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quinta-feira, 24 de setembro de 2009

MUNDO DO JAINISMO E MEIO AMBIENTE



Artigo de Jair Donato

Jainismo é uma das religiões mais antigas da Índia, cuja origem é contemporânea ao budismo, caracterizou-se por não aceitar os ensinamentos védicos e pela oposição ao sistema de castas, imposto pela cultura brâmane. Surgiu por volta do século V a.C., sendo que no primeiro século d.C. se dividiu em dois principais grupos, com vários subgrupos. O jainismo surgiu como um movimento de reforma do hinduísmo, teve como fundador, Vardhamana Mahavira, pertencente a uma casta de guerreiros, que viveu na opulência no início da vida, vindo a desfazer-se das paixões mundanas e inconformado com as posições religiosas da época, estabeleceu uma dissidência que mais tarde se tornou uma nova religião. Mahavira dedicou-se a pregação de uma vida de ascetismo, desapegada ao luxo, em conexão com o mundo natural.

Atualmente, os Jains estão espalhados pela Índia e uma pequena parte na América do Norte e na Europa, com pouco mais de nove milhões de adeptos. Não está dentre as maiores religiões, mas é um ensinamento que se traduz numa profunda ligação de respeito com o meio ambiente natural, embora tida como radical pela forma como alguns seguidores se propuseram a viver no cotidiano. Os Jains não acreditam num único deus criador, mas sim que o tempo é eterno e cíclico. Segundo o estudioso sobre jainismo, o escritor, diretor e produtor, Michael Tobias, os seguidores dessa religião não cultuam Deus porque isso é visto como uma forma de interferência que se contradiz à natureza. A prática deles é a reverência ao ambiente natural, acreditam que o amor consciente é o instinto da natureza que evolui, que alimenta a alma e tem uma finalidade, diz Tobias.

O estudioso apresenta que existem pouco mais de meia centena de monges Jains na Índia que vivem nus, consomem puramente comida vegetariana, como frutas, verduras, grãos e nozes. Mesmo após período de Jejum eles comem uma refeição por dia apenas. Os adeptos praticam a redução do consumo, se devotam a minimizar a violência, e se alimentam apenas dos alimentos que possuem um sentido, resguardando os demais que possuem os cinco sentidos, como os animais. Eles renunciam também as profissões que possam prejudicar os animais, seres que são cuidados por eles, sendo conduzidos para que tenham morte sempre de forma natural, consideram que toda alma de cada organismo é um indivíduo, que possui sonho, vontade e esperança, todos sentem dor e ninguém deseja sofrer. O autor comenta que os Jains interagem com a natureza de tal forma que são capazes de irem até o mercado para comprar animais, por alto preço, como carneiros e cabritos, para livrarem dos matadouros, e cuidam deles para que voltem ao convívio na natureza.

Os médicos jainistas, segundo Tobias, não prescrevem remédios derivados de produtos de origem animal ou que tenham sido testados em animais. Os advogados são rigorosamente contrários a qualquer tipo de violência física como punição. Embora indianos, os adeptos não fazem uso dos saris de seda, vestimenta feminina, pelo fato que para fabricação de cada peça desse tecido, é necessário que aproximadamente dez mil bichos da seda sejam mortos, pois são cozidos vivos. Eles renunciam também aos veículos, por matarem insetos na locomoção. E ainda, a ejaculação para eles deve ser controlada, pois são milhões de espermatozóides que morrem a cada vez que se ejacula, e isso não é auspicioso, pois causa destruição e confusão no equilíbrio bacterial da genitália feminina.

Os adeptos dessa religião valorizam a prática da meditação, seguem um padrão mínimo de consumo para provocarem menos impacto na terra. Dessa forma acreditam que conseguem proteger o mundo natural e ligar novamente a natureza ao todo, e com total não-violência. Algo interessante é que dois milênios antes da descoberta do átomo, que foi em 1805, por Dalton, o ensinamento jainista já era atomista, pois ensinava que os átomos desse mundo material eram indivisíveis, semelhantes e dotados de movimento, tangibilidade, sabor, odor e cor, que se combinavam, formando agregações, constituindo assim o mundo material, assunto fomentado pelos filósofos socráticos e hoje permeado de estudos científicos.

