QUAL
É O SENTIDO DA VIDA?
Artigo de Jair Donato*
O que será que mais conta na vida, o fato ou a
interpretação sobre os fenômenos que nela que ocorre? Afinal, interpretar é
sempre interpretar. E o homem faz isso segundo aquilo em que ele crê, o que nem
sempre coaduna com os fatos que lhe sucedem. Segundo o filósofo Michel Foucault, no contexto social, o
indivíduo nunca está diante de um objeto real concreto, e sim de um objeto real
de conhecimento, algo construído.
Há uma reflexão contida numa passagem apresentada pelo
escritor Hugo P. Homem sobre as sandálias de um discípulo que ressoavam
surdamente nos degraus de pedra que o conduzia aos porões de um antigo
mosteiro. Ao empurrar a pesada porta de madeira que cerrava os aposentos do
ancião que lá morava, ele custou a localizá-lo na densa penumbra. Mas, lá
encontrou o velho mestre com o rosto velado por um capuz, sentado atrás de uma
escrivaninha, onde, apesar de escuro o ambiente, fazia anotações num grande
livro, também muito velho.
Então, o discípulo avidamente assim interpelou o mestre: Qual
é o sentido da vida? Ao que o velho monge, permanecendo em silêncio, apenas
apontou um pedaço de pano, um trapo grosseiro que estava no chão junto à
parede. Em seguida, com o dedo indicador mostrou, no alto do aposento, o vidro
da janela, opaco sob décadas de poeira e teias de aranha.
O discípulo rapidamente foi até o local apontado, pegou o
pano e subiu em algumas prateleiras de uma pesada estante forrada de livros. Conseguiu
alcançar a vidraça e começou então a esfregá-la com vigor, retirando a sujeira
que impedia a transparência. Logo o sol inundou o aposento e iluminou os objetos
ali dispostos, instrumentos raros, dezenas de papiros e pergaminhos com
misteriosas anotações e signos cabalísticos.
O discípulo, sem caber em si de contentamento, com fisionomia
que denotava o brilho da satisfação, declarou ao mestre que havia entendido
naquele momento a lição. E então expressou que devemos nos livrar de tudo que atrapalha
nosso aprendizado. E também retirarmos o pó dos preconceitos e as teias das
opiniões que nos impedem receber a luz do conhecimento e então enxergaremos a
verdade, com mais nitidez. O jovem discípulo fez então uma reverência, e deixou
o aposento, sentindo-se iluminado, a fim de compartilhar com os outros a lição recém-aprendida
naquele âmbito espirituoso.
Então, o pacífico mestre ainda com o rosto encoberto pelo
largo capuz, sendo invadido pelos raios de sol da manhã que banhava-o com uma
claridade a que se desacostumara, olhou o discípulo se afastando. Deixou
escapar um tênue sorriso e pensou: “Mais importante do que aquilo que alguém
mostra é o que o outro enxerga”. E
disse baixinho para si mesmo: “Eu só queria que ele colocasse o pano no lugar
de onde caiu”.
E
você caro leitor, que leitura tem feito sobre os eventos que ocorrem ao seu
redor, no convívio com as pessoas e diante dos fatos que ocorrem no cotidiano? Como
tem lidado com as responsabilidades que lhe são mostradas? Talvez um eventual
conselho dado pelo velho monge do mosteiro não ajudasse tanto aquele discípulo
como a própria compreensão que ele teve a partir de uma construção interna que
propiciou a si mesmo. O teólogo Leonardo
Boff expressou que cada um lê com os olhos que têm e interpreta a partir de onde
os pés pisam. Há quem espera receber respostas prontas na vida. Mas, há quem as
encontra a partir da realidade construída mediante cada momento vivenciado.
Tudo pode ser uma questão de sensibilidade.
*Jair Donato - Jornalista em
Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário,
especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br










