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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

LIÇÃO DOS INDÍGENAS AMERICANOS - Parte III



Artigo de Jair Donato

Neste artigo a abordagem será sobre os elementos que permeiam a história, o pensamento e a visão dos nativos da América do Sul e Central, regiões em que três civilizações, Astecas, Maias e Incas, tiveram população e construções impressionantes. Nos locais que se localizavam o Brasil, o Uruguai e o Paraguai, viviam cerca de 1400 nações por volta do ano de 1500, com uma população de cinco a oito milhões de nativos, que falavam mais de mil línguas que se dividiam em dois grupos principais, Tupis e Macro-Jê. Esse povo não construiu grandes cidades, mas possuía um conhecimento profundo sobre o meio ambiente natural.

No entanto, os portugueses e espanhóis, posteriormente seguidos pelos ingleses, franceses e holandeses, no processo de colonização da América, alteraram as condições de vida dos ameríndios, provocando drástica redução e desaparecimento de várias daquelas nações, fato lamentado pelos antropólogos e demais estudiosos sobre a cultura e a sabedoria dos nativos

O mercantilismo, desenvolvido entre os séculos XV e XVIII, foi uma nova cultura desenvolvida nas regiões aonde antes só era aplicado o conhecimento natural na agricultura, de tal maneira que as atividades econômicas mudaram de forma significativa e afetaram diretamente o estilo de vida indígena, povo que mesmo com uma sabedoria profunda e extrema sensibilidade, foi praticamente destituído do direito de dar continuidade na vida que possuía, com respeito e sacralidade a natureza.

Os autores Prezia e Hoornaert, na obra “Brasil Indígena: 500 anos de resistência”, mostram que nesse período do crescimento do mercantilismo foi a época em que a riqueza tanto do homem como da nação passou a ser medida pelo número de moedas de prata e ouro que cada um possuía. A Europa nessa época sofreu pela falta desses metais e a exploração foi a única causa dos muitos desbravadores, que lutavam por um valor que não era cultuado pelos nativos, mas que afetou a vida deles para sempre.

A corrida para a busca desenfreada do ouro e da prata teve a largada geral com apoio até mesmo da igreja, pois dessa forma o evangelho seria conhecido amplamente, segundo os cristãos. Os autores mostram que a colonização e a exploração dos metais era um projeto de conquista comercial e que a igreja se afastou mais ainda do espírito de evangelização, ao aderir a essa causa, tornando-se aliada dos reis e dos conquistadores. O benefício maior foi aos aristocratas e a burguesia comercial. Foi uma época que o único interesse era o comércio, a exploração e o lucro.

As características próprias do povo indígena foram ignoradas no processo de conquista pelos exploradores. As formas de expressão cultural, as crenças e os ritos das tradições dos ameríndios, por serem opostas ao cristianismo, foram rechaçadas pelos colonizadores cristãos, pois para eles se tratava de feitiçaria. Pelo fato da igreja ter arraigado o conceito de bem e mal, do que era demoníaco, foi dessa forma que encarou também as danças e as práticas religiosas dos indígenas, tamanho desrespeito a uma cultura milenar.


Prezia e Hoornaert comentam sobre o grande massacre que houve nas áreas da América do Sul e Central durante o processo de colonização. “Na América espanhola, um número imenso de indígenas foi morto logo após a invasão européia. No México, dos 25 milhões de habitantes que havia em 1519, cem anos depois restavam 750 mil. A ilha aonde Cristóvão Colombo chegou, em 1492, hoje República Dominicana e Haiti, possuía 100 mil habitantes dos quais apenas trezentos sobreviveram após um século”, apresentam os autores. Dos 5 a 8 milhões de índios que havia na época em regiões em que hoje estão o Brasil, o Paraguai e o Uruguai, pelo fato de terem sofrido o mesmo processo de colonização, por volta de 1950 essa população já tinha sido reduzida a um número de 200 mil.

