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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

CARNE E ESPIRITUALIDADE
Artigo de Jair Donato

O antropocentrismo é uma visão que concebe o homem como superior ao animal e por isso passa como se fosse normal eles não terem o direito à vida e serem mortos ao bel prazer para alimentação. Mas, seria mesmo justo sacrificar a vida de um animal para alimentar uma pessoa, principalmente se a vida dessa pessoa não depende da vida do animal? A idéia do vegetarianismo mostra que devem coexistir, homem e animal. Desse ponto de vista, não é ético comer carne. O animal pode ser incapaz de pensar, mas, certamente ele é capaz de sofrer.

Na Índia, por milhares de anos, a alimentação vegetariana foi um princípio de saúde e de ética, que após a invasão muçulmana e a colonização católica na região, houve um triste desgaste nesses princípios, mesmo sendo parcial. Porém, ainda hoje a preferência dos indianos Hindus é o sistema ovolactovegetariano. Ao se referir a alimentação, Albert Einstein disse que “A ordem de vida vegetariana, por seus efeitos físicos, influenciará o temperamento dos homens de uma tal maneira que melhorará em muito o destino da humanidade”.

Tenho abordado a questão alimentar vegetariana, não apenas como uma dieta puramente saudável, porque a maneira como se cultiva vegetais atualmente, cheios de defensivos agrícolas, não é possível dizer que estejam isentos de substâncias nocivas, a exceção do que se consome organicamente cultivado. Mas, fundamentalmente, por não destruir o meio ambiente na mesma intensidade que a produção de carnes.

Sidharta Gautama, o iluminado da tribo dos Sakias e fundador do budismo na Índia, há cerca de 3000 anos, disse que “Feliz seria a terra se todos os seres estivessem unidos pelos laços da benevolência e só se alimentassem de alimentos puros, sem derrame de sangue. Os dourados grãos que nascem para todos dariam para alimentar e dar fartura ao mundo”. É preciso muita sensibilidade para entender a essência desta sábia mensagem.

Mas será que haveria grãos para todo mundo ou ocorreria um colapso se o mundo parasse de comer carne? Poderia ser mais fácil isso acontecer se ninguém mudasse. Hoje, o gado ao redor do mundo consome uma quantidade de alimento que equivale às necessidades calóricas de 8,7 bilhões de pessoas, número de seres humanos que a Terra atingirá até o ano de 2050, chegando aos 9 bilhões, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Somente o que é destinado para ração animal, cerca de 35% da produção mundial, eliminaria a fome dos países pouco desenvolvidos.

Em tempos de mudanças climáticas, alimentação vegetariana não é a solução, mas é uma boa ajuda na redução da emissão de gases poluentes na camada do efeito estufa, pois diminui o consumo de carne. Os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que a ONU apresenta ao mundo anualmente em 04 parciais, têm confirmado que o maior fator para as alterações no clima do planeta são consequências do uso exacerbado dos recursos naturais pelo homem. Portanto, o consumo consciente e seletivo na alimentação é uma maneira segura de poluir menos.

É antagônico, mas o homem consegue envenenar praticamente tudo o que é produzido para se alimentar, e ainda destrói a biodiversidade do planeta em que vive como se provocasse o próprio fim. Não seria essa uma forma de autopunição? E o dilema é que a humanidade ainda almeja um ideal tão esperado: a paz mundial.

Contudo, é impossível falar em paz no mundo sem concretizar o amor, o respeito e a ética aos seres vivos e ao meio ambiente. Um dos preceitos da constituição da UNESCO reza que é na mente do homem que a paz começa; que deve ser construída. Ou seja, a consciência é o início de tudo.  É hipocrisia o homem desejar a paz mundial e não cuidar do meio ambiente, dos hábitos cotidianos, e, amar a natureza e todas as formas de vida nela existente.

Disse São Basílio que “Os vapores das comidas com carne obscurecem o espírito. Dificilmente pode-se ter virtude ao se desfrutar de comidas e festas em que haja carne”. É uma expressão profunda, mas o ser humano talvez ainda não tenha o despertar ético e moral como base da espiritualidade ao ponto de apreendê-la. Contudo, ainda é tempo, inclusive de rever o que se come.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A MORTE NO MERCADO
 Artigo de Jair Donato

Não se pode confiar nos motivos conscientes para explicar o comportamento humano. Ou seja, o comportamento nunca é determinado apenas por forças externas, é que afirma o renomado psiquiatra Karl Menninger, expoente da corrente psicossomática, na obra “O homem contra si próprio”. Segundo ele, há impulsos de dentro, cujo ajustamento à realidade externa cria pressões e tensões que podem ser muito dolorosas, embora toleráveis para muitos, enquanto para outros esses impulsos se transformam em tendências suicidas.

Ao abordar sobre a tendência suicida do ser humano, elucidada por Freud, na psicanálise, dr. Menninger aborda claramente sobre a ideia de que a pessoa inexoravelmente para os próprios propósitos inconscientes, encontra na realidade uma aparente justificativa para a autodestruição. Elas de algum modo levam a si mesmas a destruírem-se. Isso pode ser desde um vício que perdura, pequenos acidentes e até doenças. São impulsos autodestrutivos que permeiam no decorrer da vida.

Existe uma passagem de que havia na antiguidade em Bagdá um renomado e próspero comerciante de tapetes persas. Ele tinha uma loja tradicional e importante na cidade, permeada por muitos servos que cuidavam do pesado trabalho do transporte e da exibição de raros e enormes tapetes orientais. O comércio possuía também profissionais especializados em incontáveis técnicas da tapeçaria, que conferiam excelência, raridade e valia das diversificadas peças.

Certa ocasião, um dos servidores daquele comerciante, que além de competente profissional, tornara-se amigo íntimo de patrão, pediu permissão para que fosse ao mercado encontrar-se com um renomado comerciante que trazia da Pérsia grande quantidade de tapetes para serem colocados à venda. Recebeu autorização e seguiu numa agradável tarde de sol iraquiano. Mas, de repente aquele servo voltou apressadamente do mercado, pálido, ofegante e amedrontado. Ele chamou o patrão, e assombrado lhe disse que havia esbarrado com a morte na praça do mercado e fora ameaçado por ela. Por isso desejava fugir o mais depressa possível para Samarra, uma cidade vizinha, onde certamente ela não o encontraria. Ele pressentiu que não poderia ficar ali, pois aquela figura estranha poderia vir atrás dele. Então, ao fugir ele ficaria protegido.

