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quinta-feira, 28 de agosto de 2008

FALSAS RAZÕES



Artigo de Jair Donato

A atenção às questões ambientais é um assunto sério, principalmente nas atividades ligadas a sustentabilidade, que se compromete também com o crescimento econômico e o legado sócio-cultural. Cuidar do patrimônio natural, fomentar a economia e viabilizar qualidade de vida social e justa não pode se encerrar em ações que apenas aumentam os índices marqueteiros como fazem muitas organizações, cuja finalidade é aumentar o lucro atual em nome de uma nobre causa. Isso caracteriza uma maquiagem corporativa, são razões pseudas.

Ainda há muita confusão e oportunismo quando se fala de soluções verdes como saída para um futuro sustentável. Enquanto poucos se dedicam por acreditar na mudança, muitos ainda fingem serem ecologicamente corretos, poluem o que é de todos e o que seria para o bem comum. Cuidar das causas ambientais não pode se resumir em patrocinar financeiramente a perpetuação só da flora e da fauna, por exemplo. O ser humano faz parte da natureza. Portanto, a atenção em torno de si só é validada quando se estende também ao meio em que vive e aos outros que habitam esse meio.

O físico Fritjof Capra mostra que sustentabilidade é a conseqüência de um emaranhado padrão de organização que se dá através de cinco características básicas. São elas: interdependência, reciclagem, parceira, flexibilidade e diversidade. Será mesmo que a sociedade atual está pronta e dotada de uma visão sistêmica e sustentável capaz de satisfazer as próprias necessidades sem diminuir as perspectivas das futuras gerações? Esse é um questionamento cuja resposta ainda está numa leve construção.

Conta-se que certa vez um urso faminto perambulava pela floresta em busca de alimento. A época era de escassez, porém, ele tinha o faro aguçado, sentiu o cheiro de comida e foi até um acampamento de caçadores. Ao chegar lá, o urso percebeu que o local estava vazio, foi até a fogueira, ardendo em brasas, e dela tirou uma enorme panela de comida.

Quando a tina já estava fora da fogueira, o urso a abraçou com toda força e enfiou a cabeça dentro dela, devorando tudo. Mas, enquanto abraçava a panela, começou a perceber algo lhe atingindo. Na verdade, era o calor da tina. Ele estava sendo queimado nas patas, no peito e por onde mais a panela encostava. O urso nunca havia experimentado aquela sensação e, então, interpretou as queimaduras pelo corpo como uma coisa que queria lhe tirar a comida.

Começou a urrar muito alto. E, quanto mais alto rugia, mais apertava a panela quente contra si mesmo. Quanto mais a tina quente lhe queimava, mais ele apertava contra o próprio corpo e mais alto ainda rugia. Quando os caçadores chegaram ao acampamento, encontraram o urso recostado a uma árvore próxima à fogueira, segurando a tina de comida. Ele tinha tantas queimaduras que o fizeram grudar na panela. E o imenso corpo que possuía, mesmo morto, ainda mantinha a expressão de estar rugindo.

Ao refletir sobre essa analogia do urso, percebe-se que na vida, por muitas vezes, as pessoas abraçam certas coisas, sejam hábitos, crenças ou modelos de produção e consumo, que julgam serem importantes para elas, mesmo que a forma como fazem essas coisas, possa significar o a perda da capacidade de viver em consonância com o meio ambiente, agora e no futuro.

Algumas dessas ‘panelas’ a que se agarram podem fazer gemer de dor, queimar por fora e por dentro, e mesmo assim, ainda as julgam importantes. No entanto, o medo de abandonar velhos paradigmas pode colocar a todos numa situação de sofrimento e de desespero. ‘Apertar’coisas contra o coração e por vezes terminar derrotados por algo que tanto protege e defende, se chama apego, o que é doentio. Isso gera a incapacidade de mudar e de criar algo novo.

Inovar é preciso em tempos de mudanças climáticas. Ter a coragem e a visão que o urso não teve e tirar do caminho tudo aquilo que pode fazer arder o coração desta e das gerações futuras é o ideal.Vale a reflexão sobre o texto de uma crônica do escritor Luis Fernando Veríssimo: "Somos inquilinos do mundo, com várias obrigações, inclusive a de prestar contas de cada arranhão no fim do contrato". Então, solte a panela!

