
Artigo de Jair Donato
Comer carne deve atender apenas ao interesse de matar a fome e de uma economia que mais destrói do que preserva? Ou, pelo puro prazer de se deleitar por um alimento disponível, embora muita gente no Brasil ainda não tenha acesso a ele todos os dias? Essa deve ser uma discussão ligada muito mais às questões ambiental, ética e sócio-cultural, do que econômica. Pois se trata de aspectos não muito distantes do estilo de vida das pessoas e da moralidade humana.
Sobre meu último artigo “Embate do boi e da ética”, um dos leitores me enviou e-mail afirmando que fui sentimentalista e, por ser um especialista em qualidade de vida, não deveria criticar veementemente à produção da proteína animal ‘saudável’. Pergunto: Saudável, a carne? E mais, ele preferiu admitir que defendo interesses Irlandeses ou de ONGs européias e americanas.
Pois é, sou brasileiro nato, com muito orgulho, e defendo os interesses coletivos do meu País e do planeta. Me estranha quem não pensa assim. Não tenho a intenção de polemizar sobre um dos principais alimentos da humanidade, tampouco me referir a quem cria gado pelo delírio econômico e por ser o negócio da vez, assim como quem desmata, seja para que finalidade for. Pois não acredito que o mundo mudará por quem depende disso para sobreviver.
Quero falar é com quem consome, quem compra e ainda não é seletivo. Hoje a ética está em tudo o que é primordial, básico e necessário ao ser humano. Comer carne é um dos hábitos que precisa ser revisto sim, em cada consumo. Nada contra esse alimento, pois é uma das fontes de proteínas, mas longe de ser alimento totalmente saudável. É uma saúde 100% mercantilista, um desfalque para a natureza. Pois a maioria das pessoas ainda come carne à custa de uma produção não sustentável.
É claro que para quem cria, produz, industrializa e distribui, está mais na defesa do próprio ‘umbigo’ do que no bem comum, a exceção de poucos. Mas, o poder não está nas mãos de produtores ou criadores. Está nas mãos do consumidor final, que é a solução mais rápida para um mundo verde e mais saudável. O que precisamos é de pensamento crítico até na hora de comer.
Que aumente a produção de gado, mas que seja sustentável. Nada contra o fomento a economia. Desde que seja um ganho para todos, inclusive para o meio ambiente. Nos últimos 40 anos, ¼ de floresta da América Central foi destruída para criação de pastos. Na América do Sul, mais de 38% da floresta amazônica desapareceram em detrimento das fazendas com desmates, queimadas e grandes áreas de pastos.
Certamente, seria uma atitude sarcástica exigir que o brasileiro de repente parasse de comer carne bovina ou suína, devido às questões ambientais. Essa contenção é mais fácil nos países em que esse costume alimentar não é forte. No entanto, de alguma forma o comportamento e o estilo de vida de quem é carnívoro e de quem devasta para criar animais precisa ser repensado. O consumo exagerado de carnes, bovina ou qualquer outra, já não é uma postura ética, nem tão saudável como se espera.
E esse não é um ponto de vista apenas de ambientalistas e de vegetarianos. É um apelo também feito por cientistas que se dedicam aos estudos das mudanças climáticas, em função de se consumir um alimento potencial poluidor do meio ambiente.
No passado, a ingestão de proteína animal, que era algo natural e saudável, foi importante para o desenvolvimento do cérebro do homem e da inteligência. Pois ele só comia isso, frutas, raízes e folhas. No entanto, hoje o ser humano tem o conhecimento e pode ter uma dieta rica em proteínas, sem comer carne, que já não é tão natural.
Até quando o homem continuará com uma visão antropocêntrica, se considerando acima de todos os seres, inclusive dos animais? Immanuel Kant disse que "Nós julgamos o coração e o espírito do homem pelo seu tratamento com os animais”. Qual será o juízo que faremos daqui por diante sobre cada uma das nossas próprias resistências e mudanças? Consumir carne, de qualquer tipo, sem racionalidade, pode ser veneno.
Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach -, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com