A abordagem sobre essa religião não é nenhuma apologia a esse modo de viver, que segundo muitos críticos, é caracterizado como radical. Mas, apenas para mostrar as diferentes formas de respeito que existem, como a reverência à natureza através da crença e do estilo de vida de vários povos, através dos séculos. No próximo artigo, a visão da Seicho-No-Ie sobre o meio ambiente, a primeira entidade do segmento religioso no mundo, a receber ISO 14001.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

MUNDO DO CRISTIANISMO E MEIO AMBIENTE



Artigo de Jair Donato

Jesus, o homem palestino que nasceu em Nazaré, por volta do ano 4 a.C., não aceitou todas as leis aplicadas pelo judaísmo, se tornou um profeta social, desafiou limites da época em que viveu e inspirou o surgimento da religião mais difundida no mundo, o cristianismo, que se estabeleceu décadas depois da estada dele na Terra. Surgiu então o Novo Testamento como releitura da Bíblia judaica, mas baseada na história que apregoou Jesus de Nazaré. Então, teria esse judeu revolucionário deixado ensinamentos sobre o cuidado com o meio ambiente?

Quanto a isso, o monge beneditino, teólogo Marcelo Barros e o jornalista religioso, Frei Beto, apresentam que nas palavras e ações de Jesus não aparece um ensinamento ecológico de forma explícita, conforme os evangelhos. Embora as parábolas que ele contava se referiam constantemente à natureza, aos pássaros, aos lírios do campo, além de ter proposto aos discípulos dele que lessem os sinais do tempo no Sol, no céu e nas condições do vento, comentam.

Mas, o cristianismo atual carregado de dissidências, a partir da primeira igreja dirigida por Pedro e são muitas as ramificações pelo mundo afora, em nome de Jesus Cristo, oferece um legado enorme que pode ser aplicado e interpretado de diferentes maneiras. Quanto aos católicos romanos, a história está permeada de homem santos, a exemplo de São Francisco de Assis, condecorado como patrono da ecologia, pelo papa João Paulo II, devido a veneração à natureza que ele possuía, a ponto de tratar as abelhas no inverno, dando-lhes mel e denominar os astros de irmão Sol e irmã Lua.

João Paulo II, o representante máximo da igreja dos romanos, em 1990, no Dia Mundial da Paz, afirmou: “Observa-se nos nossos dias uma consciência crescente de que a paz mundial está ameaçada, não apenas pela corrida aos armamentos, pelos conflitos regionais e por causa das injustiças que ainda existem no seio dos povos e entre as nações, mas também pela falta do respeito devido à natureza, pela desordenada exploração dos seus recursos e pela progressiva deterioração da qualidade de vida”.

No entanto, existem correntes de pensamento, com base em versículos bíblicos que interpretam que o fato de Deus ter colocado o homem como senhor dos animais e plantas, significa que as pessoas podem fazer o que bem entenderem deste mundo. Conforme consta no livro do Gênesis 1. 26-27, apregoado durante séculos pela igreja: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, e que ele domine sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra”. Deus disse, conforme o Gênesis, que era para que o homem crescesse e multiplicasse e depois o colocou no jardim do Éden.

Mas, seria o aumento populacional e os desastres ecológicos causados unicamente por esse preceito bíblico? Tal análise parte da consideração do princípio de que se o ser humano é superior aos demais seres e é o mais importante dentre eles, por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus, ele se apodera de uma postura antropocêntrica, como se fosse o senhor da natureza e explora ao bel prazer o mundo afora para produzir alimento, bebida e abrigo, etc.

Contudo, existe também o pensamento contrário a esse, que ao interpretar os mesmos versículos bíblicos, considera que o Criador, ao dar poder ao homem sobre os outros seres, deu-lhe, na verdade, uma enorme responsabilidade, razão pela qual ele deve zelar, cuidar e amar a natureza e tudo que nela existe, como também amar ao próximo, tanto quanto a si mesmo. A verdadeira concepção vinda do hebraico sobre “dominai e submeter” não é de se sentir superior a natureza, dando-lhe o direito de destruí-la, mas, no sentido de cuidar dessa herança e fazê-la progredir o que nela contém, significa cuidar, proteger, como faz alguém que planta, rega e apara o jardim da própria casa, afirmam estudiosos.

Esse segundo pensamento parece coerente e mais reflexivo, ao analisar que a religião cristã não está no mundo inteiro, nem é unânime como crença universal. Será mesmo que ela teria tamanho poder de influenciar povos de todas as localidades para destruírem o meio ambiente, uma situação que é global, devido a uma interpretação radical dos versículos supracitados? Será que a destruição do meio ambiente ocorre somente aonde prevalece o ensinamento cristão? A exploração do petróleo nos emirados árabes, o uso exacerbado de combustíveis fósseis na China seria influencia do cristianismo? Parece não ter fundamento esse pensamento de apontar o cristianismo por essa razão.

O ensinamento cristão tem muito a oferecer sobre as questões ambientais. Segundo o filósofo e teólogo, Leonardo Boff, a religião possui, a partir dos próprios conteúdos religiosos, uma função pedagógica de suscitar responsabilidade nos fiéis pela qualidade de vida. Num País de maioria cristã, como é o Brasil, seria auspicioso se todas as igrejas dessa corrente se comprometessem mais acentuadamente com esse tema, como tem sido com as causas sociais. Mas, como vê o teólogo Boff: “A religião como qualquer outra instância possui também suas limitações.”