Diante do desespero naquele pedido, o senhor deixou-o ir. Entretanto, bastante impressionado com o que havia lhe contado o amigo servo, a curiosidade sobre o assunto fez com que ele se dirigisse a praça do mercado para conferir aquilo que acabara de ouvir. Ao chegar lá de longe avistou a morte em frente a uma das portas do recinto. Encheu-se de coragem e dela se aproximou. Perguntou-lhe porque ameaçara o servo dele. Ao que a ela respondeu: - Não senhor, não fora uma ameaça. Meu olhar foi um gesto de grande surpresa por ver aqui em Bagdá o homem com quem tenho um encontro marcado nesta noite lá em Samarra.

São diversos os casos retratados que fazem lembrar esse conto. São inconvenientes, pequenos incidentes do cotidiano ou fatos constrangedores a que a própria pessoa acaba se expondo como numa espécie de atração inconsciente. Até mesmo um acidente ou a mutilação do corpo pode ocorrer por motivos que não são conhecidos pelo indivíduo no âmbito do consciente.

Há situações em que as pessoas sem perceberam sabotam a si, seja a carreira profissional, a vida financeira, o relacionamento amoroso, as amizades e até colocam em risco a integridade física. E como posição de defesa, por vezes escolhem a fuga. Mas dificilmente fogem do próprio script, da história que se desenrola antes, por dentro de cada um. Então, conhecer-se melhor pode ser mais proveitoso. Afinal, você sabe quais são seus medos?


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 4 de novembro de 2014

TRAMA E URDIDURA
Artigo de Jair Donato 

Nos princípios da tecelagem artesanal dois termos eram muito utilizados, embora em desuso após a fiação industrial, são ricos em analogia com a vida humana. São eles, a trama e a urdidura. Para quem possui a habilidade com a arte do tear na confecção de peças como vestimentas, acessórios, cortinas, redes, cobertores e tapeçarias sabe lidar com uma infinidade decorativa de beleza ímpar.

Essas duas estruturas são essenciais. A urdidura é o conjunto de fios do mesmo tamanho posicionados longitudinalmente ao longo do tear. E a trama é formada pelas linhas dispostas transversalmente que transitam com liberdade por entre os fios da urdidura através de uma agulha, formando o tecido de forma simples ou com belas gravuras conforme a criatividade de tecelão.

A urdidura fica numa posição fixa como base para que se estabeleça a criatividade da trama que delineia no horizonte, caracterizando desenhos concebidos pelo artesão. Paisagens, aves, nuvens, riachos, estações, gravuras, figuras humanas, tudo é possível quando a trama é lançada perpassando as trilhas da urdidura. Não há limites no mundo das formas quando há convergência entre a uma e outra. A trama é o fio que corre por cima e por baixo, sempre entre o conjunto de fios de urdidura. Ela percorre as mais variadas posições para formar o tecido.

Assim é a vida do homem. Analogamente, a urdidura representa o potencial humano, essencialmente o que ele é desde o nascimento. Todos nascem com uma força potencial imutável. Isso também é denominado de capacidade latente ou limiar intrínseco. Pode ser comparado à força vertical que faz fluir a vida, que mantêm as células vivas e o equilíbrio do organismo para que ele não pereça. Contudo, o destino de cada um no tear da vida, assim como a trama, toma diferentes rumos. E delineia os mais diversos comportamentos através da “agulha” denominada atitude.

A trama individual, ou seja, a atitude de cada indivíduo através do potencial que possui por natureza, poderá produzir resultados inusitáveis. A trama equipara-se a competência que pode ser desenvolvida para produzir obras primas como os inventores, pintores, músicos, artistas em geral, industriários e futuristas fazem. Já a urdidura representa à fonte, o fôlego da criação, aquilo que sustenta.

Parece que a trama tece labirintos formidáveis por si só. Mas, ela depende da urdidura, que necessita de uma postura rígida, posição firme, que atua como princípio básico. Da mesma forma, embora as pessoas pareçam construir proezas por si mesmas, elas nada seriam se não fossem providas pela força latente comum a todos. Força essa que se renova continuamente e potencializa as competências. Trama e urdidura juntas se convergem e geram sinergia. E qual é a lição? Ninguém constrói nada sozinho. Pois há uma interdependência no tear da vida. Esse movimento nas ações coletivas se resulta no trabalho em equipe.

O fio da urdidura é mais fino do que a trama. Assim como o potencial humano, que é mais rarefeito do que a competência expressa. A urdidura pode comparar-se ao mundo das ideias, enquanto a trama equipara-se ao mundo do projeto materializado, ao destino do homem. Se a urdidura frouxar ou deslocar-se, desaparece a beleza da trama que sozinha nada constrói. Assim também será o indivíduo quando perde a vitalidade, a trama dele, ou seja, os feitos deixam de ser produzidos e chegará ao fim.

Cada ser humano conduzirá a trama do próprio destino conforme os valores que possui. Em essência, a verticalização da urdidura representa o grau de consciência em cada momento de escolha. Então, como está a gestão no tear da sua vida?


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br
PEQUENA NEGOCIADORA
Artigo de Jair Donato

Crianças possuem uma habilidade natural para negociar. Certa vez, aprendi uma lição imperdível sobre negociação com minha sobrinha. Este é um tema que lido com ele em sala de aula e com equipes de profissionais. Tenho aprendido ainda lições valiosas ensinadas por gurus da negociação reconhecidos internacionalmente, como William Ury, Roger Ficher e Herb Cohen, dentre outros. Mas foi Amanda, minha sobrinha, quando tinha sete anos, que me deu um show de reflexão sobre negociação. Ela mora distante e numa ocasião eu a prometi que quando retornasse a minha casa, nas férias, eu a levaria ao aeroporto, local em que ela aprecia ver o pouso e a decolagem das aeronaves. Como o combinado não sai caro, ficamos acertados.

