas entre 50% e 85% até 2050. Por volta de 2100, considerando os mesmos padrões de destruição ambiental e de consumo dos recursos naturais da atualidade, todos os biomas serão extremamente afetados, a exemplo da Amazônia, que poderá ser extinta em até 80%, segundo os estudiosos do clima, devido a fortes períodos de estiagem; fato extensivo ao cerrado e demais ciclos de vida da que fazem parte do meio ambiente natural em diversas partes do mundo.

A previsão para a metade deste século, com base nos atuais padrões de consumo, é que serão consumidos duas vezes mais do que o planeta pode gerar. Será estarrecedor o impacto de aproximadamente 10 bilhões de pessoas se não houver uma mudança geral no estilo de vida do ser humano, tanto nas atividades industriais quanto nas domésticas. Dados atuais mostram que uma pessoa produz, em média 1,5 kg de lixo diário. E segundo alguns cálculos, cada ser humano deveria plantar entre trezentas a quatrocentas árvores para compensar a vida dela por aqui. Ufa! Haja espaço, ainda bem que os cientistas estão criando agora as árvores sintéticas. Bancar essa idéia pode ser uma excelente ajuda.

E, falar em números sem falar da água disponível para consumo no planeta, é impossível. Trata-se de um recurso que muita gente ainda não sabe o valor que possui e o quanto é limitado na face da Terra. A Organização das Nações Unidas instituiu o período de 2005/2015 como a Década das Águas. Hoje, mais de 1 bilhão de pessoas não têm acesso à água potável. Até o final deste século, mais de 3 bilhões sofrerão com a escassez. Estima-se que quase dois milhões de mortes no mundo, anualmente, têm como causa a poluição da água. Esses são dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). E a poluição tende a crescer.

Recentemente, o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, num artigo publicado às vésperas da COP-15, sobre a expectativa do resultado da Conferência, expressou: “Se nós perdermos a oportunidade de proteger o nosso planeta, não haverá segunda chance em nenhum outro momento no futuro”. Alguém sabiamente disse, conjeturando a presunção humana: “Cada geração se considera mais inteligente do que a anterior e mais sábia do que a próxima”. A sessão numérica continua.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. Site:
www.domNato.com.br

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

CONEXÃO RIO, KYOTO, BALI, COPENHAGUE



Artigo de Jair Donato

Foi aberta na capital dinamarquesa a Conferência sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas começou na última segunda, dia 7, na esperança de que resultados positivos podem advir dos seis dias seguintes de reuniões técnicas em que delegações de 193 países terão de apresentar propostas que cheguem a um acordo global de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa. Em clima de esperança, o secretário executivo da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança Climática, Yvo de Bôer, ainda na cerimônia de abertura do evento disse que o tempo de declarações formais acabou e que chegou o tempo de todos dar as mãos em prol do grande desafio, reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

O resultado esperado é que as negociações avancem neste encontro e que até o dia 18 de dezembro um novo acordo climático global possa ser firmado, principalmente com o compromisso dos países mais poluidores do planeta. Copenhague é considerada um ícone ambiental por ser a cidade mais “verde” dentre 30 outras grandes metrópoles, segundo um índice europeu que analisou indicadores como emissões, consumo energético, transportes, resíduos ou qualidade do ar. Espera-se que os representantes do mundo que se comprometeram em fazer parte desse novo acordo sobre o clima, estejam inebriados pela sensibilidade do verde da Capital anfitriã e que ouçam o clamor da natureza. E mais, que sejam solícitos a esse clamor pela via da sustentabilidade.

Desde o maior evento ambiental mundial até hoje, a Rio-92, que o mundo anseia pelo cumprimento de metas sensatas quanto a redução da poluição no planeta através da larga emissão de gases poluentes que engrossam a camada do efeito estufa, como o gás carbônico, expelido pela escala industrial, grandes áreas de desmatamento e pelo uso alastrado dos combustíveis fósseis. Já em 1997 estabeleceu-se o Protocolo de Kyoto, que pela primeira vez foram definidas metas obrigatórias para o os países industrializados, que deveriam reduzir as emissões de gases poluentes até 2012. E na 13 ª conferência anual dos países membros, realizada em Bali, 2008, decidiu-se trabalhar para um novo acordo pós-Kyoto, cujo plano visa agora, em 2009, uma negociação significativa na conferência de Copenhague.

Todas as tentativas, encontros e propostas são válidos. No entanto, espera-se que Copenhague não se torne apenas um desfile de grifes e de egos dos países altamente poluidores e que haja sensatez por parte dos respectivos representantes quanto ao acordo esperado. Faz-se necessário que cultura de preservar e conservar os recursos naturais, a menor escala na emissão de gases poluentes e o investimento em paradigmas sustentáveis seja o foco dos governantes daqui por diante e que isso se estabeleça como tendência global. Nas organizações corporativas, por exemplo, é perceptível quanto uma liderança influencia as equipes de trabalho. Da mesma forma, mediante a postura de seriedade assumida pelos líderes mundiais que discutem esse novo acordo sobre o clima pode ser uma decisiva contribuição social para que cada cidadão também se torne a mudança que deseja ver no mundo, como parafraseou Gandhi, e se comprometa com as emissões individuais, pois isso será, antes de tudo, uma questão de atitude.

Espera-se que governantes e líderes da economia mundial decidam por alternativas com foco no coletivo e não apenas visando o “próprio umbigo”. Somente com visão estratégica de ganho que considere as gerações futuras e beneficie já as gerações presentes, é que o mundo poderá ser contemplado pela via da sustentabilidade. Segundo o ambientalista Al Gore, que lançou em 2006 o filme Uma Verdade Inconveniente, “é difícil uma pessoa compreender uma situação quando o seu salário depende em não compreendê-la”. Embora muita gente gostaria de não mudar a forma de ganho, de produção e de consumo, é disso que o mundo depende. Mudar dói, transforma, mas é preciso. Quanto ao clima vamos ver no que vai dá o pós-Copenhague.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

SABEDORIA MÉDICA VERDE


Artigo de Jair Donato
Há um conto que retrata o episódio que ocorreu certa vez, entre o médico e a paciente. Ela num certo momento chega apavorada no consultório ginecológico, com um filho nos braços e diz: Doutor, o senhor terá de me ajudar num problema muito sério. Este meu bebê ainda não completou um ano e estou grávida novamente. Não quero filhos em tão curto espaço de tempo, mas num espaço grande entre um e outro. E então o médico perguntou: Muito bem. E o que a senhora quer que eu faça? A mulher respondeu: Desejo interromper esta gravidez e conto com a sua ajuda.

O médico então pensou um pouco e depois do seu silêncio disse para a mulher: Acho que tenho um método melhor para solucionar o problema. E é menos perigoso para a senhora. A mulher sorriu, acreditando que o médico aceitaria seu pedido. E então ele completou: Veja bem, minha senhora, para não ter de ficar com os dois bebês de uma vez, em tão curto espaço de tempo, vamos matar este que está em seus braços. Assim, a senhora poderá descansar para ter o outro, terá um período de descanso até o outro nascer. Se vamos matar, não há diferença entre um e outro. Até porque sacrificar este que a senhora tem nos braços é mais fácil, pois a senhora não correrá nenhum risco.

A mulher apavorou-se e disse: Não doutor! Que horror! Matar uma criança é um crime! Também acho minha senhora, mas me pareceu tão convencida disso, que por um momento pensei em ajudá-la. O médico sorriu e, depois de algumas considerações, viu que a sua lição surtira efeito. Convenceu a mãe que não há menor diferença entre matar a criança que nasceu e matar uma ainda por nascer, mas já viva no seio materno. Pois o crime seria exatamente o mesmo.

O aborto é um assunto polêmico e ao mesmo tempo em que é tratado por alguns como um absurdo, um crime perante a vida, para outros não. Afinal, o ser humano possui o direito de interromper uma vida no ventre materno, se assim o entender, em nome da liberdade, assim pensa muita gente. Contudo, a polêmica que existe em torno desse tema se deve pelo fato de algo que está ligado aos valores que cada um possui sobre.

Mas, numa visão macro, pensando globalmente, seria mesmo essa a única forma de aborto provocada pelo homem? Nas últimas décadas tem sido constatada a fragilidade da vida humana na Terra, na mesma medida em que as pessoas perdem a capacidade de cuidar do meio ambiente natural em que vive. O homem capitalista está abortando num ritmo veloz a oportunidade de preservar a qualidade de vida no planeta e conservar os recursos naturais, através da atitude criminosa do desperdício, do consumo demasiado e da destruição sem reposição. O ar limpo, tão necessário para as gerações presentes, como para as futuras, está cada vez mais poluído, uma espécie de asfixia que aflige o ser humano, mas é algo provocado por ele mesmo, cada vez que polui o ambiente em que vive, numa espécie de autosuicídio e de extermínio dos próprios descendentes.

É este ser humano mercantilista que foi gerado no “ventre da mãe Terra”, cujos corpos são semelhantes na constituição orgânica que sente, dentro de uma vasta diversidade de recursos naturais, que consegue destruir numa velocidade incomensurável a própria casa que o abriga e polui o ambiente que acolhe a si e aos próprios descendentes. A destruição da enorme complexidade natural do planeta ocorre de maneira tão insensível como se expelisse um feto, cujo significado parece está apenas na concentração de interesses próprios e de vaidades. Essa é uma forma de aborto ambiental.