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jairdomnato@gmail.com

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

INVESTIR NAS CRIANÇAS


Artigo de Jair Donato
Educai as crianças e não será preciso castigar os homens, apregoou Pitágoras, filósofo grego que viveu antes da Era Cristã. O que me faz acreditar na mudança do mundo, em relação às questões ambientais, é a consciência que está se estabelecendo na atitude e no comportamento infantil através da educação. Sinto-me feliz sempre que participo de atividades nas escolas sobre a preservação do meio ambiente com este público, sem paradigmas formados ou opiniões e conceitos prontos.

As crianças de hoje se tornarão os dirigentes e líderes organizacionais e políticos amanhã. E certamente elas não apresentarão resistência em mudar, como se comportam atualmente os adultos, que pensam que estão prontos e cheios de sabedoria, embora sendo destruídos pelo vício de poluir e destruir a natureza sem foco no coletivo.

Independente de sistemas ou regime político, se o homem vive numa cultura capitalista ou não, isso apenas influencia. Mas, o que determina é a atitude de cada um, a falta do repensar na condição sócio-ambiental e econômica do planeta, frente ao maior desafio da humanidade, que é a capacidade de viver por aqui com qualidade de vida.

Recentemente, foi publicado um dos artigos que escrevi sobre meio ambiente no Caderno de Orientação ao Professor, uma obra do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec) em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e a Fundação Itaú Social, distribuída aos professores como ferramenta para ser incorporada ao dia-a-dia escolar.

O objetivo da escolha do artigo pela comissão da ‘Olimpíada de Língua Portuguesa Escrevendo o Futuro’ é a formação de opinião através de pontos de vista sobre a questão das alterações climáticas, enriquecer o trabalho nas escolas, por crianças e jovens dos vários cantos do Brasil. O programa ‘Escrevendo o Futuro’ é uma metodologia adequada que o MEC encontrou para realizar uma das ações do Plano de Desenvolvimento da Educação, idealizado para fortalecer o ensino no País, avalia a comissão organizadora do trabalho publicado.

É gratificante a oportunidade que surge em poder contribuir de alguma forma, seja pela escrita ou não, para a sensibilização acerca de uma causa tão importante, necessária e fundamental, como essa de cuidar da consciência ecológica e ambiental seja nas crianças, juvenis ou adultos. Confesso que quanto a estes primeiros, meus olhos brilham ao pensar neles como gestores sustentáveis e ecologicamente corretos no futuro. Pois já demonstram tal preocupação.

Segundo cálculos, cada pessoa produz em média 5 quilos de lixo por semana. No Brasil, de cada cem quilos, apenas dois são reciclados. Esses números mostram o quanto a consciência sobre o cuidado com a natureza ainda deve aumentar. Além de reciclar, é importante que se estabeleça a cultura de reutilizar o que pode ser aproveitado para outros fins. Outro fator importante é reduzir o consumo no cotidiano, repensar o que leva para casa ou para o trabalho, isso é consumir racionalmente.

A atitude de recusar o que não é ecologicamente correto na hora de fazer as compras é fundamental para que quem produz repense na forma de considerar o meio ambiente e passe a adotar um novo estilo de produzir e disponibilizar. Enfim, o repensar sobre todas essa questões está na atitude, que na seqüência se transforma em comportamento, que resulta em ações saudáveis, sustentáveis para essa e as gerações futuras.

Estimular as pessoas à sua volta a terem mais consciência ecológica é importante. Fazer também a parte que compete a cada um é o que pode fazer a diferença. "Se não podemos modificar o nosso comportamento, como esperar que os outros o façam?" Essa é uma reflexão do mestre budista Dalai Lama.

O estado em que vai se encontrar as décadas seguintes depende do que for feito agora. Eu continuarei acreditando nas crianças. Devemos aprender muito ainda com elas.