Enfim, chegou a temporada em que ela regressou. Passados alguns dias com idas em vários lugares, eis que faltavam dois dias para ela ir embora e eu ainda não havia cumprido a promessa. O tempo estava curto e resolvi chama-la para fecharmos um acordo. Era um sábado e ela iria embora na segunda-feira cedo. Eu teria ainda que levar a família ao shopping center naquela tarde, outro local que ela adora. Então eu queria fazer tudo em um único dia, e não daria tempo para ir também ao aeroporto. Sabia da esperteza dela, mas considerava-me preparado para propor uma negociação de forma que resolvesse tudo em um único dia. Afinal era uma criança com pouca idade, seria bem fácil convencê-la, foi o que achei. Penso que muitos pais cujos filhos estão nessa idade devem saber que não é tão fácil assim.

Dei início às propostas. Como eu sabia que ela também gostava muito de passear no shopping, resolvi oferecer essa opção no lugar da ida ao aeroporto. E procurei argumentar conforme um negociador deve agir, ou seja, colocar opções para que o cliente decida. Estava indo tudo conforme havia planejado. Disse a ela que embora houvesse prometido, teríamos de ir ao shopping, então coloquei a decisão nas mãos dela, um local ou outro. Havia aprendido que ao fazer uma proposta é importante oferecer mais de uma alternativa para o cliente, em fiz isso ao dar a ela a possibilidade de escolha entre o shopping e o aeroporto. Aonde ela escolhesse ir eu a levaria, só que teria que ser um único lugar. Dessa forma protelava o que houvera prometido.

Aprendi também que a decisão final deve ser sempre do cliente. Agi de tal maneira que deixei que ela escolhesse o que fosse melhor. Outra lição importante que aumenta o poder numa negociação é obter o maior número possível de “sim” da outra parte, isso aumenta a chance de fechar o acordo. Então perguntei a ela se ela gostava das escadarias do shopping, do elevador, do parquinho, e ela afirmava positivamente. Estava tudo tranquilo quanto ao meu poder de convencimento, pensei.

Contudo, embora me cercasse das maneiras possíveis para que o acordo fosse fechado conforme eu idealizara, eis que Amanda, a pequena negociadora, me surpreendeu de vez. Foi quando me deparei com a estratégica dela dando-me uma grande lição assim como os exímios negociadores fazem. Ela ao invés de agir impulsivamente e escolher logo uma das opções que eu havia oferecido, como a maioria das pessoas tende a fazer mediante uma proposta, parou, refletiu e baixou a cabeça por um instante. São poucos segundos, mas parece uma espécie de tortura quando você propõe e o cliente para por algum tempo antes de responder. Percebi que ela estava tramando algo, nesse momento senti que eu poderia não ter formulado uma boa proposta. Logo em seguida, ela olhou nos meus olhos e lançou entusiasticamente a contraproposta: “Tio, e o que vamos fazer amanhã, no domingo?” Perdi, por essa eu não esperava, pois tinha confabulado para que as andanças fossem todas no sábado, e ela pensou no tempo restante, contra argumentou e adivinha o que aconteceu? Tive que cumprir a minha promessa. Nem contei a ela que eu ministro aulas de negociação, pois nessa eu fui o aprendiz. Crianças propõem de maneira audaciosa, sem medo ou bloqueios. Isso é fundamental numa negociação. Fiquei mais atento.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 21 de outubro de 2014

PRINCÍPIOS DE UMA SOCIEDADE SUSTENTÁVEL
Artigo de Jair Donato

O respeito, os cuidados com a comunidade dos seres vivos e a melhoria da qualidade de vida do ser humano são os dois preceitos iniciais, dentre os nove princípios para se tornar uma sociedade sustentável. Eles constam no relatório “Cuidando do planeta Terra”, publicado na década de 1990. O intento é que esses valores possam ser observados na produção e no consumo do século XXI. Afinal, quem está em risco é o próprio homem se ele não se cuidar.

Permanecer nos limites da capacidade de suporte da Terra é outro princípio. Cálculos mostram que mais pessoas nasceram no século XX do que em todo o resto da história da humanidade. Desde a revolução industrial, a população na Terra aumentou cerca de oito vezes. Na década de 1950, eram pouco mais de 2,5 bilhões. E, segundo a previsão da Organização das Nações Unidas, chegará o ano de 2050 com 9 bilhões de pessoas. Isso pode ser sinônimo de desequilíbrio se a forma de considerar os recursos naturais e o desenvolvimento sócio-econômico continuarem no paradigma da exploração.

Modificar atitudes e práticas pessoais é o princípio seguinte. Talvez, o mais significante, pois se trata de responsabilidade individual de cada um. Certa vez, James Lovelock, renomado cientista, um dos mais influentes do século XX, que criou a teoria de Gaia, num evento em Oxford, se levantou e repreendeu Madre Teresa por pedir à platéia que cuidasse dos pobres e "deixasse que Deus tomasse conta da Terra".

Como Lovelock explicou a ela, "se nós, as pessoas, não respeitarmos a Terra e não tomarmos conta dela, podemos ter certeza de que ela, no papel de Gaia, vai tomar conta de nós e, se necessário for, vai nos eliminar". Ele quis dizer que o homem deve cuidar da própria casa, preservar o ambiente em que vive, afinal, ele é o morador. Lovelock, pela visão espiritualista que possui, assim como desenvolveu a teoria de que a Terra é um organismo vivo, entende também de que Deus está em cada um dos homens e não como uma entidade à parte, fiscalizadora. A raça humana está em perigo real e imediato, diz Lovelock.

Dentre os demais princípios para uma sociedade sustentável estão os de minimizar o esgotamento de recursos não renováveis, permitir que as comunidades cuidem de próprio meio ambiente, gerar uma estrutura nacional para a integração de desenvolvimento e conservação. Por fim, construir uma aliança global.