Todas as consequencias globais devido as mudanças climáticas, a exemplo do aquecimento global, a proliferação de doenças em regiões do planeta antes inimagináveis parece se dá pela ruptura provocada pelo próprio homem com a energia que faz fluir a vida natural no planeta. E assim como o conselho médico da analogia acima, as catástrofes ambientais que ocorrem no mundo inteiro atualmente, soam como sérios alertas ao homem, sobre a situação que ele está provocando. Contudo, mais do que nunca, faz-se necessário que haja sensibilidade e percepção sobre o fato de que abortar as possibilidades de recuperar e preservar os recursos naturais do planeta coloca em risco a própria capacidade de viver na Terra.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

MUDANÇA DE CLIMA OU DE ATITUDE?


Artigo de Jair Donato
O que será necessário para o mundo atual, a mudança do clima ou de atitude? Segundo cientistas, a atual temperatura da Terra não regride e tende a aumentar. Por isso, tudo o que o ser humano fizer no sentido de cuidar da natureza contribuirá para amenizar, e, com isso não acelerar o processo de alteração da temperatura conforme dados previstos pelos estudiosos climáticos. No entanto, se não houver mudança no comportamento do homem frente aos desafios da produção, do consumo e da interação com o meio ambiente, certamente, o clima pode provocar complicações radicais no estilo de vida dos humanos.

Pesquisas recentes sobre os efeitos das alterações do clima ao redor do planeta indicam que os biomas estão cada vez mais vulneráveis aos efeitos climáticos, como as florestas tropicais, a exemplo da Amazônia, que a partir da próxima década começa a ter períodos de estiagem cada vez mais evidentes.

As mudanças certamente não ocorrerão como se fossem explosões mágicas, mas precisam de planejamento e de ações, o mais rápido possível, indicam os especialistas do clima. Todos os países precisarão rever os comportamentos administrativos e organizacionais ou serão submetidos a constrangimentos éticos no futuro próximo, especialmente os altamente poluidores. Isso também começa no âmbito individual. As pessoas precisam inserir no comportamento individual e coletivo, práticas sustentáveis e estilos de vida voltados para a qualidade de vida dentro de uma visão de futuro, com pensamento ambientalmente correto e com padrões de produção e de consumo que mantenha a preservação e a conservação dos recursos naturais.

No manual da reciclagem publicado no endereço eletrônico do Ministério do Meio ambiente, especialistas derrubam alguns dos mitos mais difundidos sobre a reciclagem e dão dicas básicas para quem quer começar a separar o lixo em casa. Isso antes de tudo, é atitude. Veja o que fazer:

Lâmpadas - Deve separar as fluorescentes num lixo à parte. Misturados aos outros restos, os cacos costumam ferir os catadores. Já as lâmpadas incandescentes não são recicladas, uma vez que, segundo mostram as pesquisas, não causam impacto negativo no meio ambiente - elas devem ser depositadas, portanto, no lixo comum.

Baterias - O que fazer: reciclam-se só as de telefones sem fio, filmadoras e celulares - as outras, assim como as pilhas, têm baixa concentração de metais pesados e por essa razão não são tidas como prejudiciais ao meio ambiente. Para reciclar, faça um lixo separado: como as baterias são frágeis, podem romper-se e contaminar o restante dos detritos.

Cacos de vidros planos e de espelhos - O que fazer: embalar em jornal e colocar num lixo separado. Seguirão para vidraçarias - e não para as tradicionais fábricas que reciclam vidro.

O óleo de cozinha - é um dos alimentos mais nocivos ao meio ambiente. Jogado no ralo da pia, ele termina contaminando rios e mares. Um litro de óleo de cozinha polui até um milhão de litros de água. Portanto, colocar o óleo em garrafas PET bem vedadas e entregá-las a uma das várias organizações especializadas nesse tipo de reciclagem é uma forma adequada de tratar esse resíduo.

A pesquisa é fundamental e isso cada um pode fazer individualmente para saber se é adequada a maneira como descarta os resíduos, seja em casa ou no trabalho. Mudar é o possível caminho para um planeta mais limpo. Dessa forma, para que todos tenham um clima melhor, o foco certamente estará em atitudes melhores.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

LIÇÃO DOS INDÍGENAS AMERICANOS - Parte 4


Artigo de Jair Donato
O que para portugueses, espanhóis, ingleses, franceses e holandeses foi um processo de colonização, descobertas e exploração de riquezas, para os nativos da América Central, do Norte e do Sul, os ameríndios, foi uma atitude de desrespeito, incompreensão e destruição de uma cultura milenar. A forma agressiva dos colonizadores, ao encarar o estilo de vida indígena, baseado no amor, na ética e no respeito ao meio ambiente natural, marcou para sempre a história de cosmovisão desses povos na face da Terra.

Estudiosos das nações indígenas mostram que ao adentrar na diversidade cultural deles, percebe-se um saber profundo que poderá ser útil para o ser humano fazer uma revisão nos conceitos e estilos de vida atuais. A exemplo da cultura dos Guaranis, indígenas que também habitaram o litoral do brasileiro, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai, ao transmitiram ensinamentos ao longo do tempo sobre a formação do universo, da Terra, da Natureza e do homem como se fosse uma teia na qual a existência de um se desdobra na continuidade do outro.

De forma geral a cultura dos ameríndios compreende que a Terra não é um simples aglomerado de recursos para serem explorados arbitrariamente. Eles sempre trataram a Terra como mãe, que está viva, e que merece ser tratada com respeito. Eles não concebem a ideia de matar animais, pescar ou cortar árvores por diversão, mas sim para atender as próprias necessidades. Mesmo quando são necessários cortes de árvores ou grandes caçadas e pescarias, antes, eles promovem rituais de perdão como forma de permanecer a aliança de harmonia entre todos os seres, tamanha a sensibilização desses sábios ancestrais.

Para os nativos, o ser humano foi criado para viver feliz e celebrar toda a criação natural. Essa é uma visão imprescindível para que o homem atual consiga desenvolver uma civilização sustentável daqui por diante. Os indígenas são verdadeiros ecologistas, pois o conhecimento profundo que mantiveram durante milênios sobre o meio ambiente, a adaptação aos ecossistemas e a ocupação da terra de forma equilibrada e restaurativa é algo sublime, o que não ocorre com homens “modernos”. E, por falta dessa visão integrada com todos os seres e com a natureza, o homem, desde o período da colonização nas Américas, está pagando caro por isso.

A autora do livro “O índio na cultura brasileira”, Berta Ribeiro, aborda sobre as técnicas agrícolas utilizadas pelos indígenas que respeitam o ambiente natural, a exemplo da “cultura itinerante”, em pequenas áreas. Ela cita algumas vantagens dessa prática como a manutenção da fertilidade orgânica, o desmatamento de pequenas partes e utilização temporária de cada parte derrubada e queimada, assim como a plantação de espécies diferentes e de plantas adequadas ao ambiente natural. Além disso, o cultivo de plantas nativas ajuda na recaptura de micronutrientes e não provoca competição entre as plantas essenciais.

Mostra ainda a autora que a dispersão dos campos cultivados é um fator que minimiza a incidência de pragas na plantação, propicia a preservação de espécies vegetais e animais nos “corredores naturais”, por serem importantes refúgios ecológicos. E também a queimada em pequena escala e o apodrecimento de galhos e de troncos devolvem ao solo vários nutrientes que alimentam os brotos. A troca do arado ou do trator pela estaca no processo de cavar para semeadura revolve a terra sem tirar sem aumentar o oxigênio aceleradamente durante a decomposição orgânica, dessa forma não danifica o solo.

A cosmovisão de coexistência, peculiar aos ameríndios, talvez seja a receita primordial para que haja qualidade de vida às gerações atuais e, principalmente, às futuras. O visível é parte do invisível, essa é uma consciência ancestral que deve ser resgatada. Especialmente, os nativos da América do Sul, que além de acreditarem na existência de um espírito superior, criador do Universo, acreditam também que cada ser vivo é a conexão com esse ser supremo, por isso a importância do respeito e da reverência. Certamente, a compreensão sobre o estilo de vida dos ameríndios abordados nesta série, será de acordo com a sensibilidade de cada um.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

LIÇÃO DOS INDÍGENAS AMERICANOS - Parte III



Artigo de Jair Donato

Neste artigo a abordagem será sobre os elementos que permeiam a história, o pensamento e a visão dos nativos da América do Sul e Central, regiões em que três civilizações, Astecas, Maias e Incas, tiveram população e construções impressionantes. Nos locais que se localizavam o Brasil, o Uruguai e o Paraguai, viviam cerca de 1400 nações por volta do ano de 1500, com uma população de cinco a oito milhões de nativos, que falavam mais de mil línguas que se dividiam em dois grupos principais, Tupis e Macro-Jê. Esse povo não construiu grandes cidades, mas possuía um conhecimento profundo sobre o meio ambiente natural.

No entanto, os portugueses e espanhóis, posteriormente seguidos pelos ingleses, franceses e holandeses, no processo de colonização da América, alteraram as condições de vida dos ameríndios, provocando drástica redução e desaparecimento de várias daquelas nações, fato lamentado pelos antropólogos e demais estudiosos sobre a cultura e a sabedoria dos nativos

O mercantilismo, desenvolvido entre os séculos XV e XVIII, foi uma nova cultura desenvolvida nas regiões aonde antes só era aplicado o conhecimento natural na agricultura, de tal maneira que as atividades econômicas mudaram de forma significativa e afetaram diretamente o estilo de vida indígena, povo que mesmo com uma sabedoria profunda e extrema sensibilidade, foi praticamente destituído do direito de dar continuidade na vida que possuía, com respeito e sacralidade a natureza.