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jairdomnato@gmail.com

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

MACACO, SER HUMANO E MEIO AMBIENTE


Artigo de Jair Donato
Conta-se que em algumas tribos africanas utilizam um engenhoso método para capturar macacos. Como os macacos são muito espertos e vivem saltando nos galhos mais altos das árvores, os nativos desenvolveram o sistema de pegar uma cabaça de boca estreita e colocar dentro uma banana. Em seguida ela é amarrada ao tronco de uma árvore freqüentada por macacos. Afastam-se e esperam as presas.

Um macaco curioso desce, olha dentro da cabaça e vê a banana. Enfia a mão e apanha a fruta. Mas, como a boca do recipiente é muito estreita, ele não consegue retirar a banana. Surge então um dilema. Se largar a fruta, a mão sai e ele pode ir embora livremente. Caso contrário, continua preso na armadilha.

Depois de um tempo, os nativos voltam e, tranqüilamente, capturam os macacos que, teimosamente, recusam-se a largar as bananas. O final é trágico, pois os macacos são capturados para servirem de alimento. Você deve estar achando inacreditável o grau de estupidez dos macacos. Afinal, basta largar a banana e ficar livre do destino de ir para a panela.

O problema deve estar na importância exagerada que o macaco atribui à banana. Ela já está ali, na mão dele. Parece uma insanidade largá-la. Essa história é interessante, porque muitas vezes as pessoas fazem exatamente como os macacos. Permanecem agarradas a coisas que prejudicam a si próprias como também aos demais em sua volta e ao meio ambiente em que vivem. São velhos paradigmas, velhas formas de ganho e produção que muitos não querem trocar por estilos novos, mesmo sendo sustentáveis.

A ‘banana’ da analogia citada, numa visão capitalista, pode ser simbolizada pelo poder e pela ganância de querer sempre mais, mesmo colocando em risco os recursos naturais que possui, como a capacidade de viver e a garantia de sobrevivência às próprias gerações. Segurar a banana pode significar ter mais ao queimar, destruir para acumular um lucro aparente, embora semelhante à construção de castelos em arenito.

A ação humana natural provoca impacto na emissão de gases que permanecem na camada do efeito estufa. Mas, de longe é isso o que põe em risco o planeta. É a produção em excesso do homem industrial, que usa combustível fóssil em demasia, queima e desmata sem planejamento e preocupação mútua, que está levando o planeta a uma pressão acima do que é capaz de suportar. Ele já não respira bem, vida sintomática é o que temos, com risco de agravamento.

Os valores que fazem a maioria dos altamente poluidores, governos e organizações, permanecerem com a mão na cumbuca do ganha-perde estão invertidos. Não seguram uma banana, como o simples macaco africano, e sim grandes dinamites, ao continuarem poluindo. E o estopim é a falta de consciência que ainda prevalece na ação de tantos.

Contudo, uma luz no fim do túnel começa a surgir, e vem da consciência do cidadão, do consumidor, da dona de casa. O dia-a-dia já conta com incontáveis pequenos exemplos, que sendo efetivos, pode fazer a diferença em cada localidade. E é claro que o impacto é global. Coisas simples podem causar menos impacto e que podem ser feitas dentro de casa. Quer refletir mais sobre isso? Veja o que cada mãe pode fazer.

No mundo, atualmente, nascem cerca de 09 crianças por segundo. Cada mãe que opta por usar fraldas de pano, por exemplo, pode contribuir para poluir menos o planeta. As fraldas descartáveis levam cerca de 450 anos para se decompor ao serem depositadas em lixões e aterros sanitários. Estimativas apontam que elas representam cerca de 30% do lixo mundial não biodegradável e 2% dos resíduos gerados numa cidade. E essa é uma ação que pode ser evitada em casa.

Com esse pequeno exemplo é possível perceber que muito do que está para ser feito compete a cada um de nós, individualmente. Basta que o pensamento seja voltado para o coletivo. A vida é preciosa demais para trocarmos por uma banana, que, apesar de estar na nossa mão, pode levar-nos direto ao caos. Agir sem apegos e disposto à mudanças é bem melhor, é viver com naturalidade.