Todos esses fatos mostram o quanto foi destruído um estilo de vida e uma cultura baseada em amor, ética, respeito e sentimento natural, destituído de interesse exploratório e distanciado de uma visão etnocentrista. É assim que vivia o povo indígena da América Central e do Sul, que tinha a crença no sagrado e percebia que todo o universo era a expressão da vida por meio do espírito, seja de cada animal ou de cada planta. Para eles, dessa forma todos poderiam se ligar ao “espírito do Criador”, por meio dos espíritos individuais. Certamente não foram entendidos pela arrogância e pela falta de sensibilização de uma raça humana exploradora e ainda com o aval religioso da época. O próximo artigo, finaliza esta série com a cosmovisão do povo indígena.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

LIÇÃO DOS INDÍGENAS AMERICANOS – PARTE II



Artigo de Jair Donato

No artigo anterior a abordagem foi sobre a visão de sacralidade, respeito e convivência ética que os primeiros habitantes do continente norteamericano mantiveram por milênios, antes da chegada dos europeus, fato que mudou uma cultura nativa de cerca de 40 mil anos, principalmente na relação com o meio ambiente. O controle do uso da terra para prevenir a extinção de espécies, o uso apenas do necessário, a proibição do desperdício da comida, foram valores éticos transmitidos como sagrados pelas tradições dos mais velhos às gerações seguintes.

Os ameríndios sempre foram dotados de um conhecimento explícito sobre a interação que cada espécie do ecossistema tinha com outras espécies, inclusive com os seres humanos. Por viverem de forma flexível com o mundo natural, a mudança para eles, não era uma linha irreversível, mas uma curva unindo o final ao começo. Havia também uma compreensão intuitiva sobre as questões ecológicas e isso era expresso em lendas e mitos através das tradições transmitidas de geração em geração.

Tamanho era o sentimento de respeito e de sensibilidade ao meio ambiente natural que os nativos americanos rejeitavam métodos que ferissem a terra ao tratá-la, a exemplo da não aceitação que eles tinha aos mineradores de fronteira, que cavavam buracos e até aravam as propriedades dos fazendeiros. Para os nativos isso era como rasgar os seios da mãe terra, pois eles utilizavam apenas bastões para cavar, como símbolo natural do processo de fertilização. Mas, cavar a terra com bastões será adequado nos dias de hoje com número populacional que existe na terra, devido à necessidade de alimentos? Alguém pode argumentar.

Não é essa a lição para os tempos atuais, o que deve ser apreendido nesse contexto é o tratamento dado ao meio ambiente que os ameríndios tinham, o que também pode ser praticado hoje em dia, adequando-se as ferramentas e as tecnologias disponíveis às necessidades da realidade presente, se houver consciência. A produção e o consumo ecologicamente corretos, a cultura por manejo, a preservação e a conservação dos recursos naturais, o fim da exploração descomedida da terra, do ar e da água, são alguns dos exemplos para que homem contemporâneo possa se relacionar bem com a natureza.

O pensamento central dos ameríndios pode ser descrito como circular, intuitivo e inclusivo, a exemplo dos Lakotas, que viviam nas planícies do norte dos EUA, a terra dos búfalos. Eles consideravam essa forma de pensar tanto na simbologia como prática, a exemplo das moradas que eram construídas em forma circular, para lembrá-los que a vida flui em círculos e que todos são interconectados. Na perspectivas deles a vida move-se em círculos, a exemplo da lua e do sol que se movem em círculos. A vida era vista como um ciclo para todos os seres, que é o nascimento, a infância, a fase adulta, o envelhecimento e a morte. Em suma, a mente nativa era repleta de um profundo sentimento de reverência pela natureza, que para eles é um todo maior e a humanidade é apenas uma parte, que deveria se ver como dependente dela e não como dominadora.

Conforme a visão holística dos nativos, tudo possui vida e em cada elemento da natureza está presente essa mensagem, por isso, é fundamental decifrar, interpretar e refletir sobre ela. Em tempos atuais, é importante analisar sobre a consciência ancestral dos ameríndios, que parte do princípio de que o visível é parte do invisível, talvez isso dependa somente da sensibilidade do homem neste atual estágio da humanidade. O próximo artigo abordará a visão dos indígenas das Américas do Sul e Central, que ao longo do tempo estabeleceram uma cultura com relações econômicas, na luta por uma coexistência de harmonia com os elementos naturais.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

LIÇÃO DOS INDÍGENAS AMERICANOS - Parte I



Artigo de Jair Donato

As tradições indígenas se traduzem em valiosas lições para o atual estágio da humanidade em que muito se perdeu na conexão com a natureza e o verdadeiro considerar ecológico. A sabedoria do povo indígena é profunda e fala de um progresso de integração pessoal comunitário e ecológico. Nesta série a reflexão será em torno do modo de viver e de interagir com o meio ambiente natural sob a visão indígena, especialmente dos nativos da América do Norte, da América Central e da América do Sul.