Os autores Prezia e Hoornaert, na obra “Brasil Indígena: 500 anos de resistência”, mostram que nesse período do crescimento do mercantilismo foi a época em que a riqueza tanto do homem como da nação passou a ser medida pelo número de moedas de prata e ouro que cada um possuía. A Europa nessa época sofreu pela falta desses metais e a exploração foi a única causa dos muitos desbravadores, que lutavam por um valor que não era cultuado pelos nativos, mas que afetou a vida deles para sempre.

A corrida para a busca desenfreada do ouro e da prata teve a largada geral com apoio até mesmo da igreja, pois dessa forma o evangelho seria conhecido amplamente, segundo os cristãos. Os autores mostram que a colonização e a exploração dos metais era um projeto de conquista comercial e que a igreja se afastou mais ainda do espírito de evangelização, ao aderir a essa causa, tornando-se aliada dos reis e dos conquistadores. O benefício maior foi aos aristocratas e a burguesia comercial. Foi uma época que o único interesse era o comércio, a exploração e o lucro.

As características próprias do povo indígena foram ignoradas no processo de conquista pelos exploradores. As formas de expressão cultural, as crenças e os ritos das tradições dos ameríndios, por serem opostas ao cristianismo, foram rechaçadas pelos colonizadores cristãos, pois para eles se tratava de feitiçaria. Pelo fato da igreja ter arraigado o conceito de bem e mal, do que era demoníaco, foi dessa forma que encarou também as danças e as práticas religiosas dos indígenas, tamanho desrespeito a uma cultura milenar.


Prezia e Hoornaert comentam sobre o grande massacre que houve nas áreas da América do Sul e Central durante o processo de colonização. “Na América espanhola, um número imenso de indígenas foi morto logo após a invasão européia. No México, dos 25 milhões de habitantes que havia em 1519, cem anos depois restavam 750 mil. A ilha aonde Cristóvão Colombo chegou, em 1492, hoje República Dominicana e Haiti, possuía 100 mil habitantes dos quais apenas trezentos sobreviveram após um século”, apresentam os autores. Dos 5 a 8 milhões de índios que havia na época em regiões em que hoje estão o Brasil, o Paraguai e o Uruguai, pelo fato de terem sofrido o mesmo processo de colonização, por volta de 1950 essa população já tinha sido reduzida a um número de 200 mil.

Todos esses fatos mostram o quanto foi destruído um estilo de vida e uma cultura baseada em amor, ética, respeito e sentimento natural, destituído de interesse exploratório e distanciado de uma visão etnocentrista. É assim que vivia o povo indígena da América Central e do Sul, que tinha a crença no sagrado e percebia que todo o universo era a expressão da vida por meio do espírito, seja de cada animal ou de cada planta. Para eles, dessa forma todos poderiam se ligar ao “espírito do Criador”, por meio dos espíritos individuais. Certamente não foram entendidos pela arrogância e pela falta de sensibilização de uma raça humana exploradora e ainda com o aval religioso da época. O próximo artigo, finaliza esta série com a cosmovisão do povo indígena.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

LIÇÃO DOS INDÍGENAS AMERICANOS – PARTE II



Artigo de Jair Donato

No artigo anterior a abordagem foi sobre a visão de sacralidade, respeito e convivência ética que os primeiros habitantes do continente norteamericano mantiveram por milênios, antes da chegada dos europeus, fato que mudou uma cultura nativa de cerca de 40 mil anos, principalmente na relação com o meio ambiente. O controle do uso da terra para prevenir a extinção de espécies, o uso apenas do necessário, a proibição do desperdício da comida, foram valores éticos transmitidos como sagrados pelas tradições dos mais velhos às gerações seguintes.

Os ameríndios sempre foram dotados de um conhecimento explícito sobre a interação que cada espécie do ecossistema tinha com outras espécies, inclusive com os seres humanos. Por viverem de forma flexível com o mundo natural, a mudança para eles, não era uma linha irreversível, mas uma curva unindo o final ao começo. Havia também uma compreensão intuitiva sobre as questões ecológicas e isso era expresso em lendas e mitos através das tradições transmitidas de geração em geração.

Tamanho era o sentimento de respeito e de sensibilidade ao meio ambiente natural que os nativos americanos rejeitavam métodos que ferissem a terra ao tratá-la, a exemplo da não aceitação que eles tinha aos mineradores de fronteira, que cavavam buracos e até aravam as propriedades dos fazendeiros. Para os nativos isso era como rasgar os seios da mãe terra, pois eles utilizavam apenas bastões para cavar, como símbolo natural do processo de fertilização. Mas, cavar a terra com bastões será adequado nos dias de hoje com número populacional que existe na terra, devido à necessidade de alimentos? Alguém pode argumentar.

Não é essa a lição para os tempos atuais, o que deve ser apreendido nesse contexto é o tratamento dado ao meio ambiente que os ameríndios tinham, o que também pode ser praticado hoje em dia, adequando-se as ferramentas e as tecnologias disponíveis às necessidades da realidade presente, se houver consciência. A produção e o consumo ecologicamente corretos, a cultura por manejo, a preservação e a conservação dos recursos naturais, o fim da exploração descomedida da terra, do ar e da água, são alguns dos exemplos para que homem contemporâneo possa se relacionar bem com a natureza.

O pensamento central dos ameríndios pode ser descrito como circular, intuitivo e inclusivo, a exemplo dos Lakotas, que viviam nas planícies do norte dos EUA, a terra dos búfalos. Eles consideravam essa forma de pensar tanto na simbologia como prática, a exemplo das moradas que eram construídas em forma circular, para lembrá-los que a vida flui em círculos e que todos são interconectados. Na perspectivas deles a vida move-se em círculos, a exemplo da lua e do sol que se movem em círculos. A vida era vista como um ciclo para todos os seres, que é o nascimento, a infância, a fase adulta, o envelhecimento e a morte. Em suma, a mente nativa era repleta de um profundo sentimento de reverência pela natureza, que para eles é um todo maior e a humanidade é apenas uma parte, que deveria se ver como dependente dela e não como dominadora.

Conforme a visão holística dos nativos, tudo possui vida e em cada elemento da natureza está presente essa mensagem, por isso, é fundamental decifrar, interpretar e refletir sobre ela. Em tempos atuais, é importante analisar sobre a consciência ancestral dos ameríndios, que parte do princípio de que o visível é parte do invisível, talvez isso dependa somente da sensibilidade do homem neste atual estágio da humanidade. O próximo artigo abordará a visão dos indígenas das Américas do Sul e Central, que ao longo do tempo estabeleceram uma cultura com relações econômicas, na luta por uma coexistência de harmonia com os elementos naturais.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

LIÇÃO DOS INDÍGENAS AMERICANOS - Parte I



Artigo de Jair Donato

As tradições indígenas se traduzem em valiosas lições para o atual estágio da humanidade em que muito se perdeu na conexão com a natureza e o verdadeiro considerar ecológico. A sabedoria do povo indígena é profunda e fala de um progresso de integração pessoal comunitário e ecológico. Nesta série a reflexão será em torno do modo de viver e de interagir com o meio ambiente natural sob a visão indígena, especialmente dos nativos da América do Norte, da América Central e da América do Sul.

Quanto aos nativos norteamericanos, foram mais de quinhentas nações de índios que viveram por cerca de 40 mil anos numa cultura integrada a natureza, com perspectivas e pensamentos bem diferentes da visão dos europeus quando chegaram ao continente deles. Os índios conheciam todas as terras, desde desertos, pântanos, planícies e florestas, até que as colonizações européias começassem a invadir esses territórios e a mudar a vida daquele continente para sempre. Foram nas primeiras colonizações que deram certo, como a dos espanhóis, de Santo Agostinho, por volta de 1565 e a dos ingleses, em 1607, em que os colonizadores trouxeram companhias desagradáveis como a malária e a varíola, doenças que os ameríndios não resistiam por falta de imunidade. Só essas epidemias dizimaram vilas em até 90% das populações

Para os nativos a terra era sagrada e não tinha donos individuais, ela pertencia ao Grande Espírito. Eles não compreendiam o costume dos colonizadores, que comercializavam as terras. E, os europeus, por não reconhecerem a soberania dos nativos, compravam os terrenos deles com ferramentas, dentre outras miscelâneas. Mas, isso para os índios era no máximo, uma espécie de arrendamento e tudo continuava sendo algo coletivo. No entanto, perceberam que se comessem um dos animais criados pelos brancos, era exigido deles uma indenização, o que gerava conflito e revides entre as partes, pois os índios entendiam tal negociação de um jeito equivocado.

Os ameríndios, por serem nômades, mudavam com frequência de moradia e as posses que tinham eram potes, arcos, cestos estacas para cavar e ajudar na vida cotidiana. Cultivavam grãos e uma variedade de plantas sempre com controle de queimadas em áreas de vegetação, garantiam a vitalidade do solo, deixando-o descansar enquanto plantavam em locais diferentes. O antropólogo Marshall Sahlins se refere a esse comportamento indígena como o entendimento que eles tinham de viver ricamente, devido ao profundo conhecimento que possuíam sobre a natureza. “Todas as coisas apareciam quando necessárias e desapareciam quando os propósitos eram atingidos”, diz Sahlins, sobre o pensamento dos nativos.

No entanto, as colônias de invasores nesse território até então sagrado, cresciam vertiginosamente e os nativos americanos eram forçados a recuar. Os europeus, com tecnologia militar superior aos arcos e flechas indígenas, triunfavam, reduzindo-os a confinamentos restritos. Geronimo, o último ameríndio a render-se aos europeus, que resistiu até 1886, foi o símbolo de uma história trágica, de desconsideração àquelas tribos nativas que foram reduzidas drasticamente. Dentre várias passagens tristes dessa história, destaca-se o caso de Cheyenne, que foi levada por mil milhas a pé, por uma caminho que passou a ser chamado de “trilha das lágrimas”, enquanto muitos outros morriam ao longo daquela longa jornada situada da Geórgia até Oklahoma, área designada na época como território dos índios. Segundo registros da história, houve brutalidades, corrupção e tentativas de fazerem com que os índios pensassem como os europeus invasores. Embora muitos deles tenham estudado como o homem branco, no coração ainda pensavam como índios.

