ANALOGIA
DA FIGUEIRA SECA
Artigo de Jair Donato*
Você
compraria uma fruta apenas pelo brilho? Há quem compre e depois percebe que era
só o verniz da casca, mas por dentro o conteúdo estava podre. Como
nos tempos de Jesus, hoje muitos vivem apenas pela aparência, ora mostrando-se
como bons, ecologicamente corretos, mas que nada de útil oferecem ao mundo para
que o torne melhor. É como aquele brilhante orador que profere palavras bem articuladas,
envernizadas, impressiona plateias, mas se verificadas, nada de substancial se
encontra nelas.
Reportando-se aos primeiros anos
do calendário gregoriano, marcado pelo início do cristianismo, numa passagem
bíblica é narrada que certa vez Jesus ao sair de uma localidade denominada
Betânia, acompanhado pelos discípulos, teve fome. Ao longe avistou uma figueira
e dela se aproximou para que degustassem alguns frutos. Mas, ao chegar-se a ela
percebeu que não havia figos, havia apenas folhas, por não ser época propícia
para frutos.
No entanto, os discípulos
disseram que naquele momento Jesus lançou o desejo de que ninguém mais comesse
o fruto daquela árvore. E no dia seguinte, ao passarem novamente pela figueira,
ela já estava seca até a raiz. Então, um deles se dirigiu a Jesus lembrando-lhe
de que aquilo seria o resultado do mestre ter amaldiçoado o pé de figo no dia
anterior. Ao que Jesus naquele momento aproveitou para apregoar parte dos
ensinamentos dele.
Numa interpretação míope, parece
estranho a postura de Jesus, mas as histórias da vida dele na terra mostram ter
sido ele um grande visionário e apregoou preceitos constatados em todas as
eras, especialmente hoje. Se ao pé da letra, ele de fato secou ou não aquela
árvore, que ninguém se apegue a isso, pois para um mesmo fato há diferentes
interpretações. Jesus era um homem que utilizava parábolas, comparações e
mensagens da própria natureza para fazer entender a visão que ele possuía sobre
a vida. Não por acaso, ele escolheu fazer uma analogia entre a figueira e o a
vida do homem.
Na antiguidade, muitos povos a
consideravam como símbolo da fertilidade e da fecundidade. Hoje, com o cultivo,
é um vegetal que produz durante o ano todo. A figueira que não dá frutos é um
símbolo de uma existência que não se torna útil. Embora tudo tenha o tempo
certo para que cada etapa se estabeleça, há quem perde todas as oportunidades
de criar e estabelecer relações edificantes, mesmo diante dos vários meios
disponíveis. Trata-se de quem vive em função de apenas ocupar o próprio espaço
sem ocupar-se de contribuir para melhoria da sociedade com o potencial criativo
e humano que possui.
Todos os sistemas e doutrinas, na
política, no meio social, na administração ou na religião, que nada produzirem
bem para da humanidade são estéreis, cujo fim deve ser a seca. O despertar de
consciência através da escolha de cada um enquanto cidadão poderá ser a energia
que irá eliminar essas fontes inúteis que existem na sociedade, que nada agregam,
apenas usurpam, excluem o bem, defendem interesses mesquinhos e desconstroem o
senso moral necessário ao mundo de hoje.
Conta-se que no sermão daquele
dia da figueira seca, Jesus disse aos discípulos que tudo aquilo que cada um de
fato acreditar firmemente sem hesitar, acontecerá. Ele declarou que o poder não
estava somente nele, mas em todos. No dia que cada cidadão acreditar que pode
mudar os fatos, seja na política como noutras mudanças relevantes ao bem
coletivo, e entrar em ação com tal empenho, todos os políticos, religiosos e
demais líderes estéreis que enganam com discursos prolixos, deixarão de
existir, cairão por terra, pois se tornarão secos.
O mundo não precisa apenas de
líderes hierárquicos, precisa da liderança de cada um, ou seja, da sociedade
como um todo, do espírito de equipe. Somente assim bons frutos serão produzidos.
Cada pessoa que se tornar um agente de mudança é como uma figueira frondosa e
frutífera. A paz no mundo não poderá vir de árvores estéreis. A humanidade precisa
ser alimentada por atitudes altruísticas.
*Jair
Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas,
professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de
Vida. E-mail: jair@domnato.com.br













