CARNE
E ESPIRITUALIDADE
Artigo de Jair Donato
O
antropocentrismo é uma visão que concebe o homem como superior ao animal e por
isso passa como se fosse normal eles não terem o direito à vida e serem mortos
ao bel prazer para alimentação. Mas, seria mesmo justo sacrificar a vida de um
animal para alimentar uma pessoa, principalmente se a vida dessa pessoa não
depende da vida do animal? A idéia do vegetarianismo mostra que devem coexistir,
homem e animal. Desse ponto de vista, não é ético comer carne. O animal pode
ser incapaz de pensar, mas, certamente ele é capaz de sofrer.
Na
Índia, por milhares de anos, a alimentação vegetariana foi um princípio de
saúde e de ética, que após a invasão muçulmana e a colonização católica na região,
houve um triste desgaste nesses princípios, mesmo sendo parcial. Porém, ainda
hoje a preferência dos indianos Hindus é o sistema ovolactovegetariano. Ao se
referir a alimentação, Albert Einstein disse que “A ordem de vida vegetariana,
por seus efeitos físicos, influenciará o temperamento dos homens de uma tal
maneira que melhorará em muito o destino da humanidade”.
Tenho
abordado a questão alimentar vegetariana, não apenas como uma dieta puramente
saudável, porque a maneira como se cultiva vegetais atualmente, cheios de
defensivos agrícolas, não é possível dizer que estejam isentos de substâncias
nocivas, a exceção do que se consome organicamente cultivado. Mas,
fundamentalmente, por não destruir o meio ambiente na mesma intensidade que a
produção de carnes.
Sidharta
Gautama, o iluminado da tribo dos Sakias e fundador do budismo na Índia, há
cerca de 3000 anos, disse que “Feliz seria a terra se todos os seres estivessem
unidos pelos laços da benevolência e só se alimentassem de alimentos puros, sem
derrame de sangue. Os dourados grãos que nascem para todos dariam para
alimentar e dar fartura ao mundo”. É preciso muita sensibilidade para entender
a essência desta sábia mensagem.
Mas será que haveria grãos para todo mundo ou
ocorreria um colapso se o mundo parasse de comer carne? Poderia ser mais fácil isso
acontecer se ninguém mudasse. Hoje, o gado ao redor do mundo consome uma
quantidade de alimento que equivale às necessidades calóricas de 8,7 bilhões de
pessoas, número de seres humanos que a Terra atingirá até o ano de 2050, chegando
aos 9 bilhões, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Somente o que é
destinado para ração animal, cerca de 35% da produção mundial, eliminaria a
fome dos países pouco desenvolvidos.
Em
tempos de mudanças climáticas, alimentação vegetariana não é a solução, mas é
uma boa ajuda na redução da emissão de gases poluentes na camada do efeito
estufa, pois diminui o consumo de carne. Os relatórios do Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que a ONU apresenta ao mundo anualmente
em 04 parciais, têm confirmado que o maior fator para as alterações no clima do
planeta são consequências do uso exacerbado dos recursos naturais pelo homem. Portanto,
o consumo consciente e seletivo na alimentação é uma maneira segura de poluir
menos.
É
antagônico, mas o homem consegue envenenar praticamente tudo o que é produzido
para se alimentar, e ainda destrói a biodiversidade do planeta em que vive como
se provocasse o próprio fim. Não seria essa uma forma de autopunição? E o dilema
é que a humanidade ainda almeja um ideal tão esperado: a paz mundial.
Contudo,
é impossível falar em paz no mundo sem concretizar o amor, o respeito e a ética
aos seres vivos e ao meio ambiente. Um dos preceitos da constituição da UNESCO reza
que é na mente do homem que a paz começa; que deve ser construída. Ou seja, a
consciência é o início de tudo. É hipocrisia
o homem desejar a paz mundial e não cuidar do meio ambiente, dos hábitos
cotidianos, e, amar a natureza e todas as formas de vida nela existente.
Disse
São Basílio que “Os vapores das comidas com carne obscurecem o espírito. Dificilmente
pode-se ter virtude ao se desfrutar de comidas e festas em que haja carne”. É
uma expressão profunda, mas o ser humano talvez ainda não tenha o despertar
ético e moral como base da espiritualidade ao ponto de apreendê-la. Contudo, ainda
é tempo, inclusive de rever o que se come.
Jair
Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas,
professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de
Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

