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terça-feira, 18 de outubro de 2016

MEDO MATA
Artigo de Jair Donato

Você tem medo do que? Não tê-lo, a princípio, pode ser um distúrbio. Contudo, o medo, característica que de início é uma defesa do organismo animal e instintivamente resguarda a vida, no homem pode ser a porta para o fracasso pessoal se não for gerido pelo equilíbrio, levando-o a proporções diagnosticadas como transtorno psíquico. Medo é mecanismo de defesa, ele livra o indivíduo, o defende, mas se não for exteriorizado na medida do equilíbrio, pode igualmente aprisiona-lo.

Imagine agora se você estivesse no lugar de um antílope numa savana na mira faminta de um leão. Como você reagiria? É assim que a presa alvo do felino se encontra, pastando num descampado, quando subitamente ouve o rugido de um leão? Talvez, por medo, achar que empreender numa fuga para bem longe e do lado contrário ao rugido poderia ser uma boa saída. Aí está o engano. A fuga por medo talvez não seja componente de autopreservação. O escritor Emmett Murphy descreve o que ocorre com o animal quando ele deixa de enfrentar e foge pelo medo instintivo para o outro lado de onde surgiu o som estridente do leão. Essa é a hora em que ele cai na boca das leoas. É isso mesmo.

Fugir da ameaça estratégica feita pelo leão é ir para a trilha da morte. O medo provoca esse tipo de reação. Pois é dessa maneira que os caçadores esperam que a presa caia na armadilha. O macho do bando faz isso com o apoio das leoas que ficam na rota de fuga do antílope. Elas atacam e todos se beneficiam tendo a frágil presa como alimento. Analogamente, o indivíduo também faz escolhas, para saídas seguras ou para armadilhas ocultas. E o medo pode fazê-lo perder as saídas seguras. Quantas pessoas, pelo medo de empreender numa ideia, correm para as amarras do fracasso? Isso não significa que o indivíduo deva ser inconsequente em nome de uma suposta audácia. Ser corajoso não é sinônimo de não ter medo, apenas representa equilíbrio no enfrentamento.

A savana, por vezes íngreme, representa o mercado competitivo, escasso e cheio de artimanhas em que atuamos. E o que representa o rugido do leão para você? A crise financeira? A falta de oportunidade no mercado de trabalho? Seu relacionamento afetivo ou no trabalho com os colegas? É importante mapear tudo isso, conhecer os pontos fracos e os fortes, saber quais são as oportunidade e ameaças que circundam sua vida. Ousar e avançar corajosamente, mesmo com determinada precaução, é dosar o fator medo. Isso é benéfico e trás equilíbrio.

Há nessa competição um componente fundamental para que você possa enfrentar todos os rugidos e sobreviver na savana da vida. São as competências que você possui ou que possa desenvolvê-las para se sobressair bem nesse contexto. Pois, quem permanecer na zona de conforto por medo de tentar o novo  ou o diferente, facilmente será engolido pelas garras da crise permeada por ele mesmo.

No mundo externo existem diversas ameaças, sem dúvida, como no contexto interno de cada um também. Talvez, a melhor habilidade esteja no discernimento para saber quando e como enfrentar cada uma das adversidades, no tempo e com as estratégias adequadas para não ser engolidos por elas. E o medo? Não deseje eliminá-lo, tampouco se aprisione a ele. Conforme a sabedoria budista, a melhor saída é buscar o caminho do meio.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 11 de outubro de 2016

SUA GESTÃO É ESTRATÉGICA?
Artigo de Jair Donato

Na gestão organizacional todo movimento precisa ter foco, e antes de tomar uma decisão, entender o contexto é primordial para obter melhores resultados. Conta-se que certa ocasião uma empresa entendeu que estava na hora de mudar o estilo de gestão. Então foi contratado um novo gerente geral para que ele implementasse a mudança almejada. O recém-chegado veio determinado a agitar as bases e tornar a empresa mais produtiva. No primeiro dia, acompanhado dos membros de uma comissão formada por ele, fez uma inspeção nas diversas áreas da empresa. Quando a comitiva chegou ao armazém era momento em que todos por lá estavam trabalhando, exceto um rapaz novo que estava encostado na parede, sem executar nenhuma atividade e com as mãos no bolso. Isso incomodou o gerente.

Vendo ali uma boa oportunidade para demonstrar a nova filosofia de trabalho, o gerente novato assim questionou rapaz: Quanto é que você ganha por mês? - Trezentos reais, por quê? - respondeu o rapaz sem saber do que se tratava. Rapidamente, o gestor tirou a quantia dita pelo transeunte e deu a ele, dizendo-lhe: - Aqui está o seu salário deste mês. Agora desapareça e não volte aqui na empresa nunca mais, não precisamos de você. O rapaz guardou o dinheiro e saiu conforme a ordem recebida.

O gerente então, enchendo o peito, perguntou ao grupo de trabalhadores ali presente, se alguém dentre eles sabia o que aquele tipo fazia ali sem executar nada, e qual seria a função dele no setor. Ao que lhe responderam atônitos: - Sim Senhor, o conhecemos, ele é o entregador de pizza, apenas veio fazer uma entrega e estava aguardando para receber o que deviam a ele. Foi nesse instante que o gerente apavorado percebeu o que fez. Aí está o resultado de um estilo de gestão que faltou inteligência, e deu prejuízo.

O gestor insensato age assim. Ele confunde inovação com arbitrariedade. Pelo erro de não levantar informações mensuráveis e checa-las com antecedência, comete sandices em nome da criatividade e da eficácia. Não basta dar arrancada sem rumo, sem foco, pois isso não é um estilo estratégico na gestão. Como consultor de pessoas, percebo que as empresas não podem ficar paradas no tempo sem investir em treinamento e desenvolvimento de pessoas, novos processos, tecnologia e em novas políticas de gestão. No entanto, não é sábio quando o gestor age por impulso da mesma maneira que resolve aderir a qualquer novidade apenas para se inserir no contexto da competitividade. É preciso agir de forma racional e comedida.

Se o gestor gere só na boa intenção, no achismo ou pelo impulso, sem planejamento ou diretriz, pode ter resultados desastrados. Até mesmo características subjetivas como a criatividade e a flexibilidade precisam de foco e direcionamento. Dificilmente uma decisão tomada por impulso pode ser acertada, sem que antes haja uma reflexão sobre os possíveis impactos que ela pode provocar. Perguntar mais, investigar melhor, conhecer bem o contexto e o ambiente são condições mínimas para evitar perda de dinheiro, de tempo e gasto da imagem tanto do profissional quanto da organização.

