ELOGIO E NARCISISMO
Artigo de Jair
Donato
Será mesmo, como diz o senso comum, que o elogio estraga? Ou que
elogiar nunca é demais? Qual é a verdade e o ponto de equilíbrio nestes adágios
populares? Talvez essa possa ser uma confusão que surge do equívoco de que
elogiar seja permissividade, prática sem escrúpulos, fingir o que não é ou
“passar a mão na cabeça”. Ou então que o elogio deva ser uma lambança
generalizada.
Dentre tantas pesquisas nessa área, recentemente outro alerta foi dado
por pesquisadores americanos e holandeses sobre o perigo de elogiar demais a
criança, que isso pode torna-la em adulto narcisista, ou seja, pessoas que se
acham, supervalorizam-se. Eles conduziram um projeto com cerca de 600 crianças
de seis a doze anos de idade e 700 pais. Observaram os estudiosos que os
narcisistas tem mais chance de desenvolverem ansiedade, agressividade e
depressão.
Embora tenha filhos que são elogiados constantemente e apresentam
autoestima baixa, há outros que nunca foram elogiados, mas que “se acham”. Sobre
isso, a pesquisa também revelou que há crianças que já nascem com traços
narcísicos e que é importante os pais suavizarem isso no processo da educação.
De maneira alguma o estudo invalida ou desaconselha o elogio, apenas
evidencia que a prática em excesso dele não contribui para um crescimento
saudável da criança. Na verdade, esse efeito pode também se dá na fase adulta.
Comece a dizer a alguém que ele é ótimo em tudo só para agradá-lo, e permita
que ele continue executando o que tenha que fazer sem esforço algum, para ver
no que pode dar. Desastre à vista.
O elogio de fato, quando merecido, é um elemento saudável. Ele
propulsiona ao crescimento, pois motiva o elogiado. Contudo, é preciso o
cuidado para que ele seja uma prática genuína e específica. O contrário disso é
bajulação, fantasia, algo que só alimenta o ego, e quem sabe abre o caminho
para a derrocada na vida do indivíduo. Elogio vazio em demasia apenas produz
presunção e inconsequência. Dale Carnegie, autor do best-seller “Como fazer
amigos e influenciar pessoas” sempre ressaltou que o elogio deve ser honesto e sincero.
Talvez o maior desafio para os educadores seja aplicar o elogio na
medida certa, como numa combinação entre o sal e o açúcar. O filósofo Masaharu
Taniguchi, que encetou o movimento filosófico Seicho-No-Ie do Japão para o
mundo, pondera que a criança cresce na direção em que for elogiada. No entanto,
esclarece que o elogio deve ser praticado com amor e sabedoria. Ou seja, deve-se
extrair o talento natural da criança através do elogio e incentivá-la, mas sem
fazer isso descomedidamente, fazendo-a acreditar naquilo que talvez nunca possa
se tornar ou ser quem não seja. Um pai que só educa com amor, sem normas, deixa
a criança fazer o que quer pelo fato de amá-la, pode gerar adultos
intransigentes, egoístas. Ao contrário, se negar elogios e trata-los só com
sabedoria, astúcia, sem incentivo e carinho, utilizando-se de normas rígidas,
pode gerar adultos frios e calculistas.
Será preciso critério e adequação ao elogio e fazer com que a criança
entenda isso. Este equilíbrio poderá garantir uma autoestima sem afetações no
modo de agir no futuro ao chegar à fase adulta. Um elogio que não esteja afeto
ao potencial da criança poderá aumentar-lhe apenas ao orgulho e a vaidade. Como
no exemplo daquela mãe que diz o tempo inteiro à filha que ela é a menina mais
linda do mundo, é a melhor de todas as garotas. Isso pode gerar frustração,
revolta e agressividade quando ela crescer e perceber que isso não é tão
verdade como a mãe disse. Ou o pai que supervaloriza o filho e diz que ele é
mais inteligente que todos os coleguinhas. Esse indivíduo sofrerá uma pressão
para manter isso e dificilmente aceitará perder no decorrer da vida, gerando
traços narcísicos na fase adulta, se achando melhor do que os outros, além da
dificuldade de saber lidar com a frustração.
Uma das necessidades básicas do ser humano é a de “ser reconhecido”.
Portanto, se o elogio for sincero não estraga, edifica. A questão é saber
direcioná-lo. Afirma ainda o dr. Taniguchi que “até o bem, se colocado de
maneira inadequada, deixa de ter o aspecto de bem e passa a ser um mal”. Então,
aos educadores, resta-lhes o caminho do meio, o equilíbrio, a dosagem ideal,
nem muito ao sal e nem muito ao açúcar. Ou, ora mais ao sal, ora mais ao
açúcar. Não há uma receita única para isso, afinal cada indivíduo é uma
complexidade ímpar.
Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de
pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade
de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com