Consta no livro “Ecologia dos Índios Norte Americanos” de J. Donald Hughes: “Para os índios americanos, a ecologia não era um assunto separado ou algo para ser pensado somente em determinada parte do tempo, tratava-se de um assunto que envolvia todo um modo de vida. Para eles, as coisas que nós chamaríamos de ecologia afetavam e eram afetadas por tudo o que eles faziam.” Portanto, ao verem aqueles homens com costumes diferentes, de cultura mercantilista, eles os consideraram como pessoas rudes e individualistas, que viam o mundo apenas de uma perspectiva individual, que só pensavam em dominar a Terra e dividi-la em parcelas imobiliárias, cidades, estados e países. Mas, o relacionamento entre nativos americanos e a terra é o de confiança sagrada. Continua no próximo artigo.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

RELIGIÃO E MEIO AMBIENTE


Artigo de Jair Donato
Questões ligadas ao meio ambiente, a sustentabilidade e a utilização dos recursos naturais envolvem a sociedade num contexto tão complexo que vai além dos limites políticos, científicos ou tecnológicos. Envolve principalmente os aspectos intangíveis da consciência e da cultura. Desse ponto de vista, a religião também, por envolver tais aspectos intangíveis, pode contribuir com valiosas reflexões para melhor compreensão e mudança sobre as questões climáticas.

No entanto, será que através da religião a raça humana poderá ser “salva” das intempéries climáticas? Será que existe uma tradição religiosa, uma perspectiva filosófica ou política que tenha uma solução ideal para as questões ambientais? Dada a complexidade que é esse assunto, seria pretensioso afirmar que um único segmento poderia oferecer respostas prontas, no que se refere às mudanças climáticas, o maior desafio global da humanidade atualmente. Há séculos que as principais religiões do mundo prezam os aspectos da natureza, algumas incisivamente mantêm preceitos a respeito do cuidado com os recursos naturais nos próprios ensinamentos, então fica a pergunta: Por que elas não conseguiram atingir esse objetivo? Por que falharam nesse processo e o mundo chega a um caos no clima?

Uma concepção adequada aos tempos de hoje é são as pessoas que possuem nas mãos a chave para a solução das questões climáticas. E nessa etapa, a religião, independente do credo e para quem achar adequado praticá-la, poderá ajudar no processo de sensibilização, como educação mental e espiritual. Portanto, ela tem fundamento e importância no que tange aos acontecimentos na Terra, mas a responsabilidade é geral, de todos os segmentos, e isso parte de cada indivíduo. Afinal, consciência não possui rótulo nem dogma religioso.

Através da religião muitos seguidores ressignificam o estilo de vida que possui. Porém, se o ensinamento religioso, seja qual for, for mal interpretado, poderá levar ao “fundamentalismo” e perturbar a paz. A adequação à contemporaneidade é um dos fatores primordiais para que uma religião continue “viva”, sem se prender apenas aos aspectos históricos de outrora ou a ritos tradicionais, sem conexão com o mundo presente.

Certamente, a missão atual da religião não será apenas a de manter ritos e tradições seculares e pregar métodos de cura e doutrinas atemporais sem orientar a conduta dos seguidores sobre questões do cotidiano, como as mudanças climáticas. O destino das religiões que não adequarem os ensinamentos que possuem às necessidades do mundo presente, sem apego a rótulos ou a tradições antigas, deixarão de ser necessárias a humanidade. Esse é o paradigma da religião viva, que “salva no aqui e agora”.

É de uma nova consciência, comum a todas as crenças e segmentos sociais, como também no mundo dos negócios e nos governos, que os povos de todo o planeta precisam agora, pois a Terra aquece rapidamente. Até agora, foram vários os religiosos que iniciaram ou deixaram legados importantes, muitos seguidores, posteriormente, fundaram movimentos religiosos diferentes se sucedendo em dissidências, compostas de formas e ritos distintos. No entanto, cada uma delas, se vista na essência, deve possuir o mesmo objetivo, o de proporcionar a paz, o amor, conforto, seja do corpo, do espírito e do ambiente.

Há pessoas que ainda consideram as questões ambientais como um problema de ordem técnica. Essa visão, invariavelmente, pode provocar uma ruptura na relação entre o ser humano e o meio ambiente. Se a questão fosse apenas técnica, como apregoa o tecnocentrismo, não haveria necessidade de provocar mudanças na mentalidade do homem sobre o cuidado com os recursos naturais da terra. O ambiente seria então apenas um instrumento para ser utilizado pelo próprio homem sem a necessidade de preservá-lo, conservá-lo ou recuperá-lo.

Esta série composta de 07 artigos sobre religião e meio ambiente, propõe uma abordagem sobre a visão geral da natureza do ponto de vista religioso. O leitor vai conferir o tema “meio ambiente” pela ótica das principais religiões ao redor do mundo, a começar pelo hinduísmo, seguida pelo budismo, islamismo, judaísmo, cristianismo, jainismo. Por fim, a visão de um movimento religioso contemporâneo, a Seicho-No-Ie, um exemplo mundial de “religião viva” que se compromete com o meio ambiente. É importante que despidos de visões preconcebidas, se estabeleça a compreensão da “verdade comum” pregada pelos diversos tipos de religiões, do que apenas se manter preso aos aspectos que as diferenciam uma das outras. Enquanto isso não ocorrer, certamente a paz mundial não se manifestará, tampouco cessará o sentimento de autopunição do ser humano que o faz destruir a si próprio como a casa em que mora, o planeta Terra.

Cabe esclarecer que os pontos que serão destacados nesta série, sob a ótica ambiental em cada uma das principais religiões, tem o objetivo de proporcionar ao leitor uma reflexão ética e moral sobre o estilo de vida do ser humano no planeta, sem pretensão de fazer defesas peculiares sobre esta ou aquela doutrina, nem mesmo abordar dogmas ou ritos, o que compete aos próprios seguidores de cada uma delas.

Como é que a essência de cada uma das religiões existentes, um número bem maior do que o exposto nesta série, poderá contribuir para o repensar individual e coletivo com foco na mudança de atitude? O que será que pensaram os iniciadores dos movimentos religiosos existentes e o que constam nos próprios ensinamentos sobre o cuidado com o meio ambiente e os recursos naturais? Como resolver as questões das alterações climáticas através dos ensinamentos pregados pelos líderes e estudiosos das principais religiões da face da Terra? Será mesmo que os seguidores atuais estão em consonância com o objetivo inicial de cada religião proposta, frente ao desafio das alterações do clima?

Definitivamente, só cuidar da alma para a “pós-morte” não parece algo coerente neste século, época em que a humanidade precisa de mais ética, moral e espiritualidade na relação e no convívio sócioambiental, aqui mesmo neste mundo. A religião tem importância na cultura de diferentes povos, mesmo num País laico como é o Brasil. Por isso espera-se que ela exerça influência positiva no comportamento dos seguidores e simpatizantes para que adotem novas posturas e estilos voltados para a preservação e a conservação dos recursos naturais.

Em 2007, ano do lançamento do quarto relatório do Painel Inter-governamental de Mudanças Climáticas (IPCC), houve um encontro de liderança da comunidade científica e de igrejas evangélicas americanas, ocasião em que cerca de 30 líderes assinaram um acordo e o encaminharam ao governo dos EUA e a líder da Câmara de Representantes, também a outros responsáveis políticos e de associações científicas e religiosas. O documento sugeriu o seguinte: "Os responsáveis de todos os setores de atividades do nosso país - religioso, científico, econômico, político e educativo - devem trabalhar juntos sem demora para mudar fundamentalmente os valores, o estilo de vida e as políticas para responder ao agravamento dos problemas ambientais antes que seja tarde demais". É o início de uma nova consciência.

No ano de 1836, o ensaísta Emerson, considerado o pai da psicologia americana, assim expressou na obra intitulada “Natureza”: “Todo o processo da natureza é uma tradução de um texto que revela a moral. Os princípios da moral estão no centro da natureza e são eles que emitem a luz ao seu redor. Que é uma propriedade rural senão um evangelho do silêncio? A palha e o trigo, a erva daninha e a vegetação, a praga, a chuva, o inseto, o Sol – são todos emblemas sagrados de todo ano, desde o preparo da terra para as plantações até o recolher”.

Sem dúvida, o pensamento religioso tem importância secular na cultura dos povos do mundo inteiro. Assim como se aplicam na atualidade vários preceitos religiosos no mundo dos negócios, nos relacionamentos e na administração, convém que seja possível também tirar o máximo desses ensinamentos propostos para que o homem adquira mais consciência na relação com o meio ambiente natural. Essa pode ser uma “salvação” coerente do “aqui e agora”.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

SEICHO-NO-IE E O MEIO AMBIENTE







Artigo de Jair Donato


Até aqui foi abordado sobre o que algumas das principais religiões do mundo, como também as mais antigas, numa visão geral, têm a oferecer através dos ensinamentos que possuem, para solução das questões ambientais. O assunto meio ambiente foi apresentado sob o ponto de vista do hinduísmo, do islamismo, do budismo, do judaísmo, do cristianismo e do jainismo. Gostaria de encerrar esta série com um exemplo de como o mundo religioso, através da consciência dos praticantes, pode contribuir para a qualidade de vida na Terra, como é o caso da Seicho-No-Ie.