Há que se pensar no resultado prático de qualquer ação ou atitude antes de implantá-la na empresa, assim como na vida. O que você pretende com a nova ação? Qual é o impacto que tal ação deve ter na equipe e nos clientes? Como vai medir os resultados? Descubra se você está investindo ou gastando. Mais do que uma mudança, o importante é a forma como ela é praticada e entendida. Resta saber se o que você faz tem sido mesmo estratégico. Pois bons resultados só se originam por meio de estratégias inteligentes.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 4 de outubro de 2016

AMOR E ÓDIO
Artigo de Jair Donato

Que estranho sentimento é o ódio. Ele parece inerente ao ser humano. E que por vezes coloca em risco a saúde dele em todas as dimensões, até a própria vida. É algo que corrói por dentro. Ódio é pulsão de morte. Mantê-lo silenciosamente é uma forma de suicídio lento. Quem odeia até pode ter razão por isso, mas fica desprovido da leveza na consciência. Seria o ódio algo aprendido? E o amor, passaria também por essa via de aprendizagem?

Amor, nobre sentimento para muitos, permeia em tantas dimensões que se confunde com apego, ciúme, desejo de posse, superproteção, até chegar aos patamares da escala humanista e fraternal. É quando ele se mostra desprovido da satisfação apenas do interesse individual. Talvez, essa última escala seja o privilégio de poucos, mas consta no registro da história da humanidade como um estado que categoriza alto grau de maturidade de quem o pratica.

O ódio é algo que pode revelar muito sobre o indivíduo que o mantém e bem pouco sobre o objeto que ele odeia. Seja amor ou ódio, quando o indivíduo expressa um desses conteúdos, o que vai para os outros é apenas uma cópia, pois o original fica sempre dentre dele mesmo. A bala de um fuzil, por exemplo, embora seja veloz ao atingir o alvo, antes de chegar lá ela rompe o próprio cartucho. Ou seja, qualquer emoção ou sentimento que se tenha pelo outro ou em relação a ele, antes, ocorre no próprio sujeito.

Ao considerar os impactos de um sentimento em detrimento ao outro, pode-se observar que a pessoa que mais odeia do que ama, é carente de racionalidade. Pois os malefícios derivados pelo arraigamento dessa circunstância são amargos.  Pesquisas conduzidas pelo dr. Frederic Luskin, psicólogo americano criador do Projeto para o Perdão, da Universidade de Stanford, mostram que culpar os outros ou apegar-se às mágoas estimulam o organismo a liberar na corrente sanguínea as mesmas substâncias químicas associadas ao stress que prejudicam o corpo. E com o tempo, o acúmulo de compostos nocivos gerados por esses sentimentos causa danos ao sistema nervoso, diminuindo a imunidade. Segundo ele, o ato de desculpar as pessoas, desencadeia-se uma reação que mantém o bem-estar, garantindo o controle das doenças.

Há quem justifica o próprio ódio com o fato de que o outro o odeia. Será mesmo que não haveria nessa situação um grau mínimo de inteligência? Não seria isso semelhante a alguém tomar uma taça de veneno e esperar que o outro morra? O conferencista espírita Divaldo Pereira Franco elucida poeticamente que “o mal que me fazem não me faz mal. O mal que me faz mal é o mal que eu faço, porque me torna mal”.

Observa-se que as relações biopsicossociais do indivíduo também são fatores preponderantes no aprendizado desde a infância, para que uma pessoa aprenda mais a amar ou a odiar. Uma criança judia, por exemplo, ainda na barriga da mãe aprende a odiar a criança árabe, devido ao conflito secular entre israelenses e palestinos, embora isso não signifique que esse ódio seja permeado igualmente em todas elas.

Assim como as relações afetivas recebidas da família desde pequeno são fortes referências para que o sentimento de amor seja expresso nas pessoas, embora não seja em todos os casos. Há também quem cresce em ambientes ásperos, sem expressões de amabilidade, e aprendem a amar. Em ambas as situações, o que ocorre pode ser um misto de condições de aprendizagem com características inatas.

Enfim, amor e ódio podem ser análogos a uma moeda que possui duas faces, cara e coroa. Qual dessas facetas será a que mais prevalece no ser humano? Simbolicamente, esta moeda parece percorrer a existência humana. Contudo, dizer que alguém ama o tempo inteiro ou que odeia a todo o momento poderia ser extremismo. Será cada um que poderá responder a essa questão, pois vai depender do indivíduo, qual dos dois sentimentos ele vai alimentar na maior parte da vida dele. Como reflexão, vale apena pensar numa das vias que melhor pode canalizar e expressar o amor e quem sabe, evitar o amargor do ódio: é o aumento do quociente emocional. E isso pode ser aprendido diariamente. Vale apena investir.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 6 de setembro de 2016

É GOLPE?
Artigo de Jair Donato

Por que é difícil lidar com determinadas características da personalidade humana? Há quem se justifica o tempo todo, pressupõe, agride se for o caso, encoleriza-se, e até age como vitima, como se sempre estivesse correta. Admitir um erro? Difícil, parece mais fácil viver no campo da autodefesa ou do ataque. A intransigência talvez seja o maior entrave na vida do ser humano. Afinal, constitui-se em nobreza o ato de admitir que em determinado momento ou em devida função possa ter falhado, errado e até ter se tornado não merecedor de algo.

É pela força do ego que o indivíduo age de tal forma que não vê a possibilidade de enxergar a si mesmo. Então cria subterfúgios para se convencer de que sua posição é a de vítima, não de alguém que deva prestar contas. Não admitir que possa falhar já é a falha em si mesmo. Na política isso é perceptível, quando políticos mesmo com provas contundentes sobre uma série de situações irregulares, e até condenados, não admitem que erraram. E isso é algo que ocorre em escala nos vários setores, é torpe do ser humano. E o mundo corporativo também não está isento.

Vejo muitas pessoas que chefiam organizações e fazem uso dos cargos que possuem como válvula de escape para as próprias frustrações íntimas. Enquanto a genuidade no ato de servir, o que é relevante, praticamente inexiste. Tudo o que fazem é para defenderem os próprios interesses, e os de quem os interessa, mas não ao coletivo. Você pode estudar a história de um líder-exemplo, seja estadista político ou de outra área, e constate que o perfil dele não se assemelha com quem usa o poder para se manter, e não para ser base para o bem comum.