O doutor em ciências ambientais, Geraldo Rohde, classifica quatro fatores que tornam a civilização contemporânea claramente insustentável em médio e em longo prazo. A começar pelo crescimento populacional acelerado, seguida pela depleção da base de recursos naturais. Acompanhados pelos sistemas produtivos que ainda utilizam tecnologias poluentes e de baixa eficácia energética. E, por fim o sistema de valores que propicia a expansão ilimitada do consumo material.

Segundo físico austríaco Fritjof Capra, a crise ecológica é uma situação complexa, multidimensional, cujas facetas afetam todos os aspectos da vida humana. Percebe-se que essa é uma questão global que envolve governantes, fabricantes, produtores, prestadores de serviços e consumidores. Depende do desempenho em rede com foco contínuo nos aspectos ambientais. Segundo a organização The Word wide fund nature, uma sociedade mundial sustentável só surgirá quando o estilo de vida do homem e a população global não excederem a capacidade de suporte da Terra. Afinal, cuidar do estilo de vida e extrapolar os limites de uma visão míope pode ser a via para tirar o ser humano da corda bamba.


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 14 de outubro de 2014

CONSUMO E ATITUDE
Artigo de Jair Donato*

No final do século XIX, um dos traços distintivos do ser humano era a capacidade de consciência e raciocínio. Surgia ali o pressuposto que consiste no conceito de que o homem poderia ser distinguido pela capacidade de raciocínio, de solução lógica de problemas e de flexibilidade na busca de opções e de soluções. Atualmente, as teorias que utilizam pressupostos racionais são amplamente aplicadas no estudo de consumidores e nas empresas.

Foi a partir de estudos de grupos de consumidores que surgiram várias teorias sobre o comportamento no consumo. As teorias racionais consideram os afetos humanos secundários, os quais só controlariam pessoas com problemas. Assim a grande massa dos consumidores teria consciência de seu comportamento e a controlaria. Surgiu também a teoria econômica com a visão de que o consumo é ditado por escolhas racionais sobre as disponibilidades dos produtos e dos recursos necessários para obtê-los. Será mesmo assim que age todo consumidor nessa era mercantilista?

Já os criadores das teorias psicodinâmicas motivacionais, comentadas e utilizadas no marketing, fundamentam que o comportamento pode ser entendido no jogo das emoções e dos afetos que fluem nos sujeitos, deixando o racional em segundo plano. É infindável a quantidade de produtos anunciados como propiciadores de satisfação dos mais variados desejos, não objetivamente relacionados ao funcionamento ou utilidade lógica.

Para os motivacionais, o consumismo é largamente praticado por meros impulsos. Segundo o criador da Psicanálise, Sigmund Freud, as pessoas não conhecem os verdadeiros desejos, pois muitos deles não são conscientes. Assim, o comportamento de consumo seria uma das formas de satisfação dos desejos inconscientes. Trata-se de um jogo unilateral, de mão única. E essa certamente é uma causa cujos efeitos poluem o planeta.

A humanidade precisa tomar consciência de que toda a concentração gás carbônico, metano e demais gases vilões na atmosfera se deve em grande parte ao consumo demasiado. Tudo se inicia pela alta produção industrial que ultrapassa o senso da necessidade. Seguido do consumo da energia fóssil que ainda existe, e a destruição do verde em face de um crescimento desigual unilateral, assim como demais práticas do consumismo coletivo irracional.

O homem ainda não entendeu sobre a importância de uma convivência bilateral com o meio ambiente. Age como se não fosse parte da natureza e a trata como elemento periférico. A mesma natureza que se revolta e se torna agora impiedosa, pela lei da ação e reação. Afinal, se trata da destruição de um organismo vivo, além de complexo.

A tendência mundial mostra que o mais adequado é uma sincronia do consumo com a motivação, a necessidade, a renda, a avaliação e o desejo. É comprar com consciência e racionalidade para se tornar sustentável e contribuir para maior produção e uso ecologicamente corretos. Cada um deve pensar mais sobre o meio em que vive, sobre os outros que estão à volta de si, assim como nas próprias gerações futuras, tanto quanto em si mesmo. O uso racional e o ressignificar desse uso podem ser a chave para o equilíbrio da capacidade de consciência e raciocínio.


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 7 de outubro de 2014

ÉTICA E CONSUMO DE CARNE
Artigo de Jair Donato*

Você consegue reduzir a quantidade no seu consumo de carne? Você pode pensar nisso sem fundamentalismo. Afinal, o Brasil possui a cultura habitual da carne nas refeições, é o país do churrasco e do petisco. Gostaria apenas de incitar uma reflexão aos consumidores dessa opção alimentar sobre duas maneiras de olhar o mundo e os impactos que o homem provoca nele. A primeira, capitalista, por ser uma visão míope e devastadora, impede de ver que os recursos naturais são destruídos em curto prazo, como se não houvesse futuro. A segunda visão, essa merece uma reflexão mais profunda, é em longo prazo, onde se percebe que o resultado da primeira, na maior parte das vezes, é irreversível.

É fato que as atividades humanas, principalmente no século XX, foram responsáveis pelas alterações do clima no planeta, e provocam o superaquecimento da Terra. Segundo estudos publicados pelo Órgão das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a comida atual da humanidade, à base de carne, se tornou uma das grandes fontes depreciativas e poluidoras do meio ambiente.

Todo o processo de produção e consumo da carne de boi, peixe, frango ou porco, dentre outras, é responsável pela poluição do ar, do solo e da água, quando aplicado sem respeito ao meio ambiente. Os animais são grandes emissores de gases poluentes, além das áreas de recursos naturais que são devastadas para criá-los. Mesmo com as adaptações adequadas do manejo no confinamento para criação de animais, com as devidas certificações e selos conferindo a origem da produção, ainda não é suficiente dizer que seja sustentavelmente correto.