Trata-se de um Movimento filosófico-religioso, monoteísta e não sectário, iniciado no Japão na primeira metade do século XX pelo Ph. D. Masaharu Taniguchi. A Seicho-No-Ie entrou para a história da humanidade como provavelmente a primeira entidade do segmento religioso a se comprometer com as questões ambientais. No Japão, todas as instalações, templos, academias e regionais doutrinárias, já foram certificadas desde o ano 2000 pelo Sistema de Gestão Ambiental ISO 14001, como padrão internacional de preservação ambiental e ecológica. E, por orientação da Sede Internacional, todos os países em que a Seicho-No-Ie está presente estão trabalhando pela difusão do pensamento ecológico proposto pela entidade, como é o caso da Sede Central do Brasil, que já está à beira da certificação da referida ISO.

A Seicho-No-Ie, ao mesmo tempo em que propaga amplamente a fé religiosa, busca atuar nos problemas ambientais, contribuindo na manutenção ecológica da Terra. Ela mantém uma diretriz ecológica onde as doutrinas tradicionais são harmonizadas através de uma vida religiosa moderna, que não se limita aos ensinamentos tradicionais, mas também às necessidades da vida que o mundo atual globalizado exige, de maneira que o objetivo principal de uma religião, a concretização da paz mundial, seja alcançado. Para reduzir o aquecimento da Terra, bem como ajuda para a manutenção da biodiversidade, a Seicho-No-Ie têm realizado campanhas de arrecadação de verbas destinadas a recuperação e reflorestamento das matas do mundo.

E como lição de casa, orienta a todos os adeptos, através de diretrizes ecológicas para que adotem práticas ambientalmente corretas em relação utilização dos recursos naturais, sobre a reciclagem, a utilização de energia limpa, como conscientização de que tudo deve ser vivificado e usado com amor e sabedoria. No caso do Japão, os adeptos são incentivados a instalarem também nas residências os painéis solares, para que cada vez mais seja possível aproveitar dessa fonte energética verde. Assim como na residência do Supremo Presidente, já existem centenas de pessoas físicas e jurídicas que adotam essa prática. É cada vez maior o número de quilowatts de painéis solares instalados pelos adeptos da Seicho-No-Ie.

Os adeptos são incentivados ainda ao uso dos carros híbridos, fato possível devido o Japão ser um dos países com tecnologia mais avançada nessa área. Além disso, também são incentivados a usarem bolsas retornáveis para que seja evitado o uso das sacolas plásticas, assim como o repensar quanto ao consumo de carne, dentre um vasto leque de outras atividades propostas.

Além do investimento na instalação de painéis e o cuidado na seleção de fornecedores que estejam voltados para atividades ecológicas, quando são realizados grandes eventos pelo País, são feitas medições da energia utilizada e é doada a diferença da taxa de energia elétrica tradicional com a energia elétrica gerada através dos ventos, a energia eólica, que é mais cara, para as entidades japonesas que estão produzindo esse tipo de energia. No Brasil, como redução de custos e de impactos ambientais, vários eventos para a liderança já são aplicados virtualmente, evitando assim muitas viagens e outros dispêndios.

Através de exemplos como estes, a Seicho-No-Ie expressa globalmente a idéia de que é possível que todas as religiões possam contribuir concretamente em prol do planeta Terra, através da sensibilização dos bilhões de adeptos que possuem, e, desenvolverem atividades que promovam mudanças no estilo de vida humana com foco na preservação e na conservação dos recursos naturais, na produção sustentável e no consumo consciente. Pois ela entende que essa é uma missão atual do pensamento religioso. A base do ensinamento está no fato de ser imprescindível ao homem viver com sentimento de gratidão ao mundo natural.

Por ser uma filosofia de vida aplicada, está no cerne do que apregoa, a importância do homem adotar um estilo de vida que esteja em harmonia com a natureza. Consta na Sutra Sagrada “Chuva de Néctar da Verdade”, súmula do Ensinamento, o seguinte: “Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra. Quando te reconciliares com todas as coisas do céu e da terra, tudo será teu amigo... Agradece a todas as coisas do céu e da terra”.

Esteve no Brasil recentemente o professor Masanobu Taniguchi, Supremo Presidente da Seicho-No-Ie, ocasião em que orientou lideranças de vários países e reafirmou sobre o comprometimento com a natureza, a exemplo de espiritualidade ligada às questões ambientais. Ele defende o pensamento de que: “Mesmo que o indivíduo leve uma vida religiosa, se o planeta Terra, onde nós vivemos, for destruído, não poderá desfrutar a felicidade. O mundo precisa de religiosos em ação, sinceros e sem culpa”.

Segundo a Seicho-No-Ie, não deve haver separação entre a vida religiosa e a vida cotidiana. Ou seja, cuidar dos relacionamentos, do meio ambiente em que vive, empreender-se em trabalhos sustentáveis, buscar a melhoria pessoal e profissional de forma ética, tudo isso é o próprio viver religioso. Não agredir o meio ambiente da Terra significa a realização de um mundo em que os seres vivos vivam se respeitando mutuamente, conforme a vontade divina. O mestre Masaharu Taniguchi, iniciador da Seicho-No-Ie, assim expressou: “Todos somos um só. No fundo, somos a extensão de rios e a umidade de nossa boca tem sua nascente na quietude dos córregos.”

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

MUNDO DO JAINISMO E MEIO AMBIENTE



Artigo de Jair Donato

Jainismo é uma das religiões mais antigas da Índia, cuja origem é contemporânea ao budismo, caracterizou-se por não aceitar os ensinamentos védicos e pela oposição ao sistema de castas, imposto pela cultura brâmane. Surgiu por volta do século V a.C., sendo que no primeiro século d.C. se dividiu em dois principais grupos, com vários subgrupos. O jainismo surgiu como um movimento de reforma do hinduísmo, teve como fundador, Vardhamana Mahavira, pertencente a uma casta de guerreiros, que viveu na opulência no início da vida, vindo a desfazer-se das paixões mundanas e inconformado com as posições religiosas da época, estabeleceu uma dissidência que mais tarde se tornou uma nova religião. Mahavira dedicou-se a pregação de uma vida de ascetismo, desapegada ao luxo, em conexão com o mundo natural.

Atualmente, os Jains estão espalhados pela Índia e uma pequena parte na América do Norte e na Europa, com pouco mais de nove milhões de adeptos. Não está dentre as maiores religiões, mas é um ensinamento que se traduz numa profunda ligação de respeito com o meio ambiente natural, embora tida como radical pela forma como alguns seguidores se propuseram a viver no cotidiano. Os Jains não acreditam num único deus criador, mas sim que o tempo é eterno e cíclico. Segundo o estudioso sobre jainismo, o escritor, diretor e produtor, Michael Tobias, os seguidores dessa religião não cultuam Deus porque isso é visto como uma forma de interferência que se contradiz à natureza. A prática deles é a reverência ao ambiente natural, acreditam que o amor consciente é o instinto da natureza que evolui, que alimenta a alma e tem uma finalidade, diz Tobias.

O estudioso apresenta que existem pouco mais de meia centena de monges Jains na Índia que vivem nus, consomem puramente comida vegetariana, como frutas, verduras, grãos e nozes. Mesmo após período de Jejum eles comem uma refeição por dia apenas. Os adeptos praticam a redução do consumo, se devotam a minimizar a violência, e se alimentam apenas dos alimentos que possuem um sentido, resguardando os demais que possuem os cinco sentidos, como os animais. Eles renunciam também as profissões que possam prejudicar os animais, seres que são cuidados por eles, sendo conduzidos para que tenham morte sempre de forma natural, consideram que toda alma de cada organismo é um indivíduo, que possui sonho, vontade e esperança, todos sentem dor e ninguém deseja sofrer. O autor comenta que os Jains interagem com a natureza de tal forma que são capazes de irem até o mercado para comprar animais, por alto preço, como carneiros e cabritos, para livrarem dos matadouros, e cuidam deles para que voltem ao convívio na natureza.

Os médicos jainistas, segundo Tobias, não prescrevem remédios derivados de produtos de origem animal ou que tenham sido testados em animais. Os advogados são rigorosamente contrários a qualquer tipo de violência física como punição. Embora indianos, os adeptos não fazem uso dos saris de seda, vestimenta feminina, pelo fato que para fabricação de cada peça desse tecido, é necessário que aproximadamente dez mil bichos da seda sejam mortos, pois são cozidos vivos. Eles renunciam também aos veículos, por matarem insetos na locomoção. E ainda, a ejaculação para eles deve ser controlada, pois são milhões de espermatozóides que morrem a cada vez que se ejacula, e isso não é auspicioso, pois causa destruição e confusão no equilíbrio bacterial da genitália feminina.

Os adeptos dessa religião valorizam a prática da meditação, seguem um padrão mínimo de consumo para provocarem menos impacto na terra. Dessa forma acreditam que conseguem proteger o mundo natural e ligar novamente a natureza ao todo, e com total não-violência. Algo interessante é que dois milênios antes da descoberta do átomo, que foi em 1805, por Dalton, o ensinamento jainista já era atomista, pois ensinava que os átomos desse mundo material eram indivisíveis, semelhantes e dotados de movimento, tangibilidade, sabor, odor e cor, que se combinavam, formando agregações, constituindo assim o mundo material, assunto fomentado pelos filósofos socráticos e hoje permeado de estudos científicos.