Quanto aos nativos norteamericanos, foram mais de quinhentas nações de índios que viveram por cerca de 40 mil anos numa cultura integrada a natureza, com perspectivas e pensamentos bem diferentes da visão dos europeus quando chegaram ao continente deles. Os índios conheciam todas as terras, desde desertos, pântanos, planícies e florestas, até que as colonizações européias começassem a invadir esses territórios e a mudar a vida daquele continente para sempre. Foram nas primeiras colonizações que deram certo, como a dos espanhóis, de Santo Agostinho, por volta de 1565 e a dos ingleses, em 1607, em que os colonizadores trouxeram companhias desagradáveis como a malária e a varíola, doenças que os ameríndios não resistiam por falta de imunidade. Só essas epidemias dizimaram vilas em até 90% das populações

Para os nativos a terra era sagrada e não tinha donos individuais, ela pertencia ao Grande Espírito. Eles não compreendiam o costume dos colonizadores, que comercializavam as terras. E, os europeus, por não reconhecerem a soberania dos nativos, compravam os terrenos deles com ferramentas, dentre outras miscelâneas. Mas, isso para os índios era no máximo, uma espécie de arrendamento e tudo continuava sendo algo coletivo. No entanto, perceberam que se comessem um dos animais criados pelos brancos, era exigido deles uma indenização, o que gerava conflito e revides entre as partes, pois os índios entendiam tal negociação de um jeito equivocado.

Os ameríndios, por serem nômades, mudavam com frequência de moradia e as posses que tinham eram potes, arcos, cestos estacas para cavar e ajudar na vida cotidiana. Cultivavam grãos e uma variedade de plantas sempre com controle de queimadas em áreas de vegetação, garantiam a vitalidade do solo, deixando-o descansar enquanto plantavam em locais diferentes. O antropólogo Marshall Sahlins se refere a esse comportamento indígena como o entendimento que eles tinham de viver ricamente, devido ao profundo conhecimento que possuíam sobre a natureza. “Todas as coisas apareciam quando necessárias e desapareciam quando os propósitos eram atingidos”, diz Sahlins, sobre o pensamento dos nativos.

No entanto, as colônias de invasores nesse território até então sagrado, cresciam vertiginosamente e os nativos americanos eram forçados a recuar. Os europeus, com tecnologia militar superior aos arcos e flechas indígenas, triunfavam, reduzindo-os a confinamentos restritos. Geronimo, o último ameríndio a render-se aos europeus, que resistiu até 1886, foi o símbolo de uma história trágica, de desconsideração àquelas tribos nativas que foram reduzidas drasticamente. Dentre várias passagens tristes dessa história, destaca-se o caso de Cheyenne, que foi levada por mil milhas a pé, por uma caminho que passou a ser chamado de “trilha das lágrimas”, enquanto muitos outros morriam ao longo daquela longa jornada situada da Geórgia até Oklahoma, área designada na época como território dos índios. Segundo registros da história, houve brutalidades, corrupção e tentativas de fazerem com que os índios pensassem como os europeus invasores. Embora muitos deles tenham estudado como o homem branco, no coração ainda pensavam como índios.

Consta no livro “Ecologia dos Índios Norte Americanos” de J. Donald Hughes: “Para os índios americanos, a ecologia não era um assunto separado ou algo para ser pensado somente em determinada parte do tempo, tratava-se de um assunto que envolvia todo um modo de vida. Para eles, as coisas que nós chamaríamos de ecologia afetavam e eram afetadas por tudo o que eles faziam.” Portanto, ao verem aqueles homens com costumes diferentes, de cultura mercantilista, eles os consideraram como pessoas rudes e individualistas, que viam o mundo apenas de uma perspectiva individual, que só pensavam em dominar a Terra e dividi-la em parcelas imobiliárias, cidades, estados e países. Mas, o relacionamento entre nativos americanos e a terra é o de confiança sagrada. Continua no próximo artigo.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

RELIGIÃO E MEIO AMBIENTE


Artigo de Jair Donato
Questões ligadas ao meio ambiente, a sustentabilidade e a utilização dos recursos naturais envolvem a sociedade num contexto tão complexo que vai além dos limites políticos, científicos ou tecnológicos. Envolve principalmente os aspectos intangíveis da consciência e da cultura. Desse ponto de vista, a religião também, por envolver tais aspectos intangíveis, pode contribuir com valiosas reflexões para melhor compreensão e mudança sobre as questões climáticas.

