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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

IMPERMANÊNCIA
Artigo de Jair Donato

Há um conto budista que um famoso mestre espiritual aproximou-se do portal principal do palácio do Rei. Nenhum dos guardas tentou pará-lo, constrangidos, enquanto ele entrou e dirigiu-se até onde o monarca estava solenemente sentado no trono.

"O que vós desejais?" perguntou o Rei, imediatamente reconhecendo o visitante.
"Eu gostaria de um lugar para dormir aqui nesta hospedaria," replicou o mestre.
"Mas aqui não é uma hospedaria, bom homem," disse o Rei, "Este é o meu palácio."
"Posso lhe perguntar a quem pertenceu este palácio antes de vós?" perguntou o mestre.
"Meu pai. Ele está morto, retrucou o rei."
"E a quem pertenceu antes dele? Continuou o sábio"
"Foi do meu avô," disse o Rei já bastante intrigado. "Mas ele também está morto."
"Sendo este um lugar onde pessoas vivem por um curto espaço de tempo e então partem, vós me dizeis que esse lugar não é uma hospedaria?"

Essa história não fala da residência individual de cada um. A analogia se refere ao grande lar que foi disponibilizado para que todos pudessem ser abrigados, com muitas dependências e alimentos, ar puro, água a vontade, muitos frutos e flores, vegetais, peixes e uma diversidade de recursos naturais incomensuráveis. O interessante e reflexivo nesse conto é que a humanidade parece agir assim como aquele rei, como se a grande casa, o planeta, fosse uma propriedade exclusiva que pudesse ser usada sem abrigar a todos e explorada, sem consequência alguma.

Mas o que será que está acontecendo com toda essa estrutura palacial? Afinal, nem todos estão morando bem nela. O ar já está poluído, o clima está ficando mais quente e já têm diversos cômodos sendo alagados, outros rachados, desertificando-se. Por volta de 2100, mostram os cientistas, esse grande palácio terráqueo estará com muita gente sem saber onde morar, eles serão os refugiados ambientais.

Há tantos que roubam diversidades de aves e animais do enorme quintal e comercializam. Existe quem exploram a natureza, planta e colhe em demasia, cujo benéfico socioeconômico e ambiental é desproporcional. Por que alguns se intitulam como donos do palácio e o governam como se fossem, enquanto a maioria, no porão, ainda corre risco de nem ficar lá? Por que se apoderar das florestas para a queima e desmatamento, ao invés de também conservá-las? Talvez pela falta de percepção de que tudo deve ser de todos, que o caminho por onde percorrem deve ser bilateral.

A impermanência, ou seja, a mudança, considerada o ensinamento básico do budismo, é uma reflexão de que há a inexistência de uma entidade apenas individual. Tudo muda, essa é uma verdade básica que ninguém pode negar.  A essência de cada experiência e a natureza de toda existência é a própria mudança. A perene verdade é que tudo muda, seja na relação do homem com ele mesmo, com o outro e também com o meio ambiente em que vive.

Quando não há mudança é porque ocorre a incompreensão do próprio indivíduo em não aceitar o novo e não mudar o paradigma de que tudo pode ser diferente, é não praticar o amor-desapego. Nisto consiste a sublimidade do grande líder espiritual indiano Sidartha Gautama que há mais de três mil anos deixou uma mensagem de amor coletivo à humanidade. Por que o ser humano tem dificuldade de aceitar a mudança, mesmo correndo o risco de perder o palácio em que mora?

O homem como hospedeiro da Terra tem descuidado muito deste lugar. Especialmente em todo o século XX a larga emissão de gases poluentes que superaquece o planeta aumentou em quantidade alarmante. Chegou a hora de cada um repensar e mudar, antes que seja tarde. O homem nunca foi nem será o centro do Universo, pois o planeta não é um elemento periférico. A essência de tudo está no vivificar do que existe dentro e fora do homem. O que dirão os netos e as gerações daqueles que não optarem pela mudança hoje?


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

SOLTE A PANELA
Artigo de Jair Donato

Conta-se que certa vez um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento. A época era de escassez, porém, ele tinha o faro aguçado, sentiu o cheiro de comida e foi até um acampamento de caçadores. Ao chegar lá, o urso percebeu que o local estava vazio, foi até a fogueira, ardendo em brasas, e dela tirou uma enorme panela de comida.

Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo. Mas, enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina. Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava. O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida.

Começou a urrar muito alto. E, quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra si mesmo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o próprio corpo e mais alto ainda rugia. Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. Ele tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela. E o imenso corpo que possuía, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo.

