TRAMA E URDIDURA
Artigo de Jair Donato
Nos princípios da tecelagem artesanal dois termos eram muito
utilizados, embora em desuso após a fiação industrial, são ricos em analogia
com a vida humana. São eles, a trama e a urdidura. Para quem possui a
habilidade com a arte do tear na confecção de peças como vestimentas,
acessórios, cortinas, redes, cobertores e tapeçarias sabe lidar com uma
infinidade decorativa de beleza ímpar.
Essas duas estruturas são essenciais. A urdidura é o conjunto de fios do
mesmo tamanho posicionados longitudinalmente ao longo do tear. E a trama é
formada pelas linhas dispostas transversalmente que transitam com liberdade por
entre os fios da urdidura através de uma agulha, formando o tecido de forma
simples ou com belas gravuras conforme a criatividade de tecelão.
A urdidura fica numa posição fixa como base para que se estabeleça a
criatividade da trama que delineia no horizonte, caracterizando desenhos concebidos
pelo artesão. Paisagens, aves, nuvens, riachos, estações, gravuras, figuras
humanas, tudo é possível quando a trama é lançada perpassando as trilhas da
urdidura. Não há limites no mundo das formas quando há convergência entre a uma
e outra. A trama é o fio que corre por cima e por baixo, sempre entre
o conjunto de fios de urdidura. Ela percorre as mais variadas posições para
formar o tecido.
Assim é a vida do homem. Analogamente, a urdidura representa o
potencial humano, essencialmente o que ele é desde o nascimento. Todos nascem
com uma força potencial imutável. Isso também é denominado de capacidade
latente ou limiar intrínseco. Pode ser comparado à força vertical que faz fluir
a vida, que mantêm as células vivas e o equilíbrio do organismo para que ele
não pereça. Contudo, o destino de cada um no tear da vida, assim como a trama,
toma diferentes rumos. E delineia os mais diversos comportamentos através da
“agulha” denominada atitude.
A trama individual, ou seja, a atitude de cada indivíduo através do
potencial que possui por natureza, poderá produzir resultados inusitáveis. A
trama equipara-se a competência que pode ser desenvolvida para produzir obras
primas como os inventores, pintores, músicos, artistas em geral, industriários
e futuristas fazem. Já a urdidura representa à fonte, o fôlego da criação,
aquilo que sustenta.
Parece que a trama tece labirintos formidáveis por si só. Mas, ela
depende da urdidura, que necessita de uma postura rígida, posição firme, que
atua como princípio básico. Da mesma forma, embora as pessoas pareçam construir
proezas por si mesmas, elas nada seriam se não fossem providas pela força
latente comum a todos. Força essa que se renova continuamente e potencializa as
competências. Trama e urdidura juntas se convergem e geram sinergia. E qual é a
lição? Ninguém constrói nada sozinho. Pois há uma interdependência no tear da
vida. Esse movimento nas ações coletivas se resulta no trabalho em equipe.
O fio da urdidura é mais fino do que a trama. Assim como o potencial
humano, que é mais rarefeito do que a competência expressa. A urdidura pode
comparar-se ao mundo das ideias, enquanto a trama equipara-se ao mundo do
projeto materializado, ao destino do homem. Se a urdidura frouxar ou
deslocar-se, desaparece a beleza da trama que sozinha nada constrói. Assim
também será o indivíduo quando perde a vitalidade, a trama dele, ou seja, os feitos
deixam de ser produzidos e chegará ao fim.
Cada ser humano conduzirá a trama do próprio destino conforme os
valores que possui. Em essência, a verticalização da urdidura representa o grau de
consciência em cada momento de escolha. Então, como está a gestão no tear da
sua vida?
Jair Donato -
Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor
universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