O agravante maior está no consumo exacerbado, alimento do mercantilismo. Isso sem tocar no impacto na saúde, que merece outra pauta, devido o alto índice de aditivos químicos como os aplicados no frango, por exemplo. Ou você acha que se alimenta de uma carne realmente saudável? O interesse na produção capitalista não é atender a quem de verdade precisa, e sim o aumento do lucro. Todo o investimento em tecnologia ocorre para gerar mais lucro, não para atender a demanda da fome, por exemplo. É inegável que maior parte do crescimento da criação bovina no Brasil se deu até agora à custa da destruição das florestas.

Além de poucas vantagens coletivas na atividade bovina, é um péssimo empregador. Poucos cuidam de milhares de cabeças de gado, altamente lucrativas para um segmento, e prejuízo para a natureza. Milhões de m2 da Floresta Amazônica ainda são derrubados para plantio de grãos, seguido da criação de pasto. Segundo levantamento do Ministério da Agricultura, a previsão é de 8 milhões de toneladas de carne só para 2014.

No Brasil, segundo dados do IBGE, o número de cabeças de gado ultrapassa o número da população. Quase 70% da pecuária é representada por bovinos, a maioria para corte, outra parte, para leite. Foi estimada uma emissão em mais de 9 milhões de toneladas de metano, gás liberado pelos animais, que polui até 21 vezes mais do que o gás carbônico, provenientes da pecuária. Quase metade das terras propícias para agricultura, no planeta, já virou pasto. Cerca de 40% de todos os grãos produzidos mundialmente são destinados à ração bovina, quantia que supriria a fome nos países pouco desenvolvidos, carentes de alimentos.

Atualmente, a questão ética se passa por parte do consumidor não está em apenas em adquirir produtos ecologicamente corretos. Ambientalistas, ecologistas e climatólogos apontam a importância do consumo consciente na alimentação à base de carne, como forma de poluir e degradar menos. A redução na quantidade é uma estratégia inteligente.

Mato Grosso, econômica e politicamente, tem títulos internacionais como maior parque pecuário do País e grande produtor de grãos. Na primeira visão, a do velho paradigma de ganho, isso pode ser sinônimo de riqueza e desenvolvimento. Mas, para quem? Para quantos? Por quanto tempo? Pense no impacto dos próximos anos, com advir das próximas gerações, se não houver uma mudança ética nos hábitos alimentares. Sem radicalismos, mas isso merece um repensar individual e coletivo. Mais que uma questão de saúde, essa é uma questão de educação, sua e das próximas gerações. Então, sua visão é em curto ou em longo prazo?


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 30 de setembro de 2014

LIDERANÇA SUSTENTÁVEL
Artigo de Jair Donato*

Será possível desenvolver nas lideranças a percepção de sustentabilidade autêntica e espontânea dentro das organizações, como um valor que esteja além da promoção de imagem? Este não é um aspecto fácil, em função do paradigma econômico que permeia a cultura mercantilista, mais arraigadamente no último século, o da revolução industrial, em que para alguém ganhar, outro terá que perder. Há quem entenda por liderança, a capacidade de influência pelo poder formal. Isso também ocorre. Mas, se dá principalmente pela atitude advinda do poder pessoal ou informal, também denominado de “autoridade”, segundo o escritor James Hunter.

E, por sustentabilidade, entende-se a dimensão da ecologia, que se trata da qualidade do meio ambiente, preservação e conservação dos recursos naturais.  Seguido do aspecto social, uma equidade com respeito aos valores culturais. E por fim, a dimensão econômica, responsável pelo aspecto rentabilidade. O respeito a essas condições significa uma considerável redução de riscos e de certificação da capacidade de agregar valor em médio e longo prazo. Essa deve ser a maior competência de um líder para agregar organizacional nas relações com o mercado e com a qualidade de vida no planeta. E você, se encaixa nesse perfil?

Sabe-se que o maior desafio do mundo atual, e mais do que isso, a única chance de sobrevivência de qualquer organização tanto hoje como no futuro, é se tornar sustentável. Contudo, o maior entrave para que os líderes se adaptem a tendência da sustentabilidade é a mudança de paradigma. Seja na política, no mundo dos negócios, na economia, tudo precisa ser diferente. Mudar um paradigma, fundamentalmente é o fazer as coisas de modo diferente. Daqui por diante nenhum negócio se perpetuará nos moldes antigos de ganhar dinheiro sem aplicar os princípios da sustentabilidade, que são a relação com a o meio sociocultural, ambiental e econômico.

Diz o ambientalista americano Al Gore, que é difícil uma pessoa compreender uma situação quando o salário dela depende em não compreendê-la. Muita gente durante décadas se sustentou desestruturando o meio social e explorando os recursos naturais. Esse é uma velha faceta da economia em que necessita mudança. Nessa relação perdeu muito a natureza em função da alta produção em prol da autorrealização de poucos, uma relação sem equidade.

Será preciso que seja revista a visão dos modelos hierárquicos na liderança. A troca do desenho vertical, típico da Era da industrialização, aonde prevalecia o velho ditame “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, pelos modelos horizontais, com empoderamento nas bases que lideram. Ainda prevalece fortemente nas estruturas de poder o ápice dos chefes e da mão-de-obra, como grande entrave no desenvolvimento de uma consciência sustentável.

É nas lideranças que o fomento dos pilares sustentáveis podem se concretizar, desde que os líderes sejam educados dentro do paradigma ecoeconômico,  com fundamentos justos social e culturalmente, através das frentes de trabalho e das políticas púbicas que visem o crescimento das pessoas, a produção e a disponibilização de bens e serviços com respeito ao meio ambiente, agora e com garantias para as gerações futuras.  A única via transformadora que pode provocar essa mudança de paradigma denomina-se educação, é o que muda o ser humano.

Qualquer estratégia de negócio que não estiver alinhada com o desenvolvimento sustentável comprometerá os resultados e o tempo de vida da própria organização. Por fim, que o bom líder esteja atento, pois o que caracteriza o valor sustentável dele no mercado é o cuidado que tiver em cada decisão que tomar, principalmente ao saber avaliar os impactos ecológicos. O líder precisa antes de tudo se tornar um educador, replicar movimentos que agregam valor para as gerações contemporâneas sem prejudicar as futuras.