Ao refletir sobre essa analogia, percebe-se que na vida as pessoas também abraçam e se apegam a determinadas crenças limitantes e hábitos nocivos que destroem a si mesmas ao longo da vida. Morrem quando deixam de viver de modo natural recostadas nas consequências das próprias atitudes segurando uma enorme tina de vícios que ferem. Há quem se apega aos bens aparentes que exibem, outros a fortes preconceitos. Há quem possui uma visão estreita que enxerga somente aquilo que satisfaz a si, como o urso que procurava saciar a própria fome, sem olhar à volta.  

O urso de forma irracional invadiu o acampamento pelo cheiro de comida que sentiu. E o homem, seria irracional como ele? Pois é como se fosse, a cada vez que ele repete movimento similar ao invadir o espaço do outro, usurpá-lo sem noção do altruísmo. É ainda o homem quem destrói a natureza em prol da própria avareza. E, com o tempo algumas dessas ‘panelas’ a que ele se agarra podem fazê-lo gemer de dor, queimar por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda as julgarem importantes.

O indivíduo se queima cada vez quando se apega fácil à tina da vaidade e do orgulho, sendo guiado pelo cheiro do consumismo exacerbado. Mal percebe que o fato de não abandonar velhos paradigmas pode coloca-lo numa situação de sofrimento e de desespero. ‘Apertar’ coisas contra o coração e por vezes terminar derrotados por algo que tanto protege e defende, se chama apego, o que é doentio. Isso gera a incapacidade de mudar e de criar algo novo. E você, prende algo, pessoa ou situação a si mesmo? Se tiver algo que o queime, então solte.
               
Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

CAVALO MARINHO
Artigo de Jair Donato

A sociedade desde há muito tempo está permeada de gente que delira pelo lucro fácil a qualquer custo, seja através da ilegalidade, da destruição e o que mais for viável. Quantos já usurparam milhões à custa da destruição ambiental? Contudo, será daqui por diante que muitos começam a se sentirem ameaçados, caso não recuem de tal comportamento vil, em querer ganhar sem considerar o meio em que vive, principalmente o ambiente natural.

Se não houver uma mudança radical no comportamento de quem produz e fabrica, assim como de quem consome, muita gente cairá na própria emboscada, um caminho sem volta. Esse é o alerta dos cientistas do clima. Por isso será preciso um basta, o expurgo de empresas e de produtos disponibilizados à custa da inconsequência ambiental, que sequer contribuem para uma melhoria socioeconômica justa.

Há uma fábula sobre o cavalo-marinho que certa vez pegou as economias que possuía e saiu em busca de riqueza. Ele desejava o acúmulo de fortuna, centuplicá-las rapidamente. Não havia andado muito, quando encontrou uma Águia, que lhe disse: "Bom amigo, para onde vais?"
- Vou a busca de fortuna, respondeu o cavalo-marinho, com muito orgulho.
- Estás com sorte, disse a águia. Pela metade do seu dinheiro, deixo que leve esta asa, para que possas chegar mais rápido.

- Que bom, disse o cavalo-marinho. Pagou-lhe, colocou a asa e saiu como um raio. Logo encontrou uma esponja, que lhe disse: "Bom amigo, para onde vais com tanta pressa?"
- Vou a busca de fortuna, respondeu o cavalo-marinho.
- Estás com sorte, disse a esponja. Vendo-lhe este meu propulsor por muito pouco dinheiro, para que chegues mais rápido.

Foi assim que o cavalo-marinho pagou o resto de seu dinheiro pelo propulsor e sulcou os mares com velocidade quintuplicada. De repente, encontrou um tubarão, que lhe disse: "Para onde vais, meu bom amigo?"
- Vou a busca de fortuna, respondeu o cavalo-marinho.
- Estás com sorte. Se tomares este atalho, disse o tubarão, apontando para sua imensa boca, ganharás muito tempo.
- Está bem, eu lhe agradeço muito, disse o cavalo-marinho, e se lançou ao interior do tubarão, sendo devorado.

Certamente, nada há de errado ao homem, como não havia ao cavalo-marinho, buscar fortuna, pois é através do aumento da situação econômica, um dos pilares da sustentabilidade, que o mundo se torna mais próspero e todos, dessa forma, poderão usufruir com muito mais qualidade de vida. Partir em busca dos sonhos, das realizações, seja através dos estudos, do trabalho ou da implementação de novas idéias é formidável. É algo intrínseco à natureza do ser humano. Todo o progresso do mundo se deve a atitude dos que ousaram e buscaram soluções de riqueza para a humanidade.