A abordagem sobre essa religião não é nenhuma apologia a esse modo de viver, que segundo muitos críticos, é caracterizado como radical. Mas, apenas para mostrar as diferentes formas de respeito que existem, como a reverência à natureza através da crença e do estilo de vida de vários povos, através dos séculos. No próximo artigo, a visão da Seicho-No-Ie sobre o meio ambiente, a primeira entidade do segmento religioso no mundo, a receber ISO 14001.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

MUNDO DO CRISTIANISMO E MEIO AMBIENTE



Artigo de Jair Donato

Jesus, o homem palestino que nasceu em Nazaré, por volta do ano 4 a.C., não aceitou todas as leis aplicadas pelo judaísmo, se tornou um profeta social, desafiou limites da época em que viveu e inspirou o surgimento da religião mais difundida no mundo, o cristianismo, que se estabeleceu décadas depois da estada dele na Terra. Surgiu então o Novo Testamento como releitura da Bíblia judaica, mas baseada na história que apregoou Jesus de Nazaré. Então, teria esse judeu revolucionário deixado ensinamentos sobre o cuidado com o meio ambiente?

Quanto a isso, o monge beneditino, teólogo Marcelo Barros e o jornalista religioso, Frei Beto, apresentam que nas palavras e ações de Jesus não aparece um ensinamento ecológico de forma explícita, conforme os evangelhos. Embora as parábolas que ele contava se referiam constantemente à natureza, aos pássaros, aos lírios do campo, além de ter proposto aos discípulos dele que lessem os sinais do tempo no Sol, no céu e nas condições do vento, comentam.

Mas, o cristianismo atual carregado de dissidências, a partir da primeira igreja dirigida por Pedro e são muitas as ramificações pelo mundo afora, em nome de Jesus Cristo, oferece um legado enorme que pode ser aplicado e interpretado de diferentes maneiras. Quanto aos católicos romanos, a história está permeada de homem santos, a exemplo de São Francisco de Assis, condecorado como patrono da ecologia, pelo papa João Paulo II, devido a veneração à natureza que ele possuía, a ponto de tratar as abelhas no inverno, dando-lhes mel e denominar os astros de irmão Sol e irmã Lua.

João Paulo II, o representante máximo da igreja dos romanos, em 1990, no Dia Mundial da Paz, afirmou: “Observa-se nos nossos dias uma consciência crescente de que a paz mundial está ameaçada, não apenas pela corrida aos armamentos, pelos conflitos regionais e por causa das injustiças que ainda existem no seio dos povos e entre as nações, mas também pela falta do respeito devido à natureza, pela desordenada exploração dos seus recursos e pela progressiva deterioração da qualidade de vida”.

No entanto, existem correntes de pensamento, com base em versículos bíblicos que interpretam que o fato de Deus ter colocado o homem como senhor dos animais e plantas, significa que as pessoas podem fazer o que bem entenderem deste mundo. Conforme consta no livro do Gênesis 1. 26-27, apregoado durante séculos pela igreja: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, e que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Deus disse, conforme o Gênesis, que era para que o homem crescesse e multiplicasse e depois o colocou no jardim do Éden.

Mas, seria o aumento populacional e os desastres ecológicos causados unicamente por esse preceito bíblico? Tal análise parte da consideração do princípio de que se o ser humano é superior aos demais seres e é o mais importante dentre eles, por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus, ele se apodera de uma postura antropocêntrica, como se fosse o senhor da natureza e explora ao bel prazer o mundo afora para produzir alimento, bebida e abrigo, etc.

Contudo, existe também o pensamento contrário a esse, que ao interpretar os mesmos versículos bíblicos, considera que o Criador, ao dar poder ao homem sobre os outros seres, deu-lhe, na verdade, uma enorme responsabilidade, razão pela qual ele deve zelar, cuidar e amar a natureza e tudo que nela existe, como também amar ao próximo, tanto quanto a si mesmo. A verdadeira concepção vinda do hebraico sobre “dominai e submeter” não é de se sentir superior a natureza, dando-lhe o direito de destruí-la, mas, no sentido de cuidar dessa herança e fazê-la progredir o que nela contém, significa cuidar, proteger, como faz alguém que planta, rega e apara o jardim da própria casa, afirmam estudiosos.

Esse segundo pensamento parece coerente e mais reflexivo, ao analisar que a religião cristã não está no mundo inteiro, nem é unânime como crença universal. Será mesmo que ela teria tamanho poder de influenciar povos de todas as localidades para destruírem o meio ambiente, uma situação que é global, devido a uma interpretação radical dos versículos supracitados? Será que a destruição do meio ambiente ocorre somente aonde prevalece o ensinamento cristão? A exploração do petróleo nos emirados árabes, o uso exacerbado de combustíveis fósseis na China seria influencia do cristianismo? Parece não ter fundamento esse pensamento de apontar o cristianismo por essa razão.

O ensinamento cristão tem muito a oferecer sobre as questões ambientais. Segundo o filósofo e teólogo, Leonardo Boff, a religião possui, a partir dos próprios conteúdos religiosos, uma função pedagógica de suscitar responsabilidade nos fiéis pela qualidade de vida. Num País de maioria cristã, como é o Brasil, seria auspicioso se todas as igrejas dessa corrente se comprometessem mais acentuadamente com esse tema, como tem sido com as causas sociais. Mas, como vê o teólogo Boff: “A religião como qualquer outra instância possui também suas limitações.”

Parece mesmo que falta ao homem um comportamento moralmente ético, mais espiritualista e com respeito ao mundo natural. No próximo artigo, a visão do jainismo sobre o mundo natural.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
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sexta-feira, 4 de setembro de 2009

MUNDO DO JUDAÍSMO E MEIO AMBIENTE



Artigo de Jair Donato

Uma das religiões monoteístas mais antigas da humanidade é o judaísmo. Surgiu como um acervo de crenças religiosas, costumes, cultura e estilo de vida que formou a religião dos antigos hebreus, hoje chamados de judeus ou israelitas.

Dentre as ramificações judaicas, a exemplo dos seguidores intitulados caraítas, outros de samaritanos, supostamente descendentes de judeus da antiga Samaria, veremos o que essa religião apregoa sobre responsabilidade ambiental do ponto de vista dos rabínicos, considerado os mais tradicionais e que seguem o Tamulde. Essa obra, que significa aprendizado ou ensino, foi composta a partir de discussões e debates entre os antigos rabinos, registrados com o surgimento da cultura judaica na palestina. A base do Tamulde está nos ensinamentos apreendidos através da Torá, sagradas escrituras judaicas que se referem aos cinco livros de Moisés.

O princípio da sustentabilidade estava presente na cultura dos antigos hebreus, eles vivenciavam uma ética ecológica, viviam numa sociedade agrária e se dedicavam fielmente a preservação da natureza com responsabilidade para as futuras gerações. Eles cultivavam o conceito de que a natureza pertence a Deus e que os povos devem zelar e usar com sabedoria os recursos naturais. Um grão de arroz, uma folha de papel, um copo de água, devem ser tratados com sabedoria, isso reflete que o pensamento judaico sobre o não desperdício, mensagem básica do Tamulde que se aplica ao meio ambiente e demais áreas da vida, não é apenas uma questão econômica, se trata também de espiritualidade.

O jornalista premiado Larry Kahaner, autor do livro Valores, Prosperidade e o Tamulde, destaca que um judeu que observa rigorosamente as leis judaicas não joga fora um lápis quando a borracha da ponta está gasta, ele usa-o até o fim para evitar o desperdício. E também escreve dos dois lados de uma folha de papel porque, como o lápis, a fonte original desses materiais é uma árvore, recurso visto como preciosidade.

No antigo testamento, em Levítico 25.1-7, há o ensinamento de que Moisés recebeu a lei que determinava que a terra deveria descansar a cada seis anos. No sétimo ano, ninguém semearia nada, sendo um ano de descanso completo para a terra. E, através do planejamento, todos comeriam nos anos seguintes, sem falta de alimento algum. O doutor em Teologia, Marcial Maçaneiro sugere que o livro de Levítico, capítulo 25, pode ser lido como um projeto de sustentabilidade.

Contudo, a sociedade produtiva capitalista de hoje pode considerar como inadequada a ideia de deixar de plantar por um ano, após cada período de seis, pois isso fará desacelerar a economia e afetará os negócios. Mas, talvez não fosse necessário agir dessa forma, bastasse que todos os que usam a terra, tanto para criação de animais como para produção de grãos, seguissem à risca os planos de manejo, conforme a legislação ambiental. Essa, talvez seja a forma mais adequada de deixar a terra descansar, como nos tempos de Moisés, de maneira adequada aos dias atuais.

Kahaner mostra que os mestres talmúdicos, antigos rabinos, tinham uma grande preocupação com o meio ambiente, eles entendiam uma interconexão de tudo no mundo. Para os antigos hebreus havia um interesse em manter o meio ambiente sadio, pois isso tinha uma base econômica tanto quanto espiritual. O autor expõe vários preceitos que atestam essa atenção, desde a importância que eles davam a manutenção dos jardins nas cidades, o cuidado com o óleo no candeeiro para não desperdiçá-lo, até a proibição das chaminés nos ambientes urbanos por causa da fumaça. Os rabinos demonstravam interesse não apenas no caráter estético de uma localidade, mas também nos benefícios a saúde a ao meio ambiente natural, afirmam os estudiosos contemporâneos.

