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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

POR QUE AS PESSOAS NÃO MUDAM?
Artigo de Jair Donato

O sofrimento do indivíduo deriva muito das escolhas que ele faz. Nem sempre são escolhas no sentido de movimentar-se, fazer algo novo ou diferente. É quando o sujeito opta por ficar na mesmice dos ciclos viciosos. Ele reclama, fala, repete, sofre, e nada faz para mudar. O ato de não optar já é uma escolha. E não fazer nada é talvez a pior escolha, pois desencadeia sempre em estagnação.

O ser humano possui uma tendência de ligar a mudança sempre a algo prazeroso, o que nem sempre é veraz. É quando ele se recusa a empenhar-se ou se esforçar em prol daquilo que às vezes é doído, mas é o que causa transformação. Desejar a mudança, mas recusar-se a sair da zona de conforto, mesmo que ela implique em sofrimento, é fantasia. Há quem perde relacionamentos significativos e novas oportunidades pelo fato de continuar agindo do jeito que sempre agiu.

Afinal, por que as pessoas não mudam? É simples. Por que elas não querem. Mesmo que o ato de querer seja um processo que não se passa unicamente pelo estado consciente, não deixa de ser evento cuja responsabilidade é do próprio sujeito. Não é coerente culpar a outrem pelo fato de alguém não mudar a si próprio.

Dentre os vários tipos de comportamentos há os que se destacam. Um deles está na expressão de quem se posiciona como vítima do destino, lamuria e culpa os demais ou mesmo as situações extrínsecas pela mesmice em que vive ou pela mediocridade que se estabelece. Há também o pseudo entusiasta, que se abarrota de conhecimento, entretanto se sabota o tempo inteiro. Investe sempre na pessoa e na situação que o leva ao fracasso e rejeita o que possa lhe fazer crescer. É o indivíduo que se apresenta como disposto à mudança, mas continua inflexível por dentro. É um falso sabedor, pois teoriza tudo e pouco faz. O excesso de conhecimento adquirido só o atrapalha porque tudo fica no âmbito da informação e não gera interpretação que provoque mudanças. É quando a intelectualidade isolada se resulta em entrave, da mesma forma que a ignorância e o apego.

Conta-se que um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento. A época era de escassez, porém, ele tinha o faro aguçado, sentiu o cheiro de comida e foi até um acampamento de caçadores. Ao chegar lá, o urso percebeu que o local estava vazio, foi até a fogueira, ardendo em brasas, e dela tirou uma enorme panela de comida. Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo. Mas, enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina. Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava.

O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida. Começou a urrar muito alto. E, quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra si mesmo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o próprio corpo e mais alto ainda rugia. Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. Ele tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela. E o imenso corpo que possuía mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo.

Analogamente, é assim que age o indivíduo quando se atém a um comportamento ou hábito nocivo a si mesmo, e insiste nisso. Pode ser um relacionamento tóxico, hábitos que se resultam em fracasso e uma infinidade de situações do gênero. Afinal, o que você mantem preso a si e não mudou até hoje? Isso pode ser uma pulsão de morte, algo nocivo que o impede de ser bem sucedido. Morre lentamente aquele que segura uma tina de vícios que ferem a ele mesmo. O que impede você de soltar sua tina?

Há situações tão sabotadoras que o indivíduo chega a afirmar que as reconhece, promete agir de outro modo, mas brota um impulso tamanho a ponto dele continuar repetindo os mesmos movimentos do passado, sem nada fazer por si, seja por orgulho, presunção ou vaidade. Enfim, mudança é movimento de gente grande. Toda transformação é um evento que gera deformação.

Por fim, se destacam de maneira autêntica aqueles que se sobrepujam às situações difíceis pelo fato de se tornarem causas para a mudança a partir dos eventos que lhes ocorrem. A principal característica desse tipo de comportamento está em assumir responsabilidades e agir de outros modos. São os que ouvem mais, se sensibilizam de fato, recebem e internalizam os feedbacks que a vida oferece a eles. Quem age assim muda, estabelece foco e se move a qualquer custo. É quem se liberta daquilo que o impede de crescer. É o que se desacorrenta e não se prende ao que queima o próprio ser. Mudar é uma escolha.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 15 de setembro de 2015

TRÂNSITO E APRENDIZAGEM
Artigo de Jair Donato

A convivência social no trânsito ainda é um fenômeno que está longe de ser igualitário. É algo que para ser mudado depende da atitude do cidadão e de maior comprometimento do poder público. É uma situação que mesmo com altas infrações e constantes fiscalizações, a mudança não se estabelece enquanto o condutor não for assolado pelo processo da educação. A dificuldade do ser humano em adaptar às mudanças é um evento que provoca muitos prejuízos.