Parece mesmo que falta ao homem um comportamento moralmente ético, mais espiritualista e com respeito ao mundo natural. No próximo artigo, a visão do jainismo sobre o mundo natural.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

MUNDO DO JUDAÍSMO E MEIO AMBIENTE



Artigo de Jair Donato

Uma das religiões monoteístas mais antigas da humanidade é o judaísmo. Surgiu como um acervo de crenças religiosas, costumes, cultura e estilo de vida que formou a religião dos antigos hebreus, hoje chamados de judeus ou israelitas.

Dentre as ramificações judaicas, a exemplo dos seguidores intitulados caraítas, outros de samaritanos, supostamente descendentes de judeus da antiga Samaria, veremos o que essa religião apregoa sobre responsabilidade ambiental do ponto de vista dos rabínicos, considerado os mais tradicionais e que seguem o Tamulde. Essa obra, que significa aprendizado ou ensino, foi composta a partir de discussões e debates entre os antigos rabinos, registrados com o surgimento da cultura judaica na palestina. A base do Tamulde está nos ensinamentos apreendidos através da Torá, sagradas escrituras judaicas que se referem aos cinco livros de Moisés.

O princípio da sustentabilidade estava presente na cultura dos antigos hebreus, eles vivenciavam uma ética ecológica, viviam numa sociedade agrária e se dedicavam fielmente a preservação da natureza com responsabilidade para as futuras gerações. Eles cultivavam o conceito de que a natureza pertence a Deus e que os povos devem zelar e usar com sabedoria os recursos naturais. Um grão de arroz, uma folha de papel, um copo de água, devem ser tratados com sabedoria, isso reflete que o pensamento judaico sobre o não desperdício, mensagem básica do Tamulde que se aplica ao meio ambiente e demais áreas da vida, não é apenas uma questão econômica, se trata também de espiritualidade.

O jornalista premiado Larry Kahaner, autor do livro Valores, Prosperidade e o Tamulde, destaca que um judeu que observa rigorosamente as leis judaicas não joga fora um lápis quando a borracha da ponta está gasta, ele usa-o até o fim para evitar o desperdício. E também escreve dos dois lados de uma folha de papel porque, como o lápis, a fonte original desses materiais é uma árvore, recurso visto como preciosidade.

No antigo testamento, em Levítico 25.1-7, há o ensinamento de que Moisés recebeu a lei que determinava que a terra deveria descansar a cada seis anos. No sétimo ano, ninguém semearia nada, sendo um ano de descanso completo para a terra. E, através do planejamento, todos comeriam nos anos seguintes, sem falta de alimento algum. O doutor em Teologia, Marcial Maçaneiro sugere que o livro de Levítico, capítulo 25, pode ser lido como um projeto de sustentabilidade.

Contudo, a sociedade produtiva capitalista de hoje pode considerar como inadequada a ideia de deixar de plantar por um ano, após cada período de seis, pois isso fará desacelerar a economia e afetará os negócios. Mas, talvez não fosse necessário agir dessa forma, bastasse que todos os que usam a terra, tanto para criação de animais como para produção de grãos, seguissem à risca os planos de manejo, conforme a legislação ambiental. Essa, talvez seja a forma mais adequada de deixar a terra descansar, como nos tempos de Moisés, de maneira adequada aos dias atuais.

Kahaner mostra que os mestres talmúdicos, antigos rabinos, tinham uma grande preocupação com o meio ambiente, eles entendiam uma interconexão de tudo no mundo. Para os antigos hebreus havia um interesse em manter o meio ambiente sadio, pois isso tinha uma base econômica tanto quanto espiritual. O autor expõe vários preceitos que atestam essa atenção, desde a importância que eles davam a manutenção dos jardins nas cidades, o cuidado com o óleo no candeeiro para não desperdiçá-lo, até a proibição das chaminés nos ambientes urbanos por causa da fumaça. Os rabinos demonstravam interesse não apenas no caráter estético de uma localidade, mas também nos benefícios a saúde a ao meio ambiente natural, afirmam os estudiosos contemporâneos.

“Um curtume não deve se situar de tal modo que os ventos predominantes enviem seu desagradável odor para a cidade”, consta no Tamulde de Jerusalém, Bava Batra 2:19. Embora os antigos mestres judaicos não possuíssem conhecimento para realizar análises científicas como atualmente, os estudiosos acreditam que eles intuitivamente sabiam que, quando algo cheira mal, provavelmente não é bom para a saúde, conclui Kahaner. No próximo artigo, a visão do Cristianismo sobre o mundo natural.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br