“Um curtume não deve se situar de tal modo que os ventos predominantes enviem seu desagradável odor para a cidade”, consta no Tamulde de Jerusalém, Bava Batra 2:19. Embora os antigos mestres judaicos não possuíssem conhecimento para realizar análises científicas como atualmente, os estudiosos acreditam que eles intuitivamente sabiam que, quando algo cheira mal, provavelmente não é bom para a saúde, conclui Kahaner. No próximo artigo, a visão do Cristianismo sobre o mundo natural.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

MUNDO DO ISLAMISMO E MEIO AMBIENTE


Artigo de Jair Donato
O Islamismo, maior religião do mundo, em número de adeptos, é um movimento religioso fundado pelo profeta Muhammad, na Península Arábica, 570-632. A doutrina Islam, termo que significa “submissão a Deus” baseia-se no livro sagrado Alcorão. É uma religião monoteísta e os mulçumanos acreditam que Allah, único Deus, criou a natureza por meio de um ato de misericórdia. Mas, o que Islam pode oferecer para uma vida moralmente correta nas questões ligadas ao meio ambiente?

Fora a visão fundamentalista, apresentada na mídia, em face de algumas ações radicais do viver de uma parte mulçumana, o Islamismo é uma religião que traz na essência o contexto da harmonia, focado na paz e nos valores éticos. Segundo Adan Z. Amim, diretor do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas em Nova Iorque, além da preocupação do Islam com a justiça social, do cuidado com os pobres, com órfãos e com as viúvas, possui também uma relevância mais ampla que envolve as questões ligadas ao meio ambiente, a proteção do solo e ao tratamento adequado da biodiversidade, que atualmente estão sendo defendidas pelos fiéis e professores.

Mas, se os ensinamentos islâmicos valorizam grandemente a natureza como criação de Deus, por que razão muitos estados islâmicos optam por destruir a natureza? O iraniano Seyyed Hosseum Nasr, professor de Estudos Islâmicos da Universidade de George Washington, destaca esses contrastes culturais através da visão islâmica em relação a natureza em contrapartida a atual civilização islâmica que não tem conseguido condutas de acordo com a tradição. Também o professor de Paz Islâmica, Abdul Aziz Said, esclarece que pelo conflito existente nos países mulçumanos que causa um desapontamento pela proliferação e degradação ecológica e dos recursos naturais no mundo mulçumano é que causa um choque entre a cultura tradicional do Islam e a realidade dos países islâmicos que brigam pelo poder e pela influência. Contudo, não é difícil encontrar no Alcorão uma ética para a administração ambiental, diz Said.

Ocorrem diversas questões nos paises de maioria mulçumana, onde estão concentradas importantes reservas energéticas do mundo, tanto no Oriente Médio, como na Ásia Central e na região do Cáucaso, conforme comenta o professor José Arbex Jr, da PUC de São Paulo, como os conflitos entre xiitas e sunitas, em relação aos mulçumanos das demais áreas. Mas não dá para falar num só mundo islâmico para não associar o termo Islam com idéias de fundamentalismo e fanatismo, atos praticados por movimentos extremistas de países islâmicos, que se apropriam da religião para preencher vazios de opções políticas e sociais, questões de poder e influência, afirmam os estudiosos do Islam. No entanto o espaço aqui é curto para abordar esses aspectos e o foco somente na essência do Islã, talvez seja o mais importante para a reflexão proposta sobre o meio ambiente.

Ainda segundo Amin, as reflexões sobre a metáfora Islâmica do jardim e as imagens da águas férteis fornecem recursos para repensar o relacionamento humano com o mundo natural. Uma característica marcante do discurso corânico, conforme apresenta o professor Abdul Said, é a ênfase a que os povos usem a inteligência inata para compreender a orientação revelada no Alcorão e na natureza. Pois o “livro sagrado” exorta o leitor a ponderar, refletir, pensar e entender. A verdadeira base da Paz no Islam é o conhecimento da unidade transformadora, frisa a responsabilidade e a importância de respeitar limites, o sentido do cuidar e do servir, complementa o professor.

Na visão do Islam, todo o Universo, incluindo a Terra, todos os seres viventes e o próprio homem foram criados por Deus (Allah). “E de Allah é o que há nos céus e o que há na terra. E Allah está, sempre, abarcando todas as cousas”, suhah 4: 126. Estudiosos do Alcorão afirmam que o meio ambiente baseia-se no entendimento de que tudo no Universo é criação de Deus, pois é Ele quem adorna o céu com o Sol, a lua e as estrelas e a face da terra com flores, árvores, jardins, pomares e espécies animais.

O teólogo Marcial Maçaneiro apresenta o texto corânico como um elenco de virtudes intelectuais, morais e espirituais. Ele destaca 04 princípios de sustentabilidade, que expressam a base da moralidade ecológica do Islam: 1. Princípio da Unidade (tawid), mostra que Deus criou a todos de forma igual e com os mesmos direitos. 2. Princípio da Criação (fitra), continua na questão da criação e fala sobre biodiversidade e da necessidade de conservar essa diversidade. 3. Princípio da Balança (mizan), preceito em que o contexto desse equilíbrio é reforçado. 4. Princípio da Responsabilidade (khalifa), sobre a conservação da criação como forma de corresponder a vontade divina.

O tawid demonstra que todos são unos e iguais perante Deus e que os seres humanos não são “donos” dos demais seres e que o mundo não é uma propriedade para ser usada sem planejamento e irresponsavelmente, complementa Maçaneiro. No próximo artigo, a visão do Judaísmo sobre o mundo natural.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

MUNDO DO BUDISMO E MEIO AMBIENTE


Artigo de Jair Donato
Será que o Budismo tem algo a oferecer aos não-budistas sobre meio ambiente? Os estudiosos sobre essa religião mostram que ela oferece grande contribuição, não apenas espiritual, mas, também ao mundo dos negócios, principalmente nessa época que a produção e o consumo devem ser ecologicamente corretos. Executivos do mundo corporativo global utilizam preceitos budistas para uma vida melhor, meditativa, com qualidade de vida, postura que contribui na reavaliação do papel do mundo competitivo nas lutas ecológicas, principalmente nas questões atuais ligadas a sustentabilidade.

Foi a partir do ambiente Hindu do Século VI a.C que um novo movimento religioso começou a influenciar a sociedade indiana: o Budismo. O líder dessa significativa religião, Siddhartha Gautama, um jovem guerreiro que pertencia à alta classe social, renunciou tal reconhecimento para alcançar a iluminação, vindo a se tornar Sakyamuni, o iluminado da tribo dos Sakyas, a quem pertencia. Daí se manifestou o Buda e toda a tradição conhecida secularmente e adaptável a diferentes culturas, expandidas a partir da Índia para o China, o Japão e o resto do mundo.

Filho do governante do reinado Sakya, rei “Suddhodana”, nas planícies de Terai, no Nepal, região de rica colheita de arroz naquela época, mesmo antes da Iluminação, ao renunciar o principado, Gautama teve grande convivência com a natureza, durante as práticas ascéticas brâmanes, na floresta, período em que se alimentava apenas de grãos e convivia com os animais, embora descobrisse depois que tais práticas não eram adequadas à liberdade espiritual.

Quando Sakyamuni alcançou o despertar do “Caminho do Meio”, estava embaixo da árvore Bodhi. E após longo período de propagação da verdade, já de idade avançada, ele recuperava as próprias forças nas montanhas para recomeçar a viagem de peregrinações, até a despedida dele deste mundo, o que ocorreu também embaixo de duas árvores, numa cama improvisada, ao completar 80 anos. Uma lenda budista afirma que “as duas árvores sala gêmeas transformaram-se em flores, desabrochando fora da estação, se depreenderam e caíram, espalhando-se e cobrindo todo o corpo do Buda.”

O Budismo foi a primeira religião mundial e a primeira a transcender as fronteiras da língua, os padrões de relacionamento familiar, as estruturas políticas, as áreas culturais e geográficas. Essa é uma consideração do estudioso, Lewis Lancaster, autor da obra Buddhism and Ecology. Segundo ele, o Budismo tem condições de oferecer um “modelo para uma era de contatos internacionais entre as pessoas de diferentes formações e histórias culturais”.

Segundo Lancaster, o Budismo, mesmo sendo uma religião tida por muitos como específico para assuntos espirituais e mentais, é um guia importante na parceria com os comerciantes. Conforme apresenta o estudioso, trata-se de uma religião de comerciantes desde o início, fator que contribuiu também para o crescimento dela. Ela passou a existir não como uma tradição limitada à selva, mas como parte do crescimento urbano.

Buda falava para homens comuns e para reis, ele também recebia doações dos comerciantes e teve como um dos mais importantes colaboradores, Anathapindada, que era muito rico e benevolente, foi quem doou uma área com árvores para Buda e seus companheiros, local em que se tornou o primeiro monastério da ordem Budista. Vimalakirti, tido como o adepto ideal, foi outro cidadão rico contribuinte. Embora surgido no vale do Ganges, a percepção local da natureza pela cultura local era diferente nos tempos budistas iniciais.

No entanto, foi na China, conforme os estudos de Lancaster, quando chegou o Budismo, que a natureza começou a ser vista numa forma mais profunda na relação com o homem, embora os chineses já tivessem uma valorização sobre ela. O Budismo conseguiu fornecer a eles uma forma importante de lidar com o meio ambiente. A partir daí foi revolucionado o conceito de natureza búdica, com a percepção de que objetos, coisas sem sentimentos, como a rocha, a árvore, a flor, a montanha, a neve, a água, tudo possuía natureza búdica. Essa ramificação se estendeu além da religião, permeou também pela literatura e pela arte. A partir do Budismo chinês fortificou-se também a visão de que a natureza é curadora.

No clássico budista Bodhicharyavatara, o “Guia para o Modo de Vida do ser desperto” do mestre erudito indiano Shantideva, século VIII, foi compilada a seguinte reflexão: “Quando você joga fora seu cuspe e escovas de dente, deve escondê-los bem, longe da vista. Despejar lixo nos espaços comuns e no sistema de água causa doenças”.