No entanto, será que através da religião a raça humana poderá ser “salva” das intempéries climáticas? Será que existe uma tradição religiosa, uma perspectiva filosófica ou política que tenha uma solução ideal para as questões ambientais? Dada a complexidade que é esse assunto, seria pretensioso afirmar que um único segmento poderia oferecer respostas prontas, no que se refere às mudanças climáticas, o maior desafio global da humanidade atualmente. Há séculos que as principais religiões do mundo prezam os aspectos da natureza, algumas incisivamente mantêm preceitos a respeito do cuidado com os recursos naturais nos próprios ensinamentos, então fica a pergunta: Por que elas não conseguiram atingir esse objetivo? Por que falharam nesse processo e o mundo chega a um caos no clima?

Uma concepção adequada aos tempos de hoje é são as pessoas que possuem nas mãos a chave para a solução das questões climáticas. E nessa etapa, a religião, independente do credo e para quem achar adequado praticá-la, poderá ajudar no processo de sensibilização, como educação mental e espiritual. Portanto, ela tem fundamento e importância no que tange aos acontecimentos na Terra, mas a responsabilidade é geral, de todos os segmentos, e isso parte de cada indivíduo. Afinal, consciência não possui rótulo nem dogma religioso.

Através da religião muitos seguidores ressignificam o estilo de vida que possui. Porém, se o ensinamento religioso, seja qual for, for mal interpretado, poderá levar ao “fundamentalismo” e perturbar a paz. A adequação à contemporaneidade é um dos fatores primordiais para que uma religião continue “viva”, sem se prender apenas aos aspectos históricos de outrora ou a ritos tradicionais, sem conexão com o mundo presente.

Certamente, a missão atual da religião não será apenas a de manter ritos e tradições seculares e pregar métodos de cura e doutrinas atemporais sem orientar a conduta dos seguidores sobre questões do cotidiano, como as mudanças climáticas. O destino das religiões que não adequarem os ensinamentos que possuem às necessidades do mundo presente, sem apego a rótulos ou a tradições antigas, deixarão de ser necessárias a humanidade. Esse é o paradigma da religião viva, que “salva no aqui e agora”.

É de uma nova consciência, comum a todas as crenças e segmentos sociais, como também no mundo dos negócios e nos governos, que os povos de todo o planeta precisam agora, pois a Terra aquece rapidamente. Até agora, foram vários os religiosos que iniciaram ou deixaram legados importantes, muitos seguidores, posteriormente, fundaram movimentos religiosos diferentes se sucedendo em dissidências, compostas de formas e ritos distintos. No entanto, cada uma delas, se vista na essência, deve possuir o mesmo objetivo, o de proporcionar a paz, o amor, conforto, seja do corpo, do espírito e do ambiente.

Há pessoas que ainda consideram as questões ambientais como um problema de ordem técnica. Essa visão, invariavelmente, pode provocar uma ruptura na relação entre o ser humano e o meio ambiente. Se a questão fosse apenas técnica, como apregoa o tecnocentrismo, não haveria necessidade de provocar mudanças na mentalidade do homem sobre o cuidado com os recursos naturais da terra. O ambiente seria então apenas um instrumento para ser utilizado pelo próprio homem sem a necessidade de preservá-lo, conservá-lo ou recuperá-lo.

Esta série composta de 07 artigos sobre religião e meio ambiente, propõe uma abordagem sobre a visão geral da natureza do ponto de vista religioso. O leitor vai conferir o tema “meio ambiente” pela ótica das principais religiões ao redor do mundo, a começar pelo hinduísmo, seguida pelo budismo, islamismo, judaísmo, cristianismo, jainismo. Por fim, a visão de um movimento religioso contemporâneo, a Seicho-No-Ie, um exemplo mundial de “religião viva” que se compromete com o meio ambiente. É importante que despidos de visões preconcebidas, se estabeleça a compreensão da “verdade comum” pregada pelos diversos tipos de religiões, do que apenas se manter preso aos aspectos que as diferenciam uma das outras. Enquanto isso não ocorrer, certamente a paz mundial não se manifestará, tampouco cessará o sentimento de autopunição do ser humano que o faz destruir a si próprio como a casa em que mora, o planeta Terra.

Cabe esclarecer que os pontos que serão destacados nesta série, sob a ótica ambiental em cada uma das principais religiões, tem o objetivo de proporcionar ao leitor uma reflexão ética e moral sobre o estilo de vida do ser humano no planeta, sem pretensão de fazer defesas peculiares sobre esta ou aquela doutrina, nem mesmo abordar dogmas ou ritos, o que compete aos próprios seguidores de cada uma delas.