Veja como Gandhi, Mandela dentre uma série de nomes na esfera global se comportaram frente aos desafios da perda e da oposição que tiveram, e não foram poucos. Ocorre que o indivíduo por vezes projeta no mundo e nas pessoas o conteúdo interno dele, sem ao menos refletir sobre o impacto disso. O que você acha que traz dentro de si uma pessoa que se declara como vítima das normas, da legislação e das autoridades, denominando a tudo de golpe? Que projeção pode ser essa, afinal?

O ser humano precisa desenvolver a habilidade para a perda, pois esse é um ganho para lidar bem com as próprias emoções. Há quem não lida bem com a perda, seja de uma oportunidade, do emprego, de um cargo ou até da vida, quando se esvai um ente querido. Perda e ganho são duas faces de uma moeda que apenas se fortalece, se souber investir nela. Se você encontra alguém que só perde o tempo inteiro, ou só ganha sem cessar, deve haver algo de errado nessa equação; nela falta equilíbrio. Mas, a junção dessas duas esferas é uma habilidade que poucos nobremente a consegue.

Então o que resta aquele que é forçado a uma perda, sem admitir que nela tenham responsabilidades? Geralmente bate em retirada, mas com o desejo de vingança, senão uma profunda mágoa que irá golpeá-la a si mesmo. São os mecanismos de defesa ligados a pulsão de morte que entram no campo de escolhas do indivíduo. Afinal, todo aquele que se vitimiza, está golpeando o que além da própria história?

Golpe é negar, desprezar opinião contrária para defender o próprio umbigo. É se recusar a ver ou admitir os próprios entraves. Isso é peculiar às pessoas inflexíveis, resistentes à mudança, pouco disponíveis ou preocupadas com o bem comum. Saber ouvir desarmado de revide, refletir sobre uma crítica recebida de peito aberto sem se justificar ou se defender, não é para qualquer um. Os profissionais que trabalham na área do relacionamento humano e da gestão de pessoas sabem a importância de perceber e lidar com os diferentes níveis de perfis quando se trata do comportamento. O que justifica manter uma visão de que está sempre certo?


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 23 de agosto de 2016

COMO VOCÊ LIDA COM AS FRUSTRAÇÕES?
Artigo de Jair Donato

Por que muita gente espera do outro aquilo que ela mesma talvez nunca possa oferecer? Lidar com as expectativas é uma habilidade e quem não a possui pode gerar doenças. A pessoa que espera muito do outro ou faz o que ele não pediu, pode criar uma expectativa que posteriormente não corresponderá ao esperado, e com isso pode frustrar-se. Há quem em alguns casos pode somatizar algum tipo de patologia.

É fato que o indivíduo desenvolve a tendência de traduzir o mundo externo conforme os moldes internos que possui, e por vezes enclausurar-se nesse próprio universo. Dessa maneira ignora todas as incongruências adjacentes em si, no outro e no ambiente ao redor dele. Pois nem sempre o mapa é o território. Ou seja, é quando parte do que forma a realidade do indivíduo não é sedimentada em fatos, e sim nas próprias interpretações, percepções do próprio mapa interno.

O filósofo Michel Foucault define que o indivíduo nunca está diante de um objeto real concreto, e sim de um objeto real de conhecimento, algo construído por ele mesmo. O próprio contexto cultural, ambiental e familiar é propício para formação dessa construção.

O descontentamento é algo que pode surgir quando se espera ou exige demais dos outros, a exemplo da mãe que espera que os filhos realizem os desejos que são dela, e não deles. Ou o exemplo dos pais que praticamente obrigam os filhos a cursarem na universidade o curso que tem haver com a frustração deles, e não com a realização dos filhos. Há também a situação da esposa que espera que o marido seja o modelo ideal que ela mesma criou, e têm dificuldades de aceita-lo como ele se apresenta. Isso se traduz numa falta de respeito à individualidade do outro, quando se espera que ele aja conforme o que o indivíduo espera ou acha que seja certo.

Então, é importante compreender a posição do outro na vida, mesmo que ele seja seu parceiro por uma vida inteira. Evitar moldar o comportamento dele para não contrariar o seu pode ser a forma certeira de evitar o afastamento e a perda de afinidades, devido à pressão e sufoco provocados. Afinal, cada pessoa tem um canal de percepção sensorial que se distingue conforme a cultura, o meio em que vive, aos traços da própria personalidade, como também à linguagem que lhe é comum e às crenças que possui. Essa diversidade merece respeito.

A enfermeira australiana Bronnie Ware, após convivência durante anos com doentes terminais, publicou um livro sobre os cinco maiores arrependimentos que as pessoas têm antes da hora da morte. E o primeiro deles se refere a frustração de não ter  aproveitado a vida do jeito delas, e sim da forma que os outros queriam. Isso é frustrante. Segundo a autora, é na hora que a vida chega ao fim que fica mais fácil perceber quantos sonhos foram deixados para trás, em prol de agradar mais aos outros do que a si mesmo.

Quantas mães fizeram sacrifícios pelos filhos, esposas que fizeram tanto pelos maridos, e vice-versa, um amigo que diz ter feito o máximo pelo outro. Mas, será mesmo que eles pediram isso? No entanto, da parte de quem fez foi colocado um tempo nisso. E no fim da vida, é como se a pessoa que se dedicou tanto pensando em agradar, cobrasse pelo que fez, numa espécie de acerto de contas. Daí surge a frustração, o descontentamento e até mesmo a mágoa. “Fiz tanto por você e isso é o que recebo de volta?”, esse é um típico comentário que retrata tal fato. Talvez, não haja declaração mais frustrante do que o arrependimento pelo que poderia ter sido feito antes. E você, o que ainda não fez por si mesmo, mas que poderia fazer? Como você lida com suas frustrações sem projetá-las nos outros?


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 2 de agosto de 2016

O QUE DISSERAM A VOCÊ SOBRE A ÁGUIA?
Artigo de Jair Donato

Com o advento dos dispositivos eletrônicos há uma facilidade para replicar mitos e histórias que alguém inventa com versões ou elementos pretensiosamente falsos. Por falta de informação e pouco interesse ou responsabilidade, uma infinidade de seguidores compartilha burilando ainda mais o imaginário alheio.

Há uma historinha daquelas que você já deve ter lido em algum lugar, sobre as adversidades que a águia passa após os 40 anos. Existem textos e vídeos sobre ela circulando pela Internet e leva muita gente se emocionar utilizando-os em treinamentos como fonte motivacional. Você já questionou se será isso mesmo verdade? Um autor desconhecido diz que a longevidade da águia faz com que ela após os quarenta anos, tome uma difícil decisão para chegar até os setenta.

