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terça-feira, 26 de maio de 2015

TIRO NO PÉ
Artigo de Jair Donato

Por que muitas pessoas levam a si mesmas ao envolvimento em determinadas enrascadas que por vezes, colocam em risco a própria vida? Os mecanismos autônomos da mente humana são muito complexos a ponto de o próprio indivíduo prejudicar o script do destino dele. Em grande parte, isso se deve a fatores do inconsciente, termo empregado por Freud, pai da psicanálise, para designar uma parte oculta da mente. Mesmo numa empreitada que visa prejudicar o outro, conscientemente o indivíduo sempre deseja se sair bem e age deliberadamente visando driblar a quem quer que seja em face de um ganho rápido. Mas, ocultamente há um senso que algum dia e de alguma maneira ressoa mais alto como que levando o próprio ser a autoexpiação através de situações punitivas ou no mínimo constrangedoras. É um processo de autossabotagem que leva o indivíduo a minar a si mesmo.

Alguns fatos retratam esse tipo de situação como o de um rapaz que justificava não poder trabalhar devido a uma doença que possuía, por isso resolveu praticar um assalto. Mas, se atrapalhou e acabou disparando contra a própria perna. Como resultado, acabou sendo preso em flagrante pela polícia. Outro caso foi do adolescente que resolveu brincar de assalto com uma mulher que ia passando na rua e simplesmente levou um tiro que o levou a óbito. Teve outro do cidadão abusado que antes de ser liberado por um furto cometido, ficou preso porque furtou a carteira da bolsa da escrivã que colhia o depoimento dele. E um jovem de dezenove anos que perdeu o olho direito após atirar acidentalmente em si mesmo com uma pistola nove milímetros durante um assalto a um hotel. Ele ainda tentou continuar a ação, mas teve de ser hospitalizado e consequentemente preso.

Houve o caso do assaltante que após a prática do ato, saiu às ruas com uma camiseta roubada. Logo foi reconhecido e preso. Outro assaltante subtraiu o celular de um garoto de 12 anos no metrô e em seguida num lance de exibicionismo saiu tirando fotos de si, que instantaneamente foram enviadas para a mãe da vítima. A mãe publicou as fotos e ele foi pego em seguida. Há casos de quadrilhas que já foram presas após postarem vaidosamente armas nos perfis de redes sociais.

Certa vez um ladrão mascarado delatou a si mesmo durante o assalto que fez a uma loja. No incidente, ele embriagado olhou para as câmeras de segurança do local e berrou dizendo o próprio nome ao pedir que lhe passassem todo o dinheiro. Em seguida, retirou a máscara e continuou gritando o nome dele. É claro que a máscara caiu. Outro ladrão, antes de assaltar uma loja de uma capital, fez a entrega do currículo dele solicitando emprego. Como tinha todos os dados lá, inclusive endereço, ficou muito fácil para a polícia captura-lo.

Esses são alguns dos exemplos de deslizes, erros, atos falhos, que são na verdade maneiras da pessoa se punir em decorrência de saber que cometeram atos errados, mas que conscientemente não se revelariam, porém se entregam através destes mecanismos punitivos. São expressões advindas do estado inconsciente do sujeito. Como o exemplo do homem que traia a mulher e certamente não contaria isso a ela conscientemente. Mas, certo dia chegou uma multa na casa dele pelo correio, por excesso de velocidade. O inusitado? É que na imagem registrada pelo radar quem estava na garupa da moto era a mulher com quem ele tinha um caso. Teve o caso de uma policial que se submeteu inconscientemente a um tamanho constrangimento e não soube lidar com ele, pois em seguida cometeu suicídio. A tragédia ocorreu depois de ela ter enviado uma mensagem de texto para o amante, só que se confundiu e o texto acabou sendo encaminhado para o marido. O conteúdo se tratava do agradecimento dela ao homem pela noite anterior que passaram juntos, e que ela esperava que novamente isso ocorresse.