Tenho presenciado nos últimos meses vários acidentes nas faixas de pedestres em algumas localidades da cidade. O fato é que as pessoas aprenderam a não respeitar as faixas, a ponto de manterem o cérebro nesse foco, agindo em dissonância à própria legislação. Elas continuam dirigindo numa velocidade como se ninguém tivesse a necessidade de transitar a pé. E faixas de pedestres já não são novidades no trânsito da Capital. Há ainda quem quando para, faz isso quase esbarrando no pedestre, e como se fizesse um favor ao transeunte. Só que não, isso é um dever.

A situação é caótica. É um desrespeito que tenho presenciado em outras cidades também. De um lado, aquele pedestre que age corretamente, demora passar à espera de alguém que o considere. E, quando consegue passar, anda carregado de tensão, pois não há confiança se o motorista vai esperá-lo para fazer uma passagem segura. Têm motoristas que já param acelerando, apressando quem atravessa. Além do risco que o pedestre também corre de surgir outro desatento na pista ao lado e invadir a faixa. Há aqueles que param por força da situação, e por isso freiam já em cima da própria faixa, dividindo-a com quem atravessa.

E o fato extremo que tem ocorrido com frequência são as batidas traseiras pelo descontrole de quem dirige logo atrás sem olhar para frente. É um risco que envolve o pedestre, aquele que para enquanto ele atravessa, e quem chega logo em seguida, pela desatenção. É comum observar que os motoristas que se atentam em parar nas faixas de pedestres, para evitar um choque na traseira do carro, precisam ligar o sinal de alerta, porque sempre tem alguém que não se preocupa em parar, ignorando a existência da faixa. Diariamente ocorrem batidas, freadas bruscas de carros e quedas de motociclistas por esse motivo.

A falta de consciência e da preocupação com o outro faz com que parte das pessoas se envolva em acidentes dessa natureza, e por puro individualismo. Então é importante que essa consciência seja ativada. O ser humano passa por vários processos de aprendizagem até adquirir um novo hábito, inclusive pela ignorância. Mas é preciso mais respeito, eliminar a resistência e rever os modos de convivência coletiva. A desatenção do motorista no trânsito é um fenômeno que tem feito do automóvel uma arma de destruição de muitas vidas. Por outro lado, o pedestre também contribui nessa desordem cada vez que não faz o uso correto da faixa prioritária a ele. A consciência deve partir de todos.

Qual é o caminho eficaz para chegar a essa solução? São milhares de novos veículos inseridos no mesmo espaço anualmente. Se não houver mudança no comportamento das pessoas, a perspectiva será o aumento do caos. Contudo, do caos pode surgir a ordem, se cada um assumir a responsabilidade por si em relação ao outro, através da sensibilização e do respeito ao próximo. Este é o primeiro passo para a mudança, sensibilidade é o portal de entrada para a educação. E a via da educação é o único meio seguro que transforma a sociedade.
Segundo, será a responsabilidade do poder público municipal que deve investir mais na infraestrutura e sinalização dos locais próximos às faixas e em pesadas e contínuas campanhas de prevenção. Pois as multas em decorrência das leis são combates apenas em curto prazo. Até pode rechear os cofres, mas, não é o que muda a consciência de quem dirige, mesmo que isso possa doer no bolso dele. Educação é um processo de longo prazo, mas, requer com urgência iniciativas no presente.
O que você pode fazer? Que tal partilhar esse gesto de consideração humana. Isso também uma questão de educação e consciência. Acredito na sensibilidade humana e na mudança de comportamento a partir do momento que um ato seja internalizado. O exemplo tem esse poder. Se o indivíduo age de maneira adequada ou inadequada, é que de alguma forma ele aprendeu isso. Contudo, o homem pode reaprender a qualquer momento, se desejar.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br