No momento em que as unhas ficam compridas e moles, o bico alongado e pontiagudo torna-se curvado, além das asas pesadas e densas pelas penas envelhecidas pelo tempo, a ela só resta duas opções que é deixar-se morrer ou lançar-se a um processo doloroso de renovação que pode durar cinco meses seguidos. Essa segunda opção leva a ave a se refugiar no alto de uma montanha, bem próximo a um paredão.

É nesse local que ocorre a fantasiosa renovação. Então ela começa o ritual de mortificação. Ela bate o bico contra a parede até que ele seja arrancado com tamanha dor. Daí nascerá um bico novo e será com ele que ela vai arrancar as unhas velhas. E com unhas novas arranca as velhas penas. Finalmente, ao término dos 150 dias eis que a águia renascida, vitoriosa, sai para o voo de renovação e pronta para viver mais trinta anos. Mas, dentre as imagens e vídeos circulados, você já viu algum com uma águia automutilada? Que coisa, não?

Será mesmo que para provocar a motivação de uma equipe, será necessário recorrer a tal artifício? Ou não seria mais eficaz adotar programas que alinhasse os valores pessoais dos colaboradores à identidade e aos valores da organização em que trabalham? Vejo ainda muito artifício, pura maquiagem aplicados por treinadores e gestores na espera de obter mais comprometimento das equipes e talvez por isso não sabem porque a performance dos resultados não aumenta.

É claro que a estorinha da água é falsa. Quem afirma é o falcoeiro André Luiz Bizutti, que trabalha profissionalmente com aves de rapina. Segundo ele, a águia não faz isso. Ela chega a viver em torno de trinta anos e com ela não ocorre o processo descrito na lenda. Ele afirma que seria impossível a águia permanecer por cinco meses sem comida, morreria antes do décimo dia, provavelmente. Esse é o fato, o resto é mito.

Isso evidencia que nem sempre replicar qualquer mensagem que esteja ‘bombando’ nas redes ou que contenha algum apelo emocional seja saudável ou ético. Recorrer à pesquisa e checar fontes podem evitar situações dessa natureza. Embora seja enorme a diversidade de mitos em detrimento ao que pode ser considerado verdadeiro, sempre é válido saber a veracidade daquilo que se transmite. De acordo o contexto, replicar uma informação improcedente pode provocar conflitos nas relações interpessoais, além de uma série de outros prejuízos. Ou no mínimo, manter a ignorância sobre o assunto.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 26 de julho de 2016

QUAL É SUA AGENDA?
Artigo de Jair Donato

Por natureza, sou incentivador do desenvolvimento das pessoas, acredito piamente no potencial latente em todos. Certa vez ao conversar com uma pessoa ainda bem jovem, ela revelou ter vontade de cursar psicologia ou direito. Incentivei-a e ela aparentemente se mostrou empolgada para tal desafio. E mediante minha disponibilidade em ajuda-la ainda naquele ano a fazer o vestibular, ela afirmou que gostaria sim de iniciar um desses dois cursos. Disse que dentre os demais, esses eram os que mais ela admirava. No entanto, alegava que até então não havia cursado devido o trabalho, embora ela mesma regesse o horário de entrada e saída do local em que prestava serviços.

Na ocasião, por indicação minha, ela poderia ter isenção da taxa de matricula na Universidade, o que já seria uma ajuda. Então fiz o comunicado sobre o dia do vestibular. Ela aparentemente confirmou que compareceria no dia do exame. Em seguida se justificou alegando que não daria para participar da seleção porque no dia marcado ela teria que trabalhar. Perguntei se não poderia negociar com alguém, pois o horário que ela deixaria de comparecer para fazer a prova seria pouco e logo retornaria. Mas, retrucou que não teria como.  Foi aí que ela disse que era a agenda estava cheia.

Então perguntei se a agenda de um dia de trabalho dela era maior do que a carreira e o futuro profissional que um dia disse ter almejado. Ela apenas disse que não iria cancelar a agenda. Ela estava certa, afinal era ao que ele se dedicava, e era assim que ela se empenhava. Certo, por ser atitude dela, mas não estava sendo competitiva para o mercado de trabalho. O fato é que eu não citei aqui um caso isolado. Isso acontece cotidianamente.

É grande o número de pessoas que por uma visão míope não consegue perceber o impacto que uma vida não planejada pode ter no futuro. É gente que talvez só vai reclamar quando a energia física e emocional já estiver esgotada, a capacidade de trabalho diminuída e as oportunidades no mercado terem se tornado mais seletivas. E é justamente essa gente que passa a reclamar do país em que vive, do ganho que obtém e confina-se a um destino de poucas opções quando se trata de qualidade de vida.

E você, já se perguntou o que tem como pauta na sua agenda pessoal? Qual é o tamanho do seu sonho, e da sua ousadia pessoal? Vale apena acordar mais cedo, disciplinar-se melhor para adquirir conhecimento e desenvolver habilidades que possam garantir um futuro promissor? Há quem pensa assim, são as pessoas que estão melhores no mercado de trabalho e na vida.

Quanto à pessoa a que me referi no inicio, ainda tentei argumentar sobre o tamanho da carreira que ele poderia ter ao concluir um curso universitário versus a agenda de um dia de trabalho, por mais comprometida que ela fosse. Ela simplesmente respondeu que sabia disso, eu duvido que sim, mas que não iria se prejudicar naquele momento. A verdade que até o prejuízo é uma dimensão relativa. A vida é feita de escolhas, uns escolhem a agenda, outros a carreira.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

segunda-feira, 18 de julho de 2016

O QUE TE FAZ MELHOR?
Artigo de Jair Donato

Você tem consciência daquilo que te faz sentir melhor na vida e te produz uma mudança interior? Na visão do Dalai Lama, essa consciência está ligada à espiritualidade. Quanto tempo você investe naquilo que propicia qualidade de vida e bem estar a você, aos demais à sua volta e ao ambiente em que vive? Isso pode ajuda-lo a perceber o quanto tem de espiritualidade expressa na sua existência. Vários autores sinalizam que os líderes empresariais que serão bem-sucedidos daqui por diante são líderes com bases na espiritualidade, com valores íntegros, postura holística e sistêmica.