Como é que a essência de cada uma das religiões existentes, um número bem maior do que o exposto nesta série, poderá contribuir para o repensar individual e coletivo com foco na mudança de atitude? O que será que pensaram os iniciadores dos movimentos religiosos existentes e o que constam nos próprios ensinamentos sobre o cuidado com o meio ambiente e os recursos naturais? Como resolver as questões das alterações climáticas através dos ensinamentos pregados pelos líderes e estudiosos das principais religiões da face da Terra? Será mesmo que os seguidores atuais estão em consonância com o objetivo inicial de cada religião proposta, frente ao desafio das alterações do clima?

Definitivamente, só cuidar da alma para a “pós-morte” não parece algo coerente neste século, época em que a humanidade precisa de mais ética, moral e espiritualidade na relação e no convívio sócioambiental, aqui mesmo neste mundo. A religião tem importância na cultura de diferentes povos, mesmo num País laico como é o Brasil. Por isso espera-se que ela exerça influência positiva no comportamento dos seguidores e simpatizantes para que adotem novas posturas e estilos voltados para a preservação e a conservação dos recursos naturais.

Em 2007, ano do lançamento do quarto relatório do Painel Inter-governamental de Mudanças Climáticas (IPCC), houve um encontro de liderança da comunidade científica e de igrejas evangélicas americanas, ocasião em que cerca de 30 líderes assinaram um acordo e o encaminharam ao governo dos EUA e a líder da Câmara de Representantes, também a outros responsáveis políticos e de associações científicas e religiosas. O documento sugeriu o seguinte: "Os responsáveis de todos os setores de atividades do nosso país - religioso, científico, econômico, político e educativo - devem trabalhar juntos sem demora para mudar fundamentalmente os valores, o estilo de vida e as políticas para responder ao agravamento dos problemas ambientais antes que seja tarde demais". É o início de uma nova consciência.

No ano de 1836, o ensaísta Emerson, considerado o pai da psicologia americana, assim expressou na obra intitulada “Natureza”: “Todo o processo da natureza é uma tradução de um texto que revela a moral. Os princípios da moral estão no centro da natureza e são eles que emitem a luz ao seu redor. Que é uma propriedade rural senão um evangelho do silêncio? A palha e o trigo, a erva daninha e a vegetação, a praga, a chuva, o inseto, o Sol – são todos emblemas sagrados de todo ano, desde o preparo da terra para as plantações até o recolher”.

Sem dúvida, o pensamento religioso tem importância secular na cultura dos povos do mundo inteiro. Assim como se aplicam na atualidade vários preceitos religiosos no mundo dos negócios, nos relacionamentos e na administração, convém que seja possível também tirar o máximo desses ensinamentos propostos para que o homem adquira mais consciência na relação com o meio ambiente natural. Essa pode ser uma “salvação” coerente do “aqui e agora”.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

SEICHO-NO-IE E O MEIO AMBIENTE







Artigo de Jair Donato


Até aqui foi abordado sobre o que algumas das principais religiões do mundo, como também as mais antigas, numa visão geral, têm a oferecer através dos ensinamentos que possuem, para solução das questões ambientais. O assunto meio ambiente foi apresentado sob o ponto de vista do hinduísmo, do islamismo, do budismo, do judaísmo, do cristianismo e do jainismo. Gostaria de encerrar esta série com um exemplo de como o mundo religioso, através da consciência dos praticantes, pode contribuir para a qualidade de vida na Terra, como é o caso da Seicho-No-Ie.

Trata-se de um Movimento filosófico-religioso, monoteísta e não sectário, iniciado no Japão na primeira metade do século XX pelo Ph. D. Masaharu Taniguchi. A Seicho-No-Ie entrou para a história da humanidade como provavelmente a primeira entidade do segmento religioso a se comprometer com as questões ambientais. No Japão, todas as instalações, templos, academias e regionais doutrinárias, já foram certificadas desde o ano 2000 pelo Sistema de Gestão Ambiental ISO 14001, como padrão internacional de preservação ambiental e ecológica. E, por orientação da Sede Internacional, todos os países em que a Seicho-No-Ie está presente estão trabalhando pela difusão do pensamento ecológico proposto pela entidade, como é o caso da Sede Central do Brasil, que já está à beira da certificação da referida ISO.

