
Artigo de Jair Donato
Neste artigo a abordagem será sobre os elementos que permeiam a história, o pensamento e a visão dos nativos da América do Sul e Central, regiões em que três civilizações, Astecas, Maias e Incas, tiveram população e construções impressionantes. Nos locais que se localizavam o Brasil, o Uruguai e o Paraguai, viviam cerca de 1400 nações por volta do ano de 1500, com uma população de cinco a oito milhões de nativos, que falavam mais de mil línguas que se dividiam em dois grupos principais, Tupis e Macro-Jê. Esse povo não construiu grandes cidades, mas possuía um conhecimento profundo sobre o meio ambiente natural.
No entanto, os portugueses e espanhóis, posteriormente seguidos pelos ingleses, franceses e holandeses, no processo de colonização da América, alteraram as condições de vida dos ameríndios, provocando drástica redução e desaparecimento de várias daquelas nações, fato lamentado pelos antropólogos e demais estudiosos sobre a cultura e a sabedoria dos nativos
O mercantilismo, desenvolvido entre os séculos XV e XVIII, foi uma nova cultura desenvolvida nas regiões aonde antes só era aplicado o conhecimento natural na agricultura, de tal maneira que as atividades econômicas mudaram de forma significativa e afetaram diretamente o estilo de vida indígena, povo que mesmo com uma sabedoria profunda e extrema sensibilidade, foi praticamente destituído do direito de dar continuidade na vida que possuía, com respeito e sacralidade a natureza.
Os autores Prezia e Hoornaert, na obra “Brasil Indígena: 500 anos de resistência”, mostram que nesse período do crescimento do mercantilismo foi a época em que a riqueza tanto do homem como da nação passou a ser medida pelo número de moedas de prata e ouro que cada um possuía. A Europa nessa época sofreu pela falta desses metais e a exploração foi a única causa dos muitos desbravadores, que lutavam por um valor que não era cultuado pelos nativos, mas que afetou a vida deles para sempre.
A corrida para a busca desenfreada do ouro e da prata teve a largada geral com apoio até mesmo da igreja, pois dessa forma o evangelho seria conhecido amplamente, segundo os cristãos. Os autores mostram que a colonização e a exploração dos metais era um projeto de conquista comercial e que a igreja se afastou mais ainda do espírito de evangelização, ao aderir a essa causa, tornando-se aliada dos reis e dos conquistadores. O benefício maior foi aos aristocratas e a burguesia comercial. Foi uma época que o único interesse era o comércio, a exploração e o lucro.
As características próprias do povo indígena foram ignoradas no processo de conquista pelos exploradores. As formas de expressão cultural, as crenças e os ritos das tradições dos ameríndios, por serem opostas ao cristianismo, foram rechaçadas pelos colonizadores cristãos, pois para eles se tratava de feitiçaria. Pelo fato da igreja ter arraigado o conceito de bem e mal, do que era demoníaco, foi dessa forma que encarou também as danças e as práticas religiosas dos indígenas, tamanho desrespeito a uma cultura milenar.
Prezia e Hoornaert comentam sobre o grande massacre que houve nas áreas da América do Sul e Central durante o processo de colonização. “Na América espanhola, um número imenso de indígenas foi morto logo após a invasão européia. No México, dos 25 milhões de habitantes que havia em 1519, cem anos depois restavam 750 mil. A ilha aonde Cristóvão Colombo chegou, em 1492, hoje República Dominicana e Haiti, possuía 100 mil habitantes dos quais apenas trezentos sobreviveram após um século”, apresentam os autores. Dos 5 a 8 milhões de índios que havia na época em regiões em que hoje estão o Brasil, o Paraguai e o Uruguai, pelo fato de terem sofrido o mesmo processo de colonização, por volta de 1950 essa população já tinha sido reduzida a um número de 200 mil.
Todos esses fatos mostram o quanto foi destruído um estilo de vida e uma cultura baseada em amor, ética, respeito e sentimento natural, destituído de interesse exploratório e distanciado de uma visão etnocentrista. É assim que vivia o povo indígena da América Central e do Sul, que tinha a crença no sagrado e percebia que todo o universo era a expressão da vida por meio do espírito, seja de cada animal ou de cada planta. Para eles, dessa forma todos poderiam se ligar ao “espírito do Criador”, por meio dos espíritos individuais. Certamente não foram entendidos pela arrogância e pela falta de sensibilização de uma raça humana exploradora e ainda com o aval religioso da época. O próximo artigo, finaliza esta série com a cosmovisão do povo indígena.
Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br