Hoje, nas organizações também é abordado o contexto da espiritualidade no trabalho, e sem necessariamente se tratar de religião, dogmas ou sectarismos peculiares. Mas de ações e práticas altruístas, socialização de valores como ética, humanização, motivação, reconhecimento, solidariedade e consideração às pessoas. E acima de tudo, o investimento no potencial latente que há no indivíduo com respeito à individualidade de cada um. Os mesmos preceitos são válidos para os demais contextos de convivência humana.

Investir em programas com foco na consciência sustentável, que dão relevância às questões sociais e ambientais, desde que por consciência e não por imposição da legislação, isso é espirituoso. E mais, direcionar os negócios com postura ética nas relações com o cliente, assegurando-lhe transparência nas operações, a prática da governança corporativa através de uma liderança transformadora, tudo isso reflete em crescimento moral dos envolvidos. É o mais puro reflexo da espiritualidade, sem preconceitos ou teorias dogmáticas.

A espiritualidade nas organizações é uma temática perceptível não apenas na esfera pessoal. Percebe-se ela na cultura organizacional através dos padrões de influência e poder, nas normas formais e informais, tanto implícitas como explícitas, que influenciam o comportamento dos integrantes. E fundamenta-se se pela junção dos valores, hábitos e posturas, atributos expressos pelas atitudes e interação entre pessoas e processos.

Um ambiente onde o preconceito, a corrupção, a cultura de coerção, o mau atendimento ao cliente, a violência, falta de integridade, resistência à mudança e a desvalorização da equipe interna prevalece é um espaço carente da nobreza de espiritualidade. Contudo, caráter, respeito, harmonia, trabalho em equipe, discernimento, seriedade, cultivo de virtudes, o cuidado com a moral pessoal, maturidade nas decisões e no tratamento dispensado ao semelhante, comprometimento, colaboração, empatia e amizade são aspectos dignos de uma espiritualidade sadia. São fatores que se comungam e se tornam aspectos colaborativos para uma convivência saudável. Definitivamente, para que isso ocorra não é necessária imposição de rótulo religioso, e sim de melhores níveis de consciência.

Para quem reflete e toma consciência diária sobre os próprios movimentos, estabelece conexões de estima consigo, preserva, respeita, considera as demais pessoas, o ambiente em que vive e os ecossistemas, não há rótulo religioso, ideologia ou teoria que supere isso. Viver pela consciência e não se comportar apenas por obrigação ou imposição da lei é um caminho para o equilíbrio. Estes são preceitos básicos sobre seu nível espiritualidade.

Pode haver alguém mais espiritualista do que aquele que age com sinceridade, integridade, e ainda propicia momentos felizes aos outros através de um sorriso, um elogio ou uma simples acolhida? O indivíduo que lida bem com as próprias emoções e se torna cada vez mais assertivo, resiliente, altruísta, ético e colaborativo, esse sabe fazer uso da subjetividade contida na espiritualidade em favor do bem comum. Então, como está seu quociente de espiritualidade?


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

segunda-feira, 4 de julho de 2016

ESCRAVOS DE JÓ

Artigo de Jair Donato

Certa vez li sobre a explicação que uma pessoa deu, ante a uma tendência quase incontrolável que ela confessava ter para a invenção. Contou ela que numa certa manhã tentou convencer uma moça de que a música infantil "Escravos de Jó" era uma composição poética referente à homossexualidade cujo significado permanecia por centenas de anos.

Então relatou que a cantiga vinha dos acampamentos militares espartanos, que se tornaram famosos por incentivar namoros entre os próprios soldados, pois aquela seria uma maneira de lutarem com mais bravura. Esses soldados eram normalmente recrutados entre os escravos. Jó teria sido um general famoso, amante de Péricles numa das mais belas páginas da história antiga devido à rivalidade entre as cidades que pertenciam a ambos. Ele escrevera alguns livros, hoje já perdidos, que estabelecia a relação entre a guerra e a homossexualidade.

A explicação para a composição não era difícil de entender. O verso "Escravos de Jó jogavam caxangá" significava que os escravos sexuais de Jó faziam brincadeiras entre eles. Caxangá, em grego vulgar arcaico, era uma dança sensual, vinda da Turquia, um movimento em que os órgãos sexuais dos dançarinos se tocavam.

A parte da música "Tira, bota deixa o zabelê (ou Zé Pereira) entrar" era uma referência clara à penetração e à necessária permissão da parte passiva. Enquanto "Guerreiros com guerreiros fazem zig-zig-zá" novamente fazia referências aos jogos sexuais. Isso, claro, configurava uma orgia, realizada alegremente nos acampamentos dos valorosos espartanos. Pronto, aí está a explicação sobre a origem da música. O que você achou?

E sabe o que fez a pessoa que ouviu tal explanação? Ela acreditou. Foi aí que o contador de história disse sustentar a ideia de que é fácil convencer as pessoas de quaisquer absurdos que você queira. Basta que alguém não conheça o assunto em questão e você reforce sua teoria com alguns dados pretensamente históricos, e dá certo. Sabe o motivo? As pessoas normalmente têm preguiça de checar as fontes.

É mais fácil acreditar leigamente no que alguém diz do que averiguar os fatos. As pessoas partem do princípio de que ninguém é tão idiota a ponto de inventar uma história dessas, conclui o contador dessa história, que afirma ter sido esse o exemplo mais próximo da semiótica que ele teve, quando uma besteira combina com a outra.

Embora contido numa aparente brincadeira, isso traz uma reflexão para o cotidiano. Na área profissional e nos relacionamentos em geral, é uma postura de maturidade não acreditar cegamente em qualquer coisa. O que já disseram a você sobre os diversos aspectos da vida? As vezes, por pura desinformação as pessoas vão repassando uma história que a princípio até possuía alguns elementos verdadeiros, mas que se perdem em pouco tempo.

Especialmente com o advento das redes sociais, é comum as pessoas replicarem informações falsas como se fossem reais. E ainda há outro tanto que compartilha com comentários distorcidos, e a situação vira uma bola de neve. E devido a rápida abrangência, se torna pior do que a lúdica atividade do telefone sem fio.