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jairdomnato@gmail.com

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

FENÔMENO ANTINATURAL



Artigo de Jair Donato

Nada há de errado no fato do planeta aquecer e esfriar. Isto sempre foi um ciclo natural da Terra desde há milhões de anos. Houve inclusive épocas em que ela esteve muito mais quente do que as previsões atuais indicam ao que pode chegar, até o final deste século. Esse movimento é uma transição, readaptação e continuidade das mais variadas formas de vida.

O que é estranho e assustador, para leigos e estudiosos do clima, é a forma como o planeta está esquentando, numa velocidade inimaginável até então. O que antes demorou centenas de milhares de anos, somente as últimas décadas já superou aquele período. Estamos numa era de destruição exacerbada, contínua e sem visão sustentável. Dentre tudo isso o que agrava é a causa que está nas intenções e nas ações do ser humano, que ainda produz e consome de foram irracional, em boa parte do mundo, isso é antinatural.

Vivemos numa cultura de valores invertidos sobre a vida e as diversas formas que ela possui ao se manifestar. Mostra-se uma violência na relação do homem com si mesmo. Afinal, o meio ambiente natural vai se reconstituir nos próximos milhões de anos que ainda possui, lentamente, sem demora, ele tem essa força. Pois em todos os reinos a vida está presente, de alguma forma, mesmo naquilo que parece inerte. A raça humana é que está em jogo.

Diante de tudo isso, a pergunta que não quer calar: O que, afinal, pode ser feito? Como estará o planeta por volta de 2100 possivelmente com mais de 10 bilhões de pessoas, com toda a pressão poluidora exercida sobre ele? Investir com visão de futuro agora pode ajudar e planejar melhor e entender as conseqüências que poucas gerações passadas já provocaram por centenas de outras.

A principal causa do aquecimento da Terra está na alta concentração de gases emitidos que se acumulam na camada do efeito estufa. Os setores industriais e energéticos, as políticas de governo, econômicas e a consciência do cidadão é que podem mudar esse curso. As queimadas e desmatamentos agravam ainda mais essa situação se não houver fiscalização mais assertiva em quem só pensa no lucro do ganha-perde, e perde de fato o meio ambiente.

O aumento do nível do mar, a alteração e a frivolidade da temperatura em diversas partes do mundo, o degelo das calotas polares, a acidez do mar devido maior absorção de CO² e o aumento do calor na água, que provoca extinção da vida marinha, além do aumento de furacões. Também a proliferação de doenças e a fome, o número de refugiados ambientais que começa a subir, são apenas alguns dos efeitos já presentes devido as atuais alterações climáticas rompantes.

O avanço do desequilibro no clima em função da ação humana exterminará milhares de espécies nos próximos anos, segundo uma série de estudos publicados por cientistas de várias partes do globo. 25% dos mamíferos correm alto risco de extinção nos próximos anos, um terço dos anfíbios e quase metade das tartarugas estão ameaçados, segundo a União de Conservação Mundial.

A taxa atual de extinção, revela a UCM, é de mil a dez mil vezes maior do que o índice natural. Isso é desequilibro. Ainda mostram os números que cerca de 2% do total das espécies escritas, em torno de 8.400 correm o risco de sumir do planeta em pouco tempo. Não é só o homem que sofrerá com o que provoca. A casa inteira está em risco. É tempo de pensar, rever e agir em prol de mais qualidade de vida coletiva para as atuais e as futuras gerações.

Ainda tem saída. “É importante repensarmos os padrões de consumo e produção da humanidade. Cada pessoa pode contribuir tanto a partir de seu comportamento individual, economizando energia e água, gerando o mínimo de resíduo possível”, diz sabiamente Luiz Piva, coordenador da campanha de clima do Greenpeace.

Acredito que o mundo mudará mais rápido assim, através de ações simples, que envolva o maior número de pessoas, do que apenas por grandes projetos de poucos sem a consciência ética da maioria. Todos estão com a vida comprometida, ninguém pode se eximir dessa responsabilidade. Talvez aí esteja a maior lição a apreender neste curto tempo que o homem abriga a Terra como visitante, ainda não tem bem educado, por sinal.


Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com