Dificilmente você verá um indivíduo conscientemente desejando para si fracasso nos negócios ou em qualquer empreitada seja no âmbito social, financeiro e até mesmo nos relacionamentos. Há quem considere que isso passa pelo crivo do mero acaso, mas pode haver uma relação direta com os níveis mais profundos da mente humana a que facilmente não se tem acesso.  É perceptível que no âmbito consciente, as pessoas desejam sucesso, ganhar mais dinheiro, ter saúde e uma série de fatos bons. Portanto, é imprescindível que o indivíduo estabeleça uma autoavaliação sobre os hábitos que possui rotineiramente. Perceber se eles são construtivos ou destrutivos. Assim como o profissional na empresa deve observar se a liderança que utiliza ao influenciar as pessoas é benéfica ou mascara os objetivos e referências conscientes que possui. Conscientemente, ninguém atira no próprio pé.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

quinta-feira, 14 de maio de 2015

VOCÊ FALA O QUE DIZ?
Artigo de Jair Donato

A comunicação humana é uma ciência de alta complexidade. Engana-se quando o indivíduo se convence pelo que ouve apenas aquilo que é dito pela boca, sem atentar-se para outros recursos da comunicação, como a expressão corporal, por exemplo. O fato comprovado por especialistas é que o corpo fala. E a linguagem dele é contundente e inconsciente, o que nem sempre coaduna com a expressão verbal, que é consciente e facilmente manipulável.

Segundo estudos, no processo da comunicação a palavra por si só possui apenas 7% de eficácia. A tonalidade representa 38%. E os 55% restantes são representados pelo impacto da linguagem não verbal. Ou seja, pelo comportamento expresso enquanto se comunica algo. A palavra quando pronunciada sem emoção fica somente entre a boca do emissor e a parte superficial do ouvido do receptor. Infelizmente essa é uma prática comum no meio político, no mundo dos negócios e nas diversas áreas das relações interpessoais.

Os tempos eleitorais é um período fértil para essas incongruências. O eleitor é obrigado a ouvir de muitos pretendentes aos cargos públicos, incontáveis baboseiras apresentadas como propostas, tão mal elaboradas que por vezes se tornam ridículas e ineficazes, uma verdadeira autossabotagem. São candidatos mal assessorados neurolinguisticamente, que falam conforme o que está no script, cuja fisiologia é discrepante, agressiva e sem emoção. É fato que isso provoca indignação e desconfiança no eleitor, que a cada eleição se torna mais seletivo.

Comunicar bem e de maneira clara, concisa e eficaz é uma habilidade dos grandes líderes, dos estadistas e das pessoas bem sucedidas. Há estudos que mostram que no mundo corporativo, os administradores gastam cerca de 75% do tempo em comunicação. E isso não é diferente nos demais ambientes. O mais importante, a saber, é como as pessoas se comunicam. Quais os resultados obtidos por elas? Uma comunicação eficaz ocorre quando não há incoerência entre o que se diz verbalmente e o que o corpo emite como reflexo das intenções das crenças e das emoções do emissor.

Quantas vezes o político tenta convencer só pela retórica a quem o vê ou a quem o ouve. No entanto, o próprio emissor, enquanto utiliza as mãos, o corpo e a expressão fisionômica, dizem exatamente o contrário da intenção. O corpo sempre expressa a linguagem de fato, ele fala. Interessante observar que a linguagem não verbal não é manipulada assim como podem ser as palavras. É uma expressão do inconsciente e diz a verdade sobre o emissor em ação. Quantas vezes você já escutou uma resposta cuja entonação e expressão do interlocutor expressou o contrário do que você ouviu e do que ele expressou?