Da próxima vez que tiver que repassar uma informação recebida, será prudente verificar a fonte e quem sabe evitar desde o replique de um vírus no seu dispositivo eletrônico ou até quem sabe, um ruído que possa atrapalhar a própria vida.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

segunda-feira, 27 de junho de 2016

SÍNDROME DE COITADISMO
Artigo de Jair Donato

No contexto da sua vida, mesmo sem perceber, em que momentos você se coloca como vítima e em quais outros assume e responsabiliza-se pelas suas escolhas? Se em todos você age baseado na segunda opção, então este é um diferencial marcante em si. Há uma postura mental que denigre a autoimagem e a estima do indivíduo. É quando ele prefere a via do vitimismo, essa é uma doença em que as pessoas se consideram punidas com tudo. E agem como se fossem marionetes nas garras do destino.

Você já deve ter conhecido alguém com uso costumeiro de expressões do tipo: “ninguém gosta de mim” “ai, como eu sofro”, “o mundo não é justo” ou “eu nunca tenho sorte” dentre um rol de lamentos que empobrecem a capacidade de aprendizagem de fatores que possam fortalecê-lo. A sensação de perseguição e injustiça se torna para pessoas assim um mecanismo de defesa. Se sentem justificadas ante ao fracasso pessoal que impõem a elas mesmas.

Quem age como vítima sabota a si próprio e deixa de atuar como agente de mudança. Essa é uma postura autodestruidora que mina a possibilidade de autonomia, de desenvolvimento e de maturidade individual perante a vida. Geralmente o perfil de vitimização é tido como tóxico. É o tipo de pessoa que reclama geral e desconhece o poder da gratidão. Por não preferir admirar, escolhe a inveja, a crítica e o desdenho. Também o ciúme, a possessão e o egoísmo são armas que cravam a fraqueza que ela carrega. É gente que cultua problemas e compete para que as dificuldades dela sejam sempre maiores que as dos outros. O mundo sempre parece estar errado para quem o vê dessa maneira. A atitude negativa e que não insere comportamentos de mudança faz com que pessoas assim se tornem negativas, negadoras e reativas.

Ninguém melhor que o próprio indivíduo, após uma tomada de consciência, pode abrir as portas que ele mesmo trancou na vida. Ele pode pedir ajuda para isso, e esse um ato saudável e de bravura, inclusive. Há quem mesmo após ter passado por experiências ou vivências traumáticas, não se dispõe a viver minando a própria existência como se fosse um coitado. Como a vida é feita de escolhas, essas pessoas escolhem ações em favor do potencial que há nelas, e extraem mais disso. Um exemplo dessa maneira de ver a vida é possível ver nos esportistas das paraolimpíadas. São pessoas que passam pela vivência da superação e descobrem que o desafio soa-lhes bem melhor.

O psicoterapeuta suíço Carl Jung acertadamente expressou que aquilo que não enfrentamos em nós mesmos acabaremos encontrando como destino. Então, como eliminar o coitadismo, a pena de si mesmo? Sem dúvida, isso é possível e pode ocorrer pelo aumento do grau de resiliência do indivíduo, o investimento em um projeto para a própria vida. E mais, através da atitude de coragem para imprimir em si mesmo novos comportamentos, e acima de tudo, mudar as próprias crenças. Será nesta última dimensão, campo de crenças, que o indivíduo pode ressignificar os modelos mentais que ele abriga sobre si mesmo, sobre os outros e sobra o ambiente que o cerca.

Por fim, tudo isso dependerá do desejo da mudança, que é o passo inicial da transformação. Foi o filósofo Sêneca quem elucidou que faz parte da cura o desejo de ser curado. Mas, pode ser que a pessoa perceba que os ganhos secundários obtidos mantendo-se como vítima sejam mais interessantes do que o processo da mudança e prefira fugir disso. Talvez seja essa uma maneira segura de receber atenção e cuidados dos demais, e somente assim ela tem as reivindicações atendidas. É quando ela percebe que pode ser melhor culpar os outros e o mundo do que assumir responsabilidades pelas próprias escolhas. Mesmo que ele saiba que a felicidade própria esteja na mudança, vai preferir agir como um coitado. Afinal, essa é também uma escolha.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 10 de maio de 2016

VOCÊ CORRE EM QUE SENTIDO?
Artigo de Jair Donato*

Seus movimentos são mais de enfrentamento ou de fuga? Correr pode ter diferentes sentidos. Pode fazê-lo avançar, enfrentar ou simplesmente fugir, malograr-se. O que você faz quando está na iminência de uma dificuldade inesperada na sua vida? Acha que pode ter melhor ganho mantendo postura que sempre teve? Essa é uma reflexão que faz diferença na vida do ser humano.

Como você espera que possa agir um antílope que esteja pastando num descampado, e subitamente ouve o rugido de um leão? Imagine se você fosse um, como reagiria? Talvez fugir para bem longe e do lado contrário ao rugido poderia uma boa saída. Só que não. O escritor Emmett Murphy descreve o que ocorre com o animal quando ele deixa de enfrentar e foge por instinto para o outro lado de onde surgiu o som estridente do leão. Essa é a hora em que ele cai na boca das leoas. É isso mesmo.

Fugir da ameaça estratégica feita pelo leão é ir para a trilha da morte. Pois é dessa maneira que ele espera que a presa caia na armadilha. O macho do bando faz isso com o apoio das leoas que ficam na rota de fuga do antílope. Elas atacam e todos se beneficiam tendo a frágil presa como alimento. Analogamente, o indivíduo também faz escolhas, para saídas seguras ou para armadilhas ocultas.

Agora perceba em que direção está o êxito dos seus projetos ou mesmo sua sobrevivência. Qual é o seu movimento cada vez que você se sente ameaçado pelas circunstâncias? Seja no trabalho, nos relacionamentos e na vida pessoal, essa é uma reflexão que merece atenção.

Os conflitos que surgem no decorrer da existência humana podem ser comparados ao rugido leonino. Você os enfrenta e faz deles elementos de cunho pedagógico ou se esquiva e foge transferindo seu poder a outrem? Essa é uma questão que pode desencadear-se em inquietações tais como angústia ou mal-estar. Quando os conflitos são vistos através do medo e da ausência de coragem para serem enfrentados e geridos, a probabilidade do indivíduo cair na tocaia do destino se torna maior.

Quantas pessoas ouvem o rugido e se enchem de medo, com isso perdem excelentes oportunidades na vida. E por essa razão podem ter uma existência de reprovação, angústia, frustração e arrependimento. Elas podem pensar tardiamente, talvez, que se tivessem ousado mais e enfrentado com garra as adversidades surgidas, teriam vencido antes. Teriam mais orgulho de si mesmas. O rugir do leão não é a ameaça maior. O mesmo ocorre com as adversidades que surgem, o perigo não está nelas. A armadilha está no medo que paralisa o indivíduo, e até mata. A fuga provocada pelo medo é a tocaia para a perda da confiança em si mesmo.