*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

EXPECTATIVA E FRUSTRAÇÃO
Artigo de Jair Donato* 

Por que muita gente espera do outro aquilo que ela mesma talvez nunca possa oferecer? Lidar com as expectativas é uma habilidade e quem não a possui pode gerar doenças. A pessoa que espera muito do outro ou faz o que ele não pediu, pode criar uma expectativa que posteriormente não corresponderá ao esperado, e com isso pode frustrar-se e somatizar algum tipo de patologia.

O indivíduo desenvolve a tendência de traduzir o mundo externo conforme os moldes internos que possui, e por vezes enclausurar-se nesse próprio universo. Dessa maneira ignora todas as incongruências adjacentes em si, no outro e no ambiente ao redor dele. Pois nem sempre o mapa é o território. Ou seja, parte do que forma a realidade de um indivíduo não é sedimentada em fatos, e sim nas próprias interpretações, percepções internas.

O filósofo Michel Foucault define que o indivíduo nunca está diante de um objeto real concreto, e sim de um objeto real de conhecimento, algo construído por ele mesmo. O próprio contexto cultural, ambiental e familiar é propício para formação dessa construção.

O descontentamento poderá surgir quando se espera ou exige demais dos outros, a exemplo da mãe que espera que os filhos realizem os desejos que são dela, e não deles. É o exemplo do pai ou da mãe que praticamente obriga os filhos a cursarem na universidade o curso que tem haver com a frustração dos próprios pais, e não com a realização dos filhos. Ou então, a esposa que espera que o marido seja o modelo ideal que ela mesma criou, e têm dificuldades de aceita-lo como ele é. Isso se traduz numa falta de respeito à individualidade do outro, quando se espera que ele aja conforme o que o indivíduo espera ou acha que seja certo.

Então, é importante compreender a posição do outro na vida, mesmo que ele seja seu parceiro por uma vida inteira. Evitar moldar o comportamento dele para não contrariar o seu pode ser a forma certeira de evitar o afastamento e a perda de afinidades, devido à pressão e sufoco provocados. Afinal, cada pessoa tem um canal de percepção sensorial que se distingue conforme a cultura, o meio em que vive, a linguagem que lhe é comum e às crenças que possui. Essa diversidade merece respeito.

A enfermeira australiana Bronnie Ware, após convivência durante anos com doentes terminais, publicou em um livro os cinco maiores arrependimentos que as pessoas têm antes da hora da morte. E o primeiro deles se refere a frustração de não ter  aproveitado a vida do jeito delas, e sim da forma que os outros queriam. Isso é frustrante. Segundo a autora, é na hora que a vida chega ao fim que fica mais fácil perceber quantos sonhos foram deixados para trás, em prol de agradar mais aos outros do que a si mesmo.

Quantas mães fizeram sacrifícios pelos filhos, esposas que fizeram tanto pelos maridos, e vice-versa, um amigo que fez o máximo pelo outro. Mas, será mesmo que eles pediram isso? No entanto, foi colocado um tempo nisso. Então, no fim da vida, é como se a pessoa que se dedicou tanto pensando em agradar, cobrasse pelo que fez, numa espécie de acerto de contas. Daí surge a frustração, o descontentamento e até mesmo a mágoa. “Fiz tanto por você e isso é o que recebo de volta?”, esse é um típico comentário que retrata tal fato. Talvez, não haja declaração mais frustrante do que o arrependimento pelo que poderia ter sido feito antes. E você, o que ainda não fez por você, mas que poderia?


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br
MILHO BOM
Artigo de Jair Donato* 


A nova teoria ecoeconômica diz que o verdadeiro ganho daqui para frente depende da bilateralidade. Ou seja, se apenas um lado se sair bem, então essa será uma relação em que não há sustentabilidade. O atual contexto da história socioambiental exige que o homem repense todas as formas de exploração dos recursos naturais e passe a agir com mais responsabilidade na geração de valores que sejam sustentáveis. Dessa maneira tudo o que estiver ao redor dele também terá ganho.

Tenho em mente uma história que ilustra bem esse fato. É sobre o fazendeiro que venceu o prêmio "milho-crescido". Todo ano ele concorria com o milho na feira e ganhava o maior prêmio. Uma vez o repórter de um jornal o entrevistou e aprendeu algo interessante sobre como ele cultivou o milho. Descobriu que o fazendeiro compartilhava a semente do milho premiado com os vizinhos, na redondeza.

- Como pode você se dispor a compartilhar sua melhor semente de milho com seus vizinhos quando eles estão competindo com o seu em cada ano? Perguntou o repórter.
- Por quê? Você não sabe? Complementou o fazendeiro. O vento apanha pólen do milho maduro e o leva através do vento de campo para campo. Se meus vizinhos cultivarem milho inferior, a polinização degradará continuamente a qualidade do meu milho. Se eu for cultivar milho bom, eu tenho que ajudar meus vizinhos a cultivar milho bom.

Aquele fazendeiro estava atento às conectividades da vida. O milho dele não poderia melhorar a menos que o milho do vizinho também melhorasse. Isso ocorre, invariavelmente, nas demais áreas da vida, seja na economia, no meio social e no contexto ambiental.

Aqueles que querem viver bem têm que ajudar os outros para que vivam bem. A parceria é o meio de propiciar o próprio crescimento, sem afetar aos demais. Para saber se o milho que você cultiva é bom e competitivo, veja se trata de algo que agrega valor a si e à sociedade. E aqueles que querem melhor qualidade de vida, produção contínua, têm que ajudar os outros a terem melhoria, pois o bem-estar de cada um está ligado ao bem-estar de todos.

Essa lição serve para cada um de nós. Se você for cultivar milho bom, será necessário que ajude seus vizinhos a cultivar milho de qualidade. Isso não significa plantar e nem colher por eles, é apenas não prejudica-los, nem promover o atraso deles. Será dessa maneira que o conceito de sustentabilidade do planeta pode se tornar um fato que contribuirá para o bem coletivo. O benefício paralelo ao social e a economia só advirá caso o meio ambiente seja cuidado e conservado. E vice-versa.

