MOTIVAÇÃO OU EMPOLGAÇÃO?
Artigo de Jair Donato*
O que de fato motiva uma pessoa no trabalho? Por mais de uma década
tenho vivenciado no ambiente organizacional e recebido várias propostas de
clientes com posições estratégicas dentro das empresas, solicitando palestras
ou alguma atividade de interação para que “motivassem” as equipes deles. De
alguma maneira, os relatórios apresentavam baixa produtividade ou o clima entre
os colaboradores denotava pouca animosidade, então deduziam que atividades
dessa natureza poderiam motivar as pessoas. Era esse o pensamento, como se isso
fosse igual a ligar um botão de interruptor que simplesmente fora desligado. Ainda
ouço também por parte de funcionários reclamarem que a empresa não promove
palestras ou não aumentam o salário deles para motivá-los.
Será mesmo que as pessoas entendem o que é um motivo para ação? Há
empresários que ao receberem a divulgação de um ciclo de palestras com o tema “motivação”
logo providencia credencial e envia toda a equipe para que fique por horas
assistindo a um show bem humorado sobre como vender mais ou melhorar o
relacionamento. Mas, por que logo após todo esse investimento (ou seria custo?)
as pessoas se empolgam até o dia seguinte, e no máximo em uma semana voltam a
se portarem como balões murchos, sem gás algum que as impulsionem?
É bom que fique claro que motivar não é semelhante a um show de
comédia em que você paga, ri bastante, esquece o resto do mundo, compartilha nas
redes sociais, mas no dia seguinte, todos os problemas continuam. Nunca que uma
palestra ou um evento esporádico vai motivar uma equipe que não possui motivos
para satisfação no trabalho dentro do próprio contexto profissional ou na vida.
O mercado ainda está repleto de palestras e eventos “empolgacionais”, algo
extrínseco, que vem de fora, e que não muda nenhuma configuração interna de
quem participa.
Faço uma série de palestras nas empresas, e é uma das atividades que executo
com prazer, mas sempre deixo claro o papel delas. Servem para lançamento de um
programa na organização, um produto novo, abertura ou encerramento de um
evento, reforço e sensibilização de uma mudança proposta, celebração de uma
data, dentre várias outras razões, mas nunca para motivar as pessoas,
isoladamente.
É notório que em muitas ocasiões uma palestra intitulada como
“motivacional”, no máximo empolga o público, isso não é atingir o objetivo.
Quem está ali fica contente pela habilidade de quem conduz a atividade, pode
até fazer promessas de mudanças, mas nada disso ocorre de fato, se não houver
estrutura que a complemente. Para a empresa motivar os colaboradores, antes ela
precisa saber alinhar de maneira estratégica os valores e objetivos que possui
com os valores e objetivos das pessoas.
Como uma empresa consegue motivar as pessoas, por exemplo, se a
liderança não muda o comportamento e continua tratando de maneira ríspida a
equipe, ou mantendo uma cultura de coerção? Impossível. É tiro que sai pela
culatra ao desejar motivar pessoas sem uma mudança que surja de dentro a que
faça sentido para o outro. É aí quando o que pensa ser investimento se torna
custo, e caro.
Quer motivar uma equipe? Propicie a ela um projeto de vida, um plano
de crescimento na carreira ou programa de treinamento e desenvolvimento que
esteja coerente com a maneira de agir da própria organização. É preciso que o
discurso seja congruente com o que pensa e como age a liderança da empresa,
tudo isso alinhado aos processos e as ferramentas por ela dispostos. Isso pode
ser dado início com uma palestra cheia de energia, jogos vivenciais ou
dinâmicas de grupo que façam sentido com as coordenadas seguintes. Este pode
ser o investimento que motiva e provoca mudança, o resto é empolgação, pequenos
momentos de euforia.
O que há dentre os seus propósitos que o faz trabalhar para realização
das metas da empresa em que você trabalha? A questão fundamental da motivação
não está “no que você faz” ou “como você faz”, e sim no “porquê” você faz. Qual
é motivo para isso? Há quem vive esperando se motivar por questões externas
como salário, sorteios e prêmios. Isso pode incentivar, mas é um episódio que
dura pouco, não motiva. Se há interação contínua entre os seus valores e os da
sua empresa, ela motiva você. Se você se dedica ao trabalho como uma causa na
vida, então sua motivação está em alta. Afinal, seus propósitos e suas crenças
estão alinhados?
Jair
Donato* - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor
e , especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br