Há rugidos que podem parecer veementes ameaças à própria vida do homem. Contudo, se enfrentados apropriadamente, podem se tornar vivências importantes para o autodesenvolvimento. E ameaças são eventos que surgem de todos os lados e a todo o momento. Não há lugar seguro se não houver percepção sobre o rumo daquilo que aparece ou ruge ao seu redor. A melhor maneira de correr em momentos de crise na vida pode ser para o enfrentamento. A fuga, seja lenta ou rápida, talvez não seja a melhor escolha. Fugir é da imobilidade, da inércia, da falta de coragem de tomar decisões e avançar rumo ao rugido dos novos desafios é dar ânimo à própria vida, é manter-se vivo e pleno.


Jair Donato* - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e  especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 3 de maio de 2016

CÉU OU INFERNO?
Artigo de Jair Donato*

Em que estado mental você vive? Há quem trata o título deste artigo sob a ótica subjetiva das proporções bíblicas de que há um lugar tenebroso, quente e composto por gente má, denominado inferno, aonde a maioria não deseja ir. Enquanto existe outro ambiente, este paradisíaco, aonde reina somente o bem, cheio de benesses e para onde muitos anseiam para estarem lá, e até presunçosamente acham que vão após a morte.

Mas, numa perspectiva de objetividade, vamos tratar destes dois ambientes por aqui mesmo. Ou será que tenha que morrer para conhecer esses lugares multifacetados? Talvez, depende da morte a que cada um se propuser. É possível perceber que céu ou inferno são lugares que existem sim, e são espaços que estão dentro de cada indivíduo. Seja a plenitude do céu ou a amargura do inferno, são ambientes inerentes à existência de cada ser humano, que cedo ou tarde, ele acaba tendo que se haver com isso. Há quem enfrenta, há quem foge, mas esses dois estados são inegáveis dentro de cada um. Eles independem do ambiente geográfico.

Há um conto antigo que retrata a chegada de um homem ao céu após a morte dele na terra, lugar em que fora muito rico. Ele foi recebido por um guardião que logo lhe apresentou casas e as diversas moradias existentes naquele lugar. Avistaram casas lindas com jardins espetaculosos. Diante de uma das casas formosas, o recém-chegado perguntou: Quem mora ai? Ao que o anjo respondeu: É o Antônio, que foi seu motorista e morreu no ano passado. O homem ficou contente ao pensar que se o Antônio tinha uma casa daquelas, aquele lugar realmente seria espetacular para viver. Em seguida apareceu outra casa ainda mais bonita e o homem inquiriu: E aqui, quem mora? Logo, o anjo disse que aquela era a casa da Joana, aquela senhora que foi a cozinheira dele.

O homem passou a imaginar como seria então a morada dele, no mínimo um palácio, já que os empregados tinham aquelas residências magníficas. Foi nesse momento que o anjo parou diante de um casebre construído com tábuas e disse a ele: Esta é a sua casa! O novo morador ficou indignado com o que viu lamentando o engano do guardião, dirigiu-se a ele: Como é possível? Vocês sabem construir coisa bem melhor do que isso. O anjo disse: Sim, sabemos. Mas, nós construímos apenas o prédio. O material são vocês mesmos que selecionam e enviam para cá. Isso é o que você enviou. Então, aquele homem não teve outra saída, nem outra casa conforme ele achava que merecia.

Essa analogia é uma reflexão que se trata das atitudes que cada um permeia no decorrer da vida, estando ora no céu, ora no inferno. E não será preciso a morte para a compreensão disso. O melhor talvez seja cuidar da base da morada de si mesmo, e da solidez do material para construção da própria existência. Um pequeno gesto de gentileza pode ser o acabamento que dará o brilho a sua moradia. O altruísmo poderá ser a beleza do jardim dessa edificação. Ou poderá fazer tudo ao contrário, escolher uma tapera, sem teto, flores, perfume, limpeza ou sem luz. A vida é feita de escolhas, e escolher o céu ou o inferno não depende dos anjos, somente de cada indivíduo. Tudo se decide por aqui mesmo. Então, como tem sido a escolha do seu material?


Jair Donato* - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e  especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 26 de abril de 2016

MOTIVAÇÃO OU EMPOLGAÇÃO?
Artigo de Jair Donato*

O que de fato motiva uma pessoa no trabalho? Por mais de uma década tenho vivenciado no ambiente organizacional e recebido várias propostas de clientes com posições estratégicas dentro das empresas, solicitando palestras ou alguma atividade de interação para que “motivassem” as equipes deles. De alguma maneira, os relatórios apresentavam baixa produtividade ou o clima entre os colaboradores denotava pouca animosidade, então deduziam que atividades dessa natureza poderiam motivar as pessoas. Era esse o pensamento, como se isso fosse igual a ligar um botão de interruptor que simplesmente fora desligado. Ainda ouço também por parte de funcionários reclamarem que a empresa não promove palestras ou não aumentam o salário deles para motivá-los.

Será mesmo que as pessoas entendem o que é um motivo para ação? Há empresários que ao receberem a divulgação de um ciclo de palestras com o tema “motivação” logo providencia credencial e envia toda a equipe para que fique por horas assistindo a um show bem humorado sobre como vender mais ou melhorar o relacionamento. Mas, por que logo após todo esse investimento (ou seria custo?) as pessoas se empolgam até o dia seguinte, e no máximo em uma semana voltam a se portarem como balões murchos, sem gás algum que as impulsionem?

É bom que fique claro que motivar não é semelhante a um show de comédia em que você paga, ri bastante, esquece o resto do mundo, compartilha nas redes sociais, mas no dia seguinte, todos os problemas continuam. Nunca que uma palestra ou um evento esporádico vai motivar uma equipe que não possui motivos para satisfação no trabalho dentro do próprio contexto profissional ou na vida. O mercado ainda está repleto de palestras e eventos “empolgacionais”, algo extrínseco, que vem de fora, e que não muda nenhuma configuração interna de quem participa.

Faço uma série de palestras nas empresas, e é uma das atividades que executo com prazer, mas sempre deixo claro o papel delas. Servem para lançamento de um programa na organização, um produto novo, abertura ou encerramento de um evento, reforço e sensibilização de uma mudança proposta, celebração de uma data, dentre várias outras razões, mas nunca para motivar as pessoas, isoladamente.