A atual situação do planeta exige mudança imediata nas políticas pública e privada, e principalmente, nos hábitos e no estilo de vida de cada habitante. Afinal, esperamos que os que daqui por diante nascerem, e não serão poucos, tenham qualidade de vida e o direito de viverem de maneira produtiva.

Todos os dias você planta ações como se fosse o milho. Então, como está a qualidade do seu milho? Que tipos de sementes estão sendo levadas através das suas atitudes e jogadas nos campos da consciência das pessoas à sua volta. É necessário que os bons exemplos sejam polinizados em larga escala, pois as alterações no clima mostram que estamos em época de cuidar do que plantamos para não colher o que não queremos.


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 26 de agosto de 2014

QUAL É O SENTIDO DA VIDA?
Artigo de Jair Donato*

O que será que mais conta na vida, o fato ou a interpretação sobre os fenômenos que nela que ocorre? Afinal, interpretar é sempre interpretar. E o homem faz isso segundo aquilo em que ele crê, o que nem sempre coaduna com os fatos que lhe sucedem. Segundo o filósofo Michel Foucault, no contexto social, o indivíduo nunca está diante de um objeto real concreto, e sim de um objeto real de conhecimento, algo construído.

Há uma reflexão contida numa passagem apresentada pelo escritor Hugo P. Homem sobre as sandálias de um discípulo que ressoavam surdamente nos degraus de pedra que o conduzia aos porões de um antigo mosteiro. Ao empurrar a pesada porta de madeira que cerrava os aposentos do ancião que lá morava, ele custou a localizá-lo na densa penumbra. Mas, lá encontrou o velho mestre com o rosto velado por um capuz, sentado atrás de uma escrivaninha, onde, apesar de escuro o ambiente, fazia anotações num grande livro, também muito velho.

Então, o discípulo avidamente assim interpelou o mestre: Qual é o sentido da vida? Ao que o velho monge, permanecendo em silêncio, apenas apontou um pedaço de pano, um trapo grosseiro que estava no chão junto à parede. Em seguida, com o dedo indicador mostrou, no alto do aposento, o vidro da janela, opaco sob décadas de poeira e teias de aranha.

O discípulo rapidamente foi até o local apontado, pegou o pano e subiu em algumas prateleiras de uma pesada estante forrada de livros. Conseguiu alcançar a vidraça e começou então a esfregá-la com vigor, retirando a sujeira que impedia a transparência. Logo o sol inundou o aposento e iluminou os objetos ali dispostos, instrumentos raros, dezenas de papiros e pergaminhos com misteriosas anotações e signos cabalísticos.

O discípulo, sem caber em si de contentamento, com fisionomia que denotava o brilho da satisfação, declarou ao mestre que havia entendido naquele momento a lição. E então expressou que devemos nos livrar de tudo que atrapalha nosso aprendizado. E também retirarmos o pó dos preconceitos e as teias das opiniões que nos impedem receber a luz do conhecimento e então enxergaremos a verdade, com mais nitidez. O jovem discípulo fez então uma reverência, e deixou o aposento, sentindo-se iluminado, a fim de compartilhar com os outros a lição recém-aprendida naquele âmbito espirituoso.

Então, o pacífico mestre ainda com o rosto encoberto pelo largo capuz, sendo invadido pelos raios de sol da manhã que banhava-o com uma claridade a que se desacostumara, olhou o discípulo se afastando. Deixou escapar um tênue sorriso e pensou: “Mais importante do que aquilo que alguém mostra é o que o outro enxerga”. E disse baixinho para si mesmo: “Eu só queria que ele colocasse o pano no lugar de onde caiu”.

E você caro leitor, que leitura tem feito sobre os eventos que ocorrem ao seu redor, no convívio com as pessoas e diante dos fatos que ocorrem no cotidiano? Como tem lidado com as responsabilidades que lhe são mostradas? Talvez um eventual conselho dado pelo velho monge do mosteiro não ajudasse tanto aquele discípulo como a própria compreensão que ele teve a partir de uma construção interna que propiciou a si mesmo. O teólogo Leonardo Boff expressou que cada um lê com os olhos que têm e interpreta a partir de onde os pés pisam. Há quem espera receber respostas prontas na vida. Mas, há quem as encontra a partir da realidade construída mediante cada momento vivenciado. Tudo pode ser uma questão de sensibilidade.


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A FEBRE DO COACHING
Artigo de Jair Donato* 

Na década de 1990 houve uma leva de gente embrenhada numa ferramenta que virou modismo no Brasil, a Programação Neurolinguística, popularmente conhecida como PNL. As pessoas tratavam essa ferramenta, que propicia a excelência na comunicação, como se fosse receita de bolo e achavam uma pomposidade afirmarem que tinham cursos e trabalhavam com PNL. De fato, como outras modalidades, é uma ferramenta que produz resultados, mas que não se torna útil nos domínios de aventureiros. O que restou depois da febre? Hoje, somente os profissionais sérios, que não a encaravam como modismo, continuam na área.

Recentemente “bombou” outra modinha que muita gente imaturamente se apressa em mostrar os certificados de curto prazo e alterar as nomenclaturas funcionais com autodenominação de “coach”, o profissional que aplica o processo coaching. Há gente que baniu todos os títulos profissionais de até então, e simplesmente intitulou-se “coach”. Mais uma vez, outra ferramenta séria e que produz resultados práticos, está sendo encarada como se fosse receita de bolo. Muitos encaram a atividade como se fosse daquele tipo de raizeiro que ao oferecer uma garrafada, afirma ser boa para todos os males. É incrível a capacidade do ser humano de se fascinar, alienar-se.

Conheço o coaching desde o início dos anos 2000, época em que muita gente sequer interessava pelo assunto, outro tanto nem o conhecia. Trabalho na área de gestão de pessoas há quase duas décadas, sei da eficácia dessa ferramenta quando aplicada coerentemente, que se trata de uma prática de ajuda às pessoas a atingirem resultados, mais sei também dos limites dela. É uma pena que há quem após um curso de breves módulos, inebria o ego com uma certificação internacional, e opta por intitular-se “profissional coach”, o que não é uma profissão, e acaba por queimar a imagem de muitos que levam a sério a habilidade de desenvolver pessoas, otimizar resultados nas equipes e potencializar o tempo. Virou comércio, pois a oferta desses cursos prontos é enorme, preços altos, cujo foco está mais na certificação do que na competência que a própria ferramenta propõe. O coaching não pode ser visto com fascinação, como se fosse paixão de adolescente, como foi na PNL. Coaching é um processo e não pirâmide, a exemplo de tantas mascaradas de marketing de relacionamento que só alienam a massa.