Até um elogio, dependendo da forma como é feito, pode causar ressentimento ou má interpretação. Por exemplo, é facilmente reconhecível o uso da palavra ‘querido’, quando pronunciada com tonalidade falsa e sarcástica, embora seja uma expressão essencialmente bela. Muita gente não percebe que o fato de não conseguir o que deseja na vida pessoal, profissional ou afetiva, é devido à incoerência ao se comunicar com o mundo. Ao invés de dar atenção somente ao que se diz, o comunicador deve se atentar para o jeito como fala e se expressa. Freud elaborou uma oportuna reflexão: A que distância você se encontra entre o que pensa, diz e age? Essa pode ser uma maneira de aumentar a chance de ter mais coerência e evitar a dissonância na comunicação.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

terça-feira, 5 de maio de 2015

INSENSIBILIDADE HUMANA
Artigo de Jair Donato

Não é de hoje que os roteiros cinematográficos também retratam muito sobre a insensibilidade humana na relação com a natureza. O filme “O dia em que a Terra parou”, desde a primeira versão na década de 1950, trás uma delicada reflexão sobre a convivência do homem neste planeta que já não é tão azul. Na última refilmagem em 2008, estrelada pelo ator Keanu Reeves, que interpreta um personagem alienígena recém-chegado à Terra para pedir paz, traz um aviso. Ele alerta e mostra que o planeta pode ser destruído.

Mesmo se tratando de uma história em película, ela pode ser útil tanto quanto uma parábola ou um conto dos tempos do sânscrito. A mensagem do alienígena Klaatu (Reeves), que após viajar milhões de milhas para chegar à Terra, é simples. Ele diz aos terráqueos que se continuarem constituindo uma ameaça a outros planetas através da criação de foguetes, todo o planeta deveria ser exterminado.  Embora ame a humanidade, ele deixa claro que o cuidado dele é com o planeta, por se tratar de ser um dos únicos que mantém um sistema complexo que pode abrigar a vida. Portanto a humanidade está ameaçada a perder o local em que mora caso não cuide bem dele, alerta o ser de tão distante, que se sacrificou para assumir uma figura humana e cumprir a missão a ele confiada.

Contudo, é de conhecimento que embora a Terra ainda abriga um material bélico destruidor , isso não é o que assusta tanto neste novo século, quando se pensa nas questões climáticas. Talvez não haja armamento pior do que a poluição do ar que se respira, o envenenamento da água, a devastação da capacidade produtiva do solo e a exploração demasiada dos recursos naturais do planeta.

O filme mostra ainda o que é pior, a insensibilidade humana sobre a verdadeira paz, como também em valorizar o que há de mais importante para cada humano, a Terra. Intrigante mesmo é o local em que a nave mor foi pousar assim que chegou à Terra. Foi no estado americano de Washington. E lá, como esperado, a maioria não quis ouvir o enviado de outra esfera, tampouco receber e considerar algum aviso. No ápice da prepotência, o governo americano da época se portou como representante da Terra e apenas fez uma grande ameaça ao visitante. Acuado, o singelo alienígena se recolheu temporariamente nos confins da frustração.

Curioso é que os cientistas do clima apelam para o mesmo fato. A humanidade está em perigo e o planeta se mostra incomplacente mediante toda a destruição que o homem tem causado quanto ao uso exacerbado dos recursos da natureza, a exploração de minerais e as demais formas de poluição no planeta. Isso não é roteiro cinematográfico e é grave, pois trata de um comportamento coletivo que leva a extinção. Então, existe arma global mais poderosa?

A falta de conexão humana em face da hiperconectividade digital que gira em favor da competição e de um deleite mercantilista que agrega pouco valor sustentável numa sociedade que ainda não reflete como deveria sobre a lei de causa e efeito, tem sido o empecilho para  o despertar de uma consciência mais holística, integral e natural. Ou esperam os terráqueos que realmente sejam ameaçados por alienígenas? Se assim for, já é tempo de convidá-los até aqui. Fica uma sugestão para a próxima produção cinematográfica: O dia em que a humanidade parou.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com