A noção de paz, de tranqüilidade e do espírito de harmonia do homem com a natureza, talvez seja a maior contribuição transmitida pelo Budismo para a época atual, no corre-corre moderno como reflexão e repensar na relação estabelecida com o meio ambiente. Diz o Dalai Lama: "É triste passar pela vida causando problemas a outras pessoas e ao ambiente". No próximo artigo, a visão do Islamismo sobre o mundo natural.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

MUNDO DO HINDUÍSMO E MEIO AMBIENTE


Artigo de Jair Donato
Questões ambientais parecem fáceis de serem entendidas, pois fazem parte dos livros didáticos e invariavelmente a maioria das pessoas já teve informações sobre o tema, assim como a mídia evidencia cotidianamente fatos, catástrofes e os mais diversos fenômenos que ocorrem quase em toda parte do globo terrestre devido as mudanças climáticas. No entanto, para os especialistas, em escala global, esse é um tema muito complexo, especialmente porque influencia as atividades humanas na Terra.

Sobre o convívio do homem com a natureza, dentre as maiores religiões da face da Terra, existe o Hinduísmo, uma religião em que por volta de 1.200 a.C já havia textos sobre as tradições existentes. No entanto, foi somente no século XIX, com as formações religiosas entre os indígenas e os indianos é que foi denominada como “Hinduísmo”, nome dado inicialmente, numa alusão à terra do vale dos Indus. Denominação também usada para se referir a um suposto sistema de crenças e práticas religiosas, de vocabulário comum, do povo indiano que não pertenciam ao Jainismo, nem ao Islamismo. Hindu foi ainda um termo que os mulçumanos utilizaram, na época, para denominar os nativos do Sul da Ásia que não tinham se convertido ao Islã.

Essa religião é tanto nova quanto secular, cresceu sem hierarquia única e não possui uma figura de fundador ou rigidez nos ensinamentos. E 83% da população da Índia comungam os preceitos nela existentes, que incorpora todas as formas de crença e culto sem necessitar de seleção ou eliminação de qualquer uma. É doutrinariamente tolerante e reverencia a divindade em todas manifestações. Embora com aspectos politeístas, estudiosos afirmam que o hinduísmo seja Henoteísta, uma espécie de transição com o monoteísmo por considerarem Brahma (O Absoluto) como o princípio de tudo.

É nessa multiplicidade de crenças, conforme apresenta o pesquisador do Yoga, Christopher Chapple, que se destaca a visão do mundo natural do Hinduísmo, nascido nas beiras dos rios Indus e Ganges. Para os que professam essa religião, as montanhas, os rios, as árvores, são sagrados e relacionados à sobrevivência da terra e do povo, são considerados espíritos individuais cobertos pela consciência universal. Trata-se de uma sociedade tradicionalmente agrícola, da época em que produtos da Índia não apresentavam ameaça ao meio ambiente.

Para a cultura tradicional Hindu até o lixo é integrado ao ciclo dos processos da vida, a exemplo do excremento fecal da vaca, um animal onipresente para os indianos, recolhido em pequenas porções e vendido para ser usado como gás de cozinha. Outras práticas de tratamento ao lixo, secularmente praticadas por esse povo, senão fosse o atual esbanje de desperdício, seriam condizentes com um modelo ideal para um viver ecológico.

Para os hinduístas há uma correlação entre o mundo exterior e o indivíduo, que indica continuidade entre o homem e a natureza na criação cósmica. Eles acreditam que as forças que compõe o universo também se encontram dentro do corpo humano. Existe o Rig Veda, uma coleção de louvores em forma de hinos, composto de considerações às forças naturais, tais como os rios, que são vistos como deuses, o vento e o fogo como entidades masculinas. Há uma profunda relação entre a natureza, a ordem humana e o pensamento dos vedas que vêem todas as coisas do mundo material como atributos da consciência universal, na essência.

Ainda de acordo com Chaplle, “o lixo na Índia faz parte do cenário; a mãe terra da Índia recebe e processa todas as coisas”. Porém, como O País indiano é uma das economias industriais que cresce muito, já possui desafios demasiados para os ambientalistas. Ao que se nota, o ambientalismo Hindu contemporâneo é motivo de preocupação, a poluição e o consumo desenfreados que provocam altos efeitos destrutivos, tudo isso pode dificultar o processo cultural hinduísta que há séculos apregoa o meio ambiente como sagrado. Contudo, parece que uma notável consciência ambiental está surgindo, observa o pesquisador. Na tradição Hindu, as pessoas não se separavam da terra, tudo era continuidade. Para a essência do pensamento Hindu a natureza está sendo desrespeitada e Ganges, a deusa mãe, parece inconsolável.

Essa relação do pensamento hinduísta com a natureza merece atenção e reflexão. Fica o desejo de que a essência brâmane seja permeada no planeta. Eis o que revela um dos hinos Veda: “Como uma árvore da floresta, simplesmente assim, certamente é o homem. Seus cabelos são folhas, sua pele, a copa da árvore. Da sua pele, o sangue; da árvore, a seiva flui. Dele vem um fluxo quando perfurado, tal como da árvore, quando cortada. Seus pedaços de carne são sub-camadas de madeira. A fibra é como músculo forte. Os ossos são a matéria por dentro. O tutano é feito parecendo o miolo das plantas.” No próximo artigo, a visão do Budismo sobre o mundo natural.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

VOCÊ PLANEJA SUA VIDA?


Artigo de Jair Donato
Pense numa vida planejada, dirigida com responsabilidade social e ambiental. Todo ser humano passa pela fase do “construir”, sejam sonhos, ideais, objetivos, além de estabelecer metas, planejar o que for desejável na vida, trabalhar e investir na busca da auto-realização. É estratégico um planejamento nas mais diversas áreas, pessoal, profissional, financeira, mental, social, dentre outras. Mas nem todos possuem um comportamento. Ninguém planeja fracassar, porém a maioria fracassa por não planejar e deixa se levar pela vida. Construir, usufruir e manter se trata de atitude, é algo saudável. Por isso o planejamento é fundamental.

Você possui metas claras, definidas e principalmente por escrito? Uma pesquisa realizada em 1953 com formandos de uma faculdade na universidade americana de Harvard, a respeito de metas, mostrou um resultado surpreendente. Perguntaram para dois mil acadêmicos já no fim do curso, quantos dentre eles tinham objetivos e metas claramente definidos e por escrito. 85% dos entrevistados responderam que não tinham nem idéia do que iriam fazer após terminarem a faculdade. E 12% tinham uma idéia vaga do que queriam fazer, montar um negócio, trabalhar em uma grande corporação, voltar para a cidade em que nasceram, trabalhar com o pai, ou prestar um concurso, dentre outras declarações. Os 3% restantes tinham metas claramente definidas e no papel.

Vinte anos após, em 1973, os pesquisadores foram conferir como estava a vida de cada um daqueles profissionais no mercado de trabalho. E o resultado foi realmente impressionante. Os 3% que duas décadas antes, sabiam exatamente o que queriam, valiam mais econômica e financeiramente do que os outros 97% juntos. Sabe o que isso significa? Se somasse a renda daquela minoria, resultava em um montante maior que o ganho dos outros 97%. E mais: a qualidade de vida em termos familiares, atitudes positivas, saúde, viagens, paz de espírito e outros itens, que não dá para contabilizar em números, era muito superior do que dos demais.

Coincidência? Não poderia ser. Os 3% sabiam para onde estavam indo com as próprias vidas. Trazendo esse exemplo para o mundo atual, perceberemos a área ecológica é uma das mais importantes que merecem planejamento, seja individual ou coletivo, seja no mundo corporativo, no institucional ou no governamental. Tudo o que puder ser feito em prol do meio ambiente, é importante que o planejamento seja estratégico. Trata-se de um ato que compete ao gestor, ao líder ou ao executor, em casa ou na empresa, é de responsabilidade geral cuidar dos recursos naturais que estão frágeis nesses tempos de alterações climáticas.

Planejar bem e sustentavelmente é uma política que deve fazer parte da cultura das organizações desde antes da produção e em todo o processo logístico subsequente. Deve ser um valor também para a sociedade do consumo e na prestação de serviços. A partir de agora, saber o impacto de todos os movimentos, seja na família ou no mundo dos negócios é condição para a garantia de qualidade de vida da humanidade.

Recentemente um novo estudo científico apresentado na revista "Nature Geoscience" mostra que o nível médio do mar vai mesmo subir entre 7 e 82 centímetros até 2100, por causa das mudanças climáticas, o que reforça os dados previstos anteriormente pelos cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, IPCC, estudiosos sobre o clima que fazem parte da Organização das Nações Unidas.

Esse estudo é um modelo matemático baseado nas oscilações do nível médio do mar ao longo dos últimos 22 mil anos. Até 2100, devido ao aquecimento global, a linha d'água oceânica poderá chegar até 1,80 metro mais alta, dados superiores ao que mostrou o IPCC, que previu aumento entre 18 e 59 centímetros. Outro estudo publicado no primeiro semestre deste ano, através de medições reais, mostrou que a velocidade no aumento do nível dos oceanos, entre 1993 e 2008, foi quase o dobro do que foi verificado em quase todo o século XX. mas de medições reais.

Parte dessas catástrofes, além das ocorrentes, deriva do uso sem planejamento dos recursos naturais e da alta produção de gases poluentes no mundo do consumo de forma irresponsável. A verdade é que faz muita diferença em uma década na vida de uma pessoa ou de uma empresa que possui objetivos, metas e modelos sustentáveis bem traçados e definidos, de preferência, por escrito. O consumidor começa a ficar alerta aos impactos que ele mesmo produz.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br