Por mais poderosa que seja uma ferramenta de gestão, se for encarada como amadorismo, pela euforia do momento, ela perde o valor. Diz um pensador oriental que até o bem, se aplicado de maneira inadequada, deixa de sê-lo e produz efeito contrário. A superficialidade é um fator agravante diante disso. No mercado de trabalho e no ambiente acadêmico, recebo depoimentos frustrantes de gestores que são praticamente obrigados a fazerem sessões de coaching dentro empresa porque a chefia achou por bem que isso era bom para aumentar os resultados. Então contrata um profissional coach de renome, e todos precisam passar pelas sessões. Como assim, imposição? Sim, muitos líderes de empresas não entenderam a ferramenta e praticamente impõem aos dirigentes que lideram, só porque eles próprios fizeram um curso de imersão, e acharam oportuno enfiar isso garganta abaixo, sem o respeito ao perfil, ao desejo e ao tempo de cada um. Porém, quando há um mínimo grau de maturidade, percebe-se a falha e que isso não é uma varinha mágica. Pois em boa parte das vezes a cultura da própria organização sequer combina com a inserção do processo.

Antes, querer faz parte do processo. O filósofo Sêneca dizia quem o desejo faz parte da cura. Sem entender com maturidade o processo de coaching, por mais que ele tenha potencial, não atenderá a isso, por essa razão muita gente apenas fica fascinada, empolgada, e por ver os demais na mesma onda, seguem-na. Mas, é como chama que logo se apaga ao vento.

Penso que a criticidade sobre tudo aquilo a que nos propusermos é fundamental. Uma boa prática de coaching pressupõe que o coach, o profissional, tenha um bom conhecimento antes de si mesmo. E isso não é do dia para a noite. O processo do coaching é uma aprendizagem que permite atingir metas, solucionar problemas e desenvolver novas habilidades e competências. Não se atinge isso com euforismo, na cultura do “oba-oba”. Espero ver maior grau de maturidade no mercado de trabalho e na vida das pessoas sobre essa concepção. Febre passa.


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 19 de agosto de 2014

GESTÃO BURRA
Artigo de Jair Donato* 

Na gestão organizacional todo movimento precisa ter foco, e antes de tomar uma decisão, entender o contexto é primordial para obter melhores resultados. Conta-se que certa ocasião uma empresa entendeu que estava na hora de mudar o estilo de gestão. Então foi contratado um novo gerente geral para que implementasse a mudança. O recém-chegado veio determinado a agitar as bases e tornar a empresa mais produtiva. No primeiro dia, acompanhado dos membros de uma comissão formada por ele, fez uma inspeção nas diversas áreas da empresa. Quando a comitiva chegou ao armazém era momento em que todos por lá estavam trabalhando, exceto um rapaz novo que estava encostado na parede e com as mãos no bolso.

Vendo ali uma boa oportunidade para demonstrar a nova filosofia de trabalho, o gerente novato assim questionou rapaz: Quanto é que você ganha por mês? - Trezentos reais, por quê? - respondeu o rapaz sem saber do que se tratava. Rapidamente, o gestor tirou a quantia dita pelo transeunte e deu a ele, dizendo: - Aqui está o seu salário deste mês. Agora desapareça e não volte aqui na empresa nunca mais. O rapaz guardou o dinheiro e saiu conforme a ordem recebida.

O gerente então, enchendo o peito, perguntou ao grupo de trabalhadores ali presente, se alguém dentre eles sabia o que aquele tipo fazia ali sem fazer nada, e qual seria a função dele no setor. Ao que lhe responderam atônitos: - Sim Senhor, o conhecemos, ele é o entregador de pizza, apenas veio fazer uma entrega e estava aguardando para receber o que deviam a ele. Foi nesse instante que o gerente apavorado percebeu o que fez. Aí está o resultado de um estilo de gestão que faltou inteligência, e deu prejuízo.

O gestor insensato age assim. Ele confunde inovação com arbitrariedade. Pelo erro de não levantar informações mensuráveis e checa-las com antecedência, comete sandices em nome da criatividade e da eficácia. Não basta dar arrancada sem rumo, sem foco, pois isso não é um estilo estratégico na gestão. Como consultor de pessoas, percebo que as empresas não podem ficar paradas no tempo sem investir em treinamento e desenvolvimento de pessoas, novos processos, tecnologia e em novas políticas de gestão. No entanto, não é sábio quando o gestor age por impulso da mesma maneira que resolve aderir a qualquer novidade apenas para se inserir no contexto da competitividade. É preciso agir de forma racional e comedida.

Se o gestor gere só na boa intenção, no achismo ou pelo impulso, sem seguir um planejamento ou diretriz, pode ter resultados desastrados. Até mesmo características subjetivas como a criatividade e a flexibilidade precisam de foco e direcionamento. Dificilmente uma decisão tomada por impulso pode ser acertada, sem que antes reflita sobre os impactos que ela pode provocar. Perguntar mais, investigar melhor, conhecer bem o contexto, o ambiente, são condições mínimas para evitar perda de dinheiro, de tempo e gasto da imagem tanto do profissional quanto da organização.

Há que se pensar no resultado prático de qualquer ação ou atitude antes de implantá-la na empresa. O que você pretende com a nova ação? Qual é o impacto que tal ação deve ter na equipe e nos clientes? Como vai medir os resultados? Descubra se você está investindo ou gastando. Mais do que uma mudança, o importante é a forma como ela é praticada e entendida. Resta saber entre se o que você faz tem sido mesmo estratégico. Pois bons resultados só se originam por meio de estratégias inteligentes.


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br