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terça-feira, 28 de abril de 2015

UMA LIÇÃO PARA AS EMPRESAS
Artigo de Jair Donato        

Certa vez entrevistei o Major aviador Cláudio José Lopez David, pouco antes de uma belíssima apresentação das aeronaves modelo T-27 tucano, da Força Aérea Brasileira nos céus da capital cuiabana. O Major falou sobre a estrutura que garante a segurança e a confiança nas apresentações que são feitas pela esquadrilha, que já possui mais de seis décadas de existência. Para esse time brilhante da FAB, o trabalho em equipe é fundamental.

O Major David tinha a missão de apresentar a equipe que fez uma série de passagens com loopins, cruzamentos e voltas empolgantes para o público que a homenageou ao longo de vinte e duas sequências de cinquenta e cinco manobras numa perfeita sincronia. Por esse motivo, a equipe recebe carinhosamente por onde passa o nome de "Embaixadores do Brasil no céu”.

 Afirmou a aviador que o resultado visto no céu é sinônimo de muito treinamento. A experiência é fundamental, por isso antes de um piloto ingressar na Esquadrilha da Fumaça tem que ter uma bagagem de experiência bastante vasta. Há uma série de treinamentos e somente ao final dela, que são muitas missões, é que o piloto se torna um aviador pronto para demonstrar com segurança o show que é apresentado no ar.

Disse o Major que o treinamento é base de uma execução. E que ele não executam nada sem que antes tudo seja bem treinado. Pensa se as empresas treinassem com excelência as equipes que possuem. Falo de treinamento efetivo, enquanto cultura, valor organizacional, e não palestras esporádicas ou eventos temporários. Essa é a fórmula certeira para um show de atendimento que pode ser apresentado aos clientes.

Sobre isso perguntei a ele qual era o tempo necessário para que uma equipe possa fazer uma apresentação sincronizada naquelas aeronaves com velocidades e coreografia de tirar o fôlego nos circuitos que apresentam. Então o Major abordou sobre a fórmula que qualquer empresa poderia fazer para chegar a excelência. O treinamento com a equipe é sequencial. Toda semana, antes de qualquer tipo de apresentação, eles repassam os procedimentos e todos os treinamentos com todas as manobras. Por isso a repetição torna o mais preciso e o mais seguro possível.

Aristóteles disse há séculos que nos tornamos naquilo que repetidamente fazemos. Portanto, a excelência não é um feito, e sim um hábito. Uma equipe estruturada precisa ser sinônimo de confiança, segurança, treinamento e sincronia. Razão pela qual são necessários quatro anos de curso antes de entrar no grupo da Esquadria, finalizou o aviador.

Esse é um bom exemplo que se aplicado pelas organizações e por gestores que lideram pessoas e processos, mais facilmente podem chegar a excelência e com resultados precisos. A falta de disciplina, planejamento, foco, trabalho em equipe, treinamento desenvolvimento efetivo e tem sido causas de falências em segmentos que sequer tem concorrência direta, apenas são ineficientes estrategicamente. Muitas empresas concorrem com elas próprias, tamanho é o desnível nos processos internos. Basta investir para apresentar um show no atendimento ao cliente. Afinal, excelência já é mais sinônimo de eficiência e eficácia apenas. Ela se completa somente quando há efetividade.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

terça-feira, 21 de abril de 2015

SABEDORIA MÉDICA
- Artigo de Jair Donato

Às vezes uma compreensão sobre os fatos do cotidiano se torna óbvia muito mais pela maneira como ela é apresentada do que apenas ao expor as circunstâncias. Há um conto que retrata um episódio ocorrido certa vez entre o médico e a paciente. Ela chegou apavorada no consultório ginecológico, com um filho nos braços e disse: Doutor, o senhor terá de me ajudar num problema muito sério. Este meu bebê ainda não completou um ano e estou grávida novamente. Não quero filhos em tão curto espaço de tempo, mas num espaço grande entre um e outro. E então o médico perguntou: Muito bem. E o que a senhora quer que eu faça? A mulher respondeu: Desejo interromper esta gravidez e conto com a sua ajuda.

