
Artigo de Jair Donato
A atenção às questões ambientais é um assunto sério, principalmente nas atividades ligadas a sustentabilidade, que se compromete também com o crescimento econômico e o legado sócio-cultural. Cuidar do patrimônio natural, fomentar a economia e viabilizar qualidade de vida social e justa não pode se encerrar em ações que apenas aumentam os índices marqueteiros como fazem muitas organizações, cuja finalidade é aumentar o lucro atual em nome de uma nobre causa. Isso caracteriza uma maquiagem corporativa, são razões pseudas.
Ainda há muita confusão e oportunismo quando se fala de soluções verdes como saída para um futuro sustentável. Enquanto poucos se dedicam por acreditar na mudança, muitos ainda fingem serem ecologicamente corretos, poluem o que é de todos e o que seria para o bem comum. Cuidar das causas ambientais não pode se resumir em patrocinar financeiramente a perpetuação só da flora e da fauna, por exemplo. O ser humano faz parte da natureza. Portanto, a atenção em torno de si só é validada quando se estende também ao meio em que vive e aos outros que habitam esse meio.
O físico Fritjof Capra mostra que sustentabilidade é a conseqüência de um emaranhado padrão de organização que se dá através de cinco características básicas. São elas: interdependência, reciclagem, parceira, flexibilidade e diversidade. Será mesmo que a sociedade atual está pronta e dotada de uma visão sistêmica e sustentável capaz de satisfazer as próprias necessidades sem diminuir as perspectivas das futuras gerações? Esse é um questionamento cuja resposta ainda está numa leve construção.
Conta-se que certa vez um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento. A época era de escassez, porém, ele tinha o faro aguçado, sentiu o cheiro de comida e foi até um acampamento de caçadores. Ao chegar lá, o urso percebeu que o local estava vazio, foi até a fogueira, ardendo em brasas, e dela tirou uma enorme panela de comida.
Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo. Mas, enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina. Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava. O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida.
Começou a urrar muito alto. E, quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra si mesmo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o próprio corpo e mais alto ainda rugia. Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. Ele tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela. E o imenso corpo que possuía, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo.
Ao refletir sobre essa analogia do urso, percebe-se que na vida, por muitas vezes, as pessoas abraçam certas coisas, sejam hábitos, crenças ou modelos de produção e consumo, que julgam serem importantes para elas, mesmo que a forma como fazem essas coisas, possa significar o a perda da capacidade de viver em consonância com o meio ambiente, agora e no futuro.
Algumas dessas ‘panelas’ a que se agarram podem fazer gemer de dor, queimar por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda as julgam importantes. No entanto, o medo de abandonar velhos paradigmas pode colocar a todos numa situação de sofrimento e de desespero. ‘Apertar’coisas contra o coração e por vezes terminar derrotados por algo que tanto protege e defende, se chama apego, o que é doentio. Isso gera a incapacidade de mudar e de criar algo novo.
Inovar é preciso em tempos de mudanças climáticas. Ter a coragem e a visão que o urso não teve e tirar do caminho tudo aquilo que pode fazer arder o coração desta e das gerações futuras é o ideal.Vale a reflexão sobre o texto de uma crônica do escritor Luis Fernando Veríssimo: "Somos inquilinos do mundo, com várias obrigações, inclusive a de prestar contas de cada arranhão no fim do contrato". Então, solte a panela!
Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com