É notório que em muitas ocasiões uma palestra intitulada como “motivacional”, no máximo empolga o público, isso não é atingir o objetivo. Quem está ali fica contente pela habilidade de quem conduz a atividade, pode até fazer promessas de mudanças, mas nada disso ocorre de fato, se não houver estrutura que a complemente. Para a empresa motivar os colaboradores, antes ela precisa saber alinhar de maneira estratégica os valores e objetivos que possui com os valores e objetivos das pessoas.

Como uma empresa consegue motivar as pessoas, por exemplo, se a liderança não muda o comportamento e continua tratando de maneira ríspida a equipe, ou mantendo uma cultura de coerção? Impossível. É tiro que sai pela culatra ao desejar motivar pessoas sem uma mudança que surja de dentro a que faça sentido para o outro. É aí quando o que pensa ser investimento se torna custo, e caro.

Quer motivar uma equipe? Propicie a ela um projeto de vida, um plano de crescimento na carreira ou programa de treinamento e desenvolvimento que esteja coerente com a maneira de agir da própria organização. É preciso que o discurso seja congruente com o que pensa e como age a liderança da empresa, tudo isso alinhado aos processos e as ferramentas por ela dispostos. Isso pode ser dado início com uma palestra cheia de energia, jogos vivenciais ou dinâmicas de grupo que façam sentido com as coordenadas seguintes. Este pode ser o investimento que motiva e provoca mudança, o resto é empolgação, pequenos momentos de euforia.

O que há dentre os seus propósitos que o faz trabalhar para realização das metas da empresa em que você trabalha? A questão fundamental da motivação não está “no que você faz” ou “como você faz”, e sim no “porquê” você faz. Qual é motivo para isso? Há quem vive esperando se motivar por questões externas como salário, sorteios e prêmios. Isso pode incentivar, mas é um episódio que dura pouco, não motiva. Se há interação contínua entre os seus valores e os da sua empresa, ela motiva você. Se você se dedica ao trabalho como uma causa na vida, então sua motivação está em alta. Afinal, seus propósitos e suas crenças estão alinhados?


Jair Donato* - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e , especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

quarta-feira, 20 de abril de 2016

ADIEMUS
Artigo de Jair Donato*

Vamos aproximar? Gostaria de propiciar a você, caro leitor, neste momento de efervescência que vivemos em nosso país, uma reflexão sobre este convite, que literalmente surge do termo adiemos, em latim. A proximidade é um fator que gera união e foca naquilo que é comum. Consta em um dos preceitos da ONU que a paz e a guerra, ambas começam na mente. É importante atentar-se ao conteúdo que o povo de uma nação mantem ciclicamente no âmbito do pensamento, mesmo que ainda não se resulte em ação, desde uma simples discussão até as decisões tomadas no âmbito da legalidade. Isso é algo cujo início se dá antes no âmbito individual.

O que será necessário a um país para que cresça não apenas política ou economicamente? A pauta que vigora entre os governantes é de união ou de disputa? Prevalece o progresso ou a revolta? Além de uma política limpa, economia crescente, o que mais deve aproximar as pessoas? Moralmente, ainda há poucos exemplos. Há um caso recente que merece reflexão sobre o quanto precisamos de mudança em um nível de consciência mais profundo.

A turbulência gerada pelos parlamentares no Congresso Nacional, durante a sessão para voto do impeachment da Presidente da República, evidenciou claramente sobre a postura e os valores dos representantes políticos do nosso país. Os ataques à moral dos integrantes da casa, a falta de educação dos envolvidos ao se comunicarem como gritantes eufóricos, além da ausência de objetivo comum, podem ser vistas como indícios explícitos de pouca maturidade por parte de quem se propõe ao serviço público. A escolha pelo sim ou pelo não resultou em alegações das mais torpes e individualistas. Foram destoantes com a função de cada um que é a de representar a população e trabalhar pelo bem coletivo. Ao invés de se referirem a motivos pontuais ou a projetos, citavam esposas, filhos, sobrinhos, tios, falecidos, menos a busca pela justiça ao país. Não tive certeza se sabiam mesmo o porquê de estarem votando.

Enfim, esse é um evento que pode também acontecer no mundo dos negócios ou em qualquer outro segmento, quando não há o pensamento focado na coletividade. Será que dessa maneira, há como as pessoas se aproximarem, de fato? Há um conjunto de pensamentos, sentimentos e emoções que atuam numa dimensão global que pode ser denominada de mente coletiva, que de alguma maneira exerce uma influência no ambiente em que vive o homem. Emerson, considerado pai da psicologia norte-americana ponderou que o homem se torna o resultado daquilo que ele pensa o dia inteiro. Imagine o que você e a mente coletiva pensa, durante o ano e uma década inteira. A formação desse ciclo pode perdurar por toda uma existência, ou melhor, formá-la.

Cada um se torna de fato, aquilo que se reconhece ser, pelas escolhas que faz, pelas referências e limites a que se condiciona. Isso ocorre seja pelo que se coloca em prática, pela cristalização de um campo de crenças, estilos e hábitos adquiridos. Agora pense um pouco sobre sua existência aqui na Terra. O que faz sentido e o que não faz para você? E o que você tem permitido aos outros para que façam com você? Há um contexto que necessita de mudança no aspecto social em que vivemos que vai além dos patamares da política e da economia. Essa é uma questão que se amplia no campo valorativo, da moral e da ética.

Quanto a ocorrência dos fatos, quaisquer que sejam eles, não podemos ignorá-los. Pois sempre serão propícios para reflexão e mudança. Contudo, estimo que possamos nos envolver sempre em movimentos com o pensamento que aproxime a todos, que as críticas sejam para evolução e que as diferenças sejam para unicidade. Não precisamos fugir dos eventos do mundo em que vivemos, mas podemos atuar como agentes de mudança para unir os pontos, aproximando-nos daquilo que é benéfico para o bem comum. Seja um pensamento, uma decisão ou uma ação, o que fazemos no dia a dia, aproxima-nos do que e de quem?

O que o mundo precisa é de maturidade, propósito firme e desenvolvimento de consciência. Isso é mais que atuar apenas na política ou qualquer outra inserção social que possa emergir. Aproximar-se não significa se tornar igual, agir da mesma maneira, anular-se ou concordar por condescendência. Significa aumentar o foco, a força e a unicidade em prol de uma causa maior. Que tal nos aproximarmos mais? Das causas nobres, das pessoas, daquilo que faz bem. Adiemus!


Jair Donato* - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br