O médico então pensou um pouco e depois de um período de silêncio disse algo para aquela mulher.  Acho que tenho um método melhor para solucionar o problema. Ele é menos perigoso para a senhora. Ela sorriu, acreditando que o médico aceitaria o pedido que fez. E então ele completou. Veja bem minha senhora, para não ter de ficar com os dois bebês de uma vez, em tão curto espaço de tempo, vamos matar este que está em seus braços. Assim, a senhora poderá descansar para ter o outro, e ainda terá um período de descanso até o outro nascer. Se vamos matar, não há diferença entre um e outro. Até porque sacrificar este que a senhora tem nos braços é mais fácil, pois a senhora não correrá nenhum risco.

A mulher apavorou-se e disse: Não doutor! Que horror! Matar uma criança é um crime. Também acho minha senhora, mas me pareceu tão convencida disso que por um momento pensei em ajudá-la, disse ele. O médico sorriu e depois de algumas considerações, viu que aquela lição estratégica surtira efeito. Convenceu a mãe que não há menor diferença entre matar a criança que nasceu e matar uma ainda por nascer, mas já viva no seio materno. Pois o crime seria exatamente o mesmo.   

O aborto é um assunto polêmico. Ao mesmo tempo em que ele é tratado por alguns como um absurdo, um crime perante a vida, para outros não. Afinal, o que pensa muita gente é que o ser humano possui o direito de interromper uma vida no ventre materno, se assim o entender, em nome da “liberdade”. Contudo, a polêmica que existe em torno desse tema se deve pelo fato de algo que está ligado aos valores que cada um possui sobre o que constitui a vida.

Analogicamente e numa visão macro, pensando globalmente, seria mesmo essa a única forma de aborto provocada pelo homem? Nas últimas décadas tem sido constatada a fragilidade da vida humana na Terra, na mesma medida em que as pessoas perdem a capacidade de cuidar do meio ambiente natural em que vive. O homem capitalista está abortando num ritmo veloz a oportunidade de preservar a qualidade de vida no planeta e conservar os recursos naturais, através da atitude criminosa do desperdício, do consumo demasiado e da destruição sem reposição. O ar limpo, tão necessário para as gerações presentes, como para as futuras, está cada vez mais poluído, uma espécie de asfixia que aflige o ser humano, mas é algo provocado por ele mesmo, cada vez que polui o ambiente em que vive, numa espécie de autosuicídio e de extermínio dos próprios descendentes.

É este ser humano mercantilista que foi gerado no “ventre da mãe Terra”, cujos corpos são semelhantes na constituição orgânica, dentro de uma vasta diversidade de recursos naturais, que consegue destruir numa velocidade incomensurável a própria casa que o abriga e polui o ambiente que acolhe a si e aos próprios descendentes. A destruição da enorme complexidade natural do planeta ocorre de maneira tão insensível como se expelisse um feto, cujo significado parece está apenas na concentração de interesses próprios, do orgulho e da vaidade.

E assim como o conselho médico da analogia acima, as catástrofes ambientais que ocorrem no mundo inteiro atualmente, soam como sérios alertas ao homem, sobre a situação que ele está provocando. Contudo, mais do que nunca, faz-se necessário que haja sensibilidade e percepção sobre o fato de que abortar as possibilidades de recuperar e preservar os recursos naturais do planeta coloca em risco a própria capacidade de viver na Terra.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

terça-feira, 7 de abril de 2015

QUAL A MULHER IDEAL?
Artigo de Jair Donato

Quais são os valores que você mais preserva na sua vida? A objetividade e os fatos externos parecem sobrepor à subjetividade em face do aspecto físico em que prepondera o materialismo, o poder e a aparência. Há um conto expresso por Sakyamuni em uma das primeiras Sutras budistas há mais de três mil anos, e que foi preservado pela cultura budista no Sul da Índia, sobre um homem indiano que tinha quatro mulheres. De acordo com o sistema social daquela localidade, era possível e aceito que os homens tivessem várias esposas.

