É GOLPE?
Artigo de
Jair Donato
Por que é difícil lidar com determinadas características da
personalidade humana? Há quem se justifica o tempo todo, pressupõe, agride se
for o caso, encoleriza-se, e até age como vitima, como se sempre estivesse correta.
Admitir um erro? Difícil, parece mais fácil viver no campo da autodefesa ou do
ataque. A intransigência talvez seja o maior entrave na vida do ser humano.
Afinal, constitui-se em nobreza o ato de admitir que em determinado momento ou
em devida função possa ter falhado, errado e até ter se tornado não merecedor
de algo.
É pela força do ego que o indivíduo age de tal forma que não vê a
possibilidade de enxergar a si mesmo. Então cria subterfúgios para se convencer
de que sua posição é a de vítima, não de alguém que deva prestar contas. Não
admitir que possa falhar já é a falha em si mesmo. Na política isso é
perceptível, quando políticos mesmo com provas contundentes sobre uma série de
situações irregulares, e até condenados, não admitem que erraram. E isso é algo
que ocorre em escala nos vários setores, é torpe do ser humano. E o mundo
corporativo também não está isento.
Vejo muitas pessoas que chefiam organizações e fazem uso dos cargos
que possuem como válvula de escape para as próprias frustrações íntimas.
Enquanto a genuidade no ato de servir, o que é relevante, praticamente
inexiste. Tudo o que fazem é para defenderem os próprios interesses, e os de
quem os interessa, mas não ao coletivo. Você pode estudar a história de um
líder-exemplo, seja estadista político ou de outra área, e constate que o
perfil dele não se assemelha com quem usa o poder para se manter, e não para
ser base para o bem comum.
Veja como Gandhi, Mandela dentre uma série de nomes na esfera global
se comportaram frente aos desafios da perda e da oposição que tiveram, e não
foram poucos. Ocorre que o indivíduo por vezes projeta no mundo e nas pessoas o
conteúdo interno dele, sem ao menos refletir sobre o impacto disso. O que você
acha que traz dentro de si uma pessoa que se declara como vítima das normas, da
legislação e das autoridades, denominando a tudo de golpe? Que projeção pode
ser essa, afinal?
O ser humano precisa desenvolver a habilidade para a perda, pois esse
é um ganho para lidar bem com as próprias emoções. Há quem não lida bem com a
perda, seja de uma oportunidade, do emprego, de um cargo ou até da vida, quando
se esvai um ente querido. Perda e ganho são duas faces de uma moeda que apenas
se fortalece, se souber investir nela. Se você encontra alguém que só perde o
tempo inteiro, ou só ganha sem cessar, deve haver algo de errado nessa equação;
nela falta equilíbrio. Mas, a junção dessas duas esferas é uma habilidade que
poucos nobremente a consegue.
Então o que resta aquele que é forçado a uma perda, sem admitir que
nela tenham responsabilidades? Geralmente bate em retirada, mas com o desejo de
vingança, senão uma profunda mágoa que irá golpeá-la a si mesmo. São os
mecanismos de defesa ligados a pulsão de morte que entram no campo de escolhas
do indivíduo. Afinal, todo aquele que se vitimiza, está golpeando o que além da
própria história?
Golpe é negar, desprezar
opinião contrária para defender o próprio umbigo. É se recusar a ver ou admitir
os próprios entraves. Isso é peculiar às pessoas inflexíveis, resistentes à
mudança, pouco disponíveis ou preocupadas com o bem comum. Saber ouvir
desarmado de revide, refletir sobre uma crítica recebida de peito aberto sem se
justificar ou se defender, não é para qualquer um. Os profissionais que
trabalham na área do relacionamento humano e da gestão de pessoas sabem a
importância de perceber e lidar com os diferentes níveis de perfis quando se
trata do comportamento. O que justifica manter uma visão de que está sempre
certo?
Jair Donato -
Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e
especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br
