
Artigo de Jair Donato
Estamos no ano do centenário da imigração japonesa. Tenho profunda admiração pela cultura nipônica por razões significativas na minha vida. Quero me reportar a esse fato que se deu no início do século passado, por considerar os princípios e o estilo ético-cultural que os orientais possuem em relação ao respeito a si, aos outros e ao ambiente em que vivem, como um valor agregado ao povo brasileiro, que sempre esteve disposto a receber diferentes etnias. Temos aqui a soma de uma multiplicidade cultural.
Havia no Sul do Japão um garoto de nome Ryoichi Kodama, 13 anos de idade, que em abril de 1908, após insistência para conseguir autorização do pai, despediu-se da família em Hiroshima, rumo ao Brasil junto com vizinhos para ganhar a vida. Brasil era até então um País desconhecido e distante. Mas como estava proibida a entrada de japoneses na América do Norte e a situação que o Japão enfrentava na época era difícil, vieram para cá, pois havia rumores de que logo teriam boas oportunidades por aqui.
Embora não foi bem isso que perceberam após aportarem em Santos. Ryoichi-san conta que chegaram a dormir no capim seco dentro de um curral, na primeira fazenda aonde tiveram de trabalhar na colheita de café, no Estado de São Paulo. Contudo, eles resistiram, persistiram e honraram a cultura do Japão ao reconstruírem a própria história num País tropical, com hábitos e costumes diferentes. Com o tempo eles puderam contar acima de tudo, com a calor humano típico do brasileiro. Uma mistura que deu certo.
O ato que me emociona na história do ainda adolescente Ryoichi foi quando ele conseguiu convencer o pai de deixá-lo embarcar no Kasato-maru, primeiro navio de imigrantes que chegou ao Brasil em 18 de junho de 1908, e ouviu a severa advertência: “Vocês estão seguindo para outro País e não deve esquecer de que cada um representa o Japão; cada um está carregando o seu próprio País consigo. É necessário que todos se encarreguem de não manchar a honra japonesa ou o nome de sua pátria. Se não forem capazes de viver condignamente, não pensem em voltar. Tenham vergonha disso e morram por lá”.
Deve ter sido muito reflexivo ouvir aquilo de um pai. Alguém de uma outra cultura até poderia pensar que seria frieza renegar o próprio filho, caso ele não honrasse a pátria e manchasse o nome do País aonde quer que fosse. Mas isso é que fez o povo japonês sair da dificuldade e se tornar potência mundial. Os valores e princípios voltados para o bem coletivo, com honra, dignidade, disciplina e caráter.
Japonês tem que ter honra em qualquer lugar, esse foi o legado que o quase jovem recebeu daquele pai. E assim ele veio viver dignamente no Brasil, como todos os demais que aqui chegaram, sofreram, mas hoje as gerações nascidas aqui se orgulham dessa brilhante postura. Maior parte deles nem pensam em voltar ao Japão para morar, tamanha é a gratidão e amor que possuem pelo Brasil.
E o que essa história tem haver com o meio ambiente? Tudo! Pois a reverência aos superiores, a começar pelos pais, a gratidão pelo País que os acolheram e o senso de harmonia que possuem, talvez sejam as melhores lições esbanjadas por essa gente. Se cada um apreender a importância desses sentimentos, poderá mudar a própria vida e a relação com o meio ambiente, uma necessidade global da atualidade.
Falar de princípios é falar do que traz equilíbrio à vida e ao planeta. E isso o povo japonês ensina através dos mínimos detalhes, ao servir um chá, ao cuidar de uma plantação ou de um relacionamento. É um povo inovador e que ao mesmo tempo sabe cultivar valores milenares.
Estimo muito que este centenário seja um exemplo de reflexão sobre tudo que ainda podemos fazer, ao observar o exemplo da cultura do País do Sol nascente. E dessa forma conservarmos e preservarmos mais a nossa Amazônia, o Pantanal, o Cerrado, dentre os demais biomas que temos, com toda uma riqueza de biodiversidade ainda incalculável.
Para cuidar do meio ambiente é preciso reverenciar a natureza, ter gratidão por ela e viver em harmonia com todas as espécies que ainda temos o prazer de admirá-las. Aos nipo-brasileiros deixo minha profunda admiração! Domo arigatô gazaimashita! Ou melhor, muitíssimo obrigado!
Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com