No entanto, o que causa perda, além de  inadequado para a realidade de hoje e das futuras gerações, é a busca pelo acúmulo de riqueza sem rumo certo. Foi essa a causa do desequilíbrio, principalmente para o meio ambiente, primordialmente em todo o século XX, com o advento da Era Industrial. Ainda é forte a tendência do mundo capitalista, em que poucos ganham e muitos perdem, alimentada pelo interesse mercantilista. Quando agem de forma irresponsável ambientalmente, estabelece-se a seguinte ordem. Produtores se tornam exploradores, fabricantes alcançam postos de vilões na emissão de gases poluentes que coloca a cada dia o planeta em risco, e o cidadão termina num consumerismo sem fim.

Cada um deve perceber no ato da compra, ao que atende. Se as necessidades que possui ou aos desejos que tem? Afinal, necessidade difere de desejo e são bem distintos. Enquanto um é primordial o outro pode ser volúvel, exagerado, cheio de frustrações inconscientes. Atitude com consciência, educação, respeito à natureza e ética, talvez esses sejam os melhores caminhos que levam ao rumo certo.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

ECOECONOMIA
Artigo de Jair Donato

Nenhuma relação humana sobrevive sem parceria e reciprocidade. Essa mesma regra vale para a convivência do ser humano com a biodiversidade e com os recursos naturais da Terra. Além do respeito, da ética, da moral e das políticas renováveis necessárias para gerar produção e lucro, sem perda da noção do valor natural do que é consumido.

Mas, a visão do velho regime capitalista, ainda presente, cujo valor do homem é reconhecido só pela produção, é que faz com que os países mais poluidores do mundo se portem nos patamares da irresponsabilidade ambiental. É isso que coloca a Terra em risco. Pensando ecologicamente, o planeta sempre perde quando se trata do uso dos recursos naturais, que não se recompõe na mesma proporção em que são utilizados.

O atual mundo da produção, e também do desperdício, destrói a natureza acima do que o planeta é capaz de repor, e polui em potencial. Já há em torno de uma década que o consumo atingiu quase 30% a mais do que a Terra consegue renovar, segundo o relatório Planeta Vivo, da Ong WWF. Nessa proporção, estudos mostram que por volta de 2050 terá um consumo mais que o dobro da capacidade da Terra. E como estará a economia na metade deste século com os 9 bilhões de habitantes previstos pela ONU?

O economista americano Lester Brown, influente pensador do movimento ambiental global, autor do livro Eco-Economy, diz que é possível existir uma economia equilibrada com o meio ambiente e apresenta a idéia de que a humanidade deve caminhar nessa direção. Os danos causados cada vez que se faz uso dos recursos naturais, como a exploração da madeira, o uso do solo e dos rios não é considerado pelo velho conceito econômico.

Certamente, os paradigmas da economia mundial já não são tão éticos, dentro do contexto ambiental, e precisam ser repensados. Um exemplo é o conceito econômico tradicional de que para um ganhar, o outro tem que perder. Essa perspectiva de negociação precisa ser trocada pela relação da bilateralidade, onde ganham todas as partes envolvidas. Mas, será que o mundo capitalista está pronto para isso?

Hoje, na nova prática do mercado competitivo, a transação ideal entre cliente e fornecedor, deve ser o “ganha-ganha”, ação que gera confiança e relacionamento rentável; conceito de clientabilidade. Assim como no mundo dos negócios em que as partes envolvidas precisam ganhar, para que o homem restabeleça uma relação de qualidade de vida no planeta, é necessário que a natureza não continue no prejuízo.

Ao contrário do que ainda se faz, as atividades econômicas podem ser compatíveis com a preservação e conservação ambiental. O que precisa mudar é a forma de fazer isso, e esse é um aspecto que além de contar com novas tecnologias, necessita urgente de um novo estilo de vida no comportamento do homem.
O mundo está diante de uma necessidade de mudança. Precisa partir para a economia que gera menos desperdício e aproveita os subprodutos. A economia ambiental parte de tudo que pode ser reaproveitado, após a utilização, através da reciclagem e da reintrodução do que foi transformado, na cadeia produtiva. Isso é desenvolvimento sustentável, que ainda gera renda e beneficia o social.
A natureza é um organismo vivo e o homem necessita acordar para essa realidade, se sentir como parte do meio ambiente, não apenas como elemento que polui e destrói. O filósofo chinês, Confúcio, antes da era cristã, disse que: “As pessoas que não pensam bastante à frente, inevitavelmente têm problemas ao alcance das mãos”. Talvez mereça da nossa parte, uma reflexão mais profunda acerca desta expressão.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com