A Seicho-No-Ie, ao mesmo tempo em que propaga amplamente a fé religiosa, busca atuar nos problemas ambientais, contribuindo na manutenção ecológica da Terra. Ela mantém uma diretriz ecológica onde as doutrinas tradicionais são harmonizadas através de uma vida religiosa moderna, que não se limita aos ensinamentos tradicionais, mas também às necessidades da vida que o mundo atual globalizado exige, de maneira que o objetivo principal de uma religião, a concretização da paz mundial, seja alcançado. Para reduzir o aquecimento da Terra, bem como ajuda para a manutenção da biodiversidade, a Seicho-No-Ie têm realizado campanhas de arrecadação de verbas destinadas a recuperação e reflorestamento das matas do mundo.

E como lição de casa, orienta a todos os adeptos, através de diretrizes ecológicas para que adotem práticas ambientalmente corretas em relação utilização dos recursos naturais, sobre a reciclagem, a utilização de energia limpa, como conscientização de que tudo deve ser vivificado e usado com amor e sabedoria. No caso do Japão, os adeptos são incentivados a instalarem também nas residências os painéis solares, para que cada vez mais seja possível aproveitar dessa fonte energética verde. Assim como na residência do Supremo Presidente, já existem centenas de pessoas físicas e jurídicas que adotam essa prática. É cada vez maior o número de quilowatts de painéis solares instalados pelos adeptos da Seicho-No-Ie.

Os adeptos são incentivados ainda ao uso dos carros híbridos, fato possível devido o Japão ser um dos países com tecnologia mais avançada nessa área. Além disso, também são incentivados a usarem bolsas retornáveis para que seja evitado o uso das sacolas plásticas, assim como o repensar quanto ao consumo de carne, dentre um vasto leque de outras atividades propostas.

Além do investimento na instalação de painéis e o cuidado na seleção de fornecedores que estejam voltados para atividades ecológicas, quando são realizados grandes eventos pelo País, são feitas medições da energia utilizada e é doada a diferença da taxa de energia elétrica tradicional com a energia elétrica gerada através dos ventos, a energia eólica, que é mais cara, para as entidades japonesas que estão produzindo esse tipo de energia. No Brasil, como redução de custos e de impactos ambientais, vários eventos para a liderança já são aplicados virtualmente, evitando assim muitas viagens e outros dispêndios.

Através de exemplos como estes, a Seicho-No-Ie expressa globalmente a idéia de que é possível que todas as religiões possam contribuir concretamente em prol do planeta Terra, através da sensibilização dos bilhões de adeptos que possuem, e, desenvolverem atividades que promovam mudanças no estilo de vida humana com foco na preservação e na conservação dos recursos naturais, na produção sustentável e no consumo consciente. Pois ela entende que essa é uma missão atual do pensamento religioso. A base do ensinamento está no fato de ser imprescindível ao homem viver com sentimento de gratidão ao mundo natural.

Por ser uma filosofia de vida aplicada, está no cerne do que apregoa, a importância do homem adotar um estilo de vida que esteja em harmonia com a natureza. Consta na Sutra Sagrada “Chuva de Néctar da Verdade”, súmula do Ensinamento, o seguinte: “Reconcilia-te com todas as coisas do céu e da terra. Quando te reconciliares com todas as coisas do céu e da terra, tudo será teu amigo... Agradece a todas as coisas do céu e da terra”.

Esteve no Brasil recentemente o professor Masanobu Taniguchi, Supremo Presidente da Seicho-No-Ie, ocasião em que orientou lideranças de vários países e reafirmou sobre o comprometimento com a natureza, a exemplo de espiritualidade ligada às questões ambientais. Ele defende o pensamento de que: “Mesmo que o indivíduo leve uma vida religiosa, se o planeta Terra, onde nós vivemos, for destruído, não poderá desfrutar a felicidade. O mundo precisa de religiosos em ação, sinceros e sem culpa”.

Segundo a Seicho-No-Ie, não deve haver separação entre a vida religiosa e a vida cotidiana. Ou seja, cuidar dos relacionamentos, do meio ambiente em que vive, empreender-se em trabalhos sustentáveis, buscar a melhoria pessoal e profissional de forma ética, tudo isso é o próprio viver religioso. Não agredir o meio ambiente da Terra significa a realização de um mundo em que os seres vivos vivam se respeitando mutuamente, conforme a vontade divina. O mestre Masaharu Taniguchi, iniciador da Seicho-No-Ie, assim expressou: “Todos somos um só. No fundo, somos a extensão de rios e a umidade de nossa boca tem sua nascente na quietude dos córregos.”

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br