A primeira esposa ele a amava muito. Vivia sempre cuidando dela em todos os momentos, noite e dia. Oferecia a ela os melhores nutrientes e vestes, a exibia como se fosse um troféu. Dava-lhe muito valor estético. A segunda esposa, ela a visitava costumeiramente, e gostava muito de dar-lhe joias e presentes. Na verdade, tinha medo de perdê-la e a tratava como se fosse um tesouro. Quanto a terceira esposa ele a visitava de vez em quando, sem apegos à ela, embora tivesse muita estima. Ela era muito querida e agradável. Já a quarta esposa, ele a tinha, mas não gostava muito dela. Na verdade, não lhe dava muita importância, em muitos momentos a tratava com desprezo, desconsiderando-a, se mostrava enfadado com ela.

Numa determinada ocasião, esse homem precisou viajar para outro País. Era um lugar muito distante. Então, ele precisava ser acompanhado por uma das esposas que possuía. E saiu para fazer o convite. Convidou a primeira mulher, a qual ele amava muito e doava-se a ela. Mas, essa o decepcionou ao dizer-lhe que sabia que ele a amou e cuidou dela sempre, mas não poderia acompanha-lo. Ela se separava dele naquela ocasião. Ele, então desapontado, foi até a segunda mulher e apresentou o convite. Ela frivolamente prometeu segui-lo, mas não foi. E respondeu a ele friamente que se a primeira não foi, por que ela haveria de acompanha-lo, dizendo e ele que o sentimento que teve por ela sempre foi egoísta.

Sem demora, ele seguiu para onde estava a terceira e após o convite, ela o acompanhou prontamente. Mas, com lágrimas nos olhos, só foi até o portão e parou. Não o acompanhou dizendo-se entristecida. Enfim, quem restou a ele? Foi quando lembrou que havia a quarta esposa, pela qual não possuía nenhum afeto. Mas foi o jeito convidá-la para não partir sozinho, já esperando que ela dissesse uma negativa a ele, por não trata-la bem. O desespero e a solidão já estavam grandes que arriscou fazer o pedido a quem ele sequer valorizava. E para surpresa essa última aceitou sem demora e o acompanhou com maior prazer dizendo-lhe que não importava o que acontecesse, ela estaria sempre ao lado dele. E assim eles viajaram.

Quando Sakyamuni contou essa história, todos compreenderam a mensagem naquela época, pois estava de acordo com a compreensão do povo de outrora. Contudo, hoje essa abordagem pode nos parecer sem sentido. Isso porque a mentalidade atual difere consideravelmente daquela de há mais de três milênios. Um dos mais expressivos filósofos japoneses do Século XX, Masaharu Taniguchi, apresentou uma leitura desse conto budista.  A viagem citada na história para outro País simboliza a morte, uma passagem para outro mundo da qual ninguém ficará livre. Já os convites às quatro mulheres representam o seguinte.

A primeira esposa que não pôde acompanhá-lo, embora estivesse a vida inteira ao lado dele, e que ele a tratava bem e adorava exibi-la, representa o corpo carnal. É algo que por mais que se apegue a ele, mantenha-o bem cuidado, vestido, nutrido, malhado, no final da vida, mesmo que se espere, ele não tem como prosseguir. A segunda esposa, a que ele tratava como preciosa, e que não pôde lhe acompanhar também, simboliza as riquezas e bens materiais acumulados. Afinal, fortuna, propriedades, fama, emprego e posição social que inebria o ego humano não há como serem levados.

E a terceira esposa, aquela que acompanhou o homem, mas somente até o portão, quem seria? São os parentes, amigos e as pessoas próximas á nós, que apesar da estima que possuem vão só até o cemitério. Mesmo com consternação e tristeza, não há nada mais que possa ser feito por eles. E a esposa que restou era a quarta, ou seja aquela a que o homem menos considerava, dava-lhe pouco tempo e atenção, e sequer  reconhecia o valor que possuía, e foi a única que o acompanhou, representa a mente.

Quantas vezes a mente é usada apenas para guardar rancores, avidez, insatisfação, sem conferir a ela o real valor que possui. É a única que se apresenta na atemporalidade e sempre presente em mais do que três dimensões. Ou seja é a alma, a consciência que cada um leva, aquilo que é subjetivo, sem aspectos materiais ou tangíveis. O criador da Análise Transacional, canadense Eric Berne, afirmava que os relacionamentos verdadeiramente significativos são aqueles dos quais menos sabemos. Daí surge a reflexão sobre uma vivência sem apegos, seja ao próprio corpo, aos bens físicos, e até mesmo às pessoas ao redor de si.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com