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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A PERSONALIDADE E A CASA
Artigo de Jair Donato 


Você já analisou como se sedimenta a construção de uma casa? Enquanto umas são frágeis, não suportam peso ou grandes alterações na estrutura. Outras são fortes. O primeiro passo para iniciar a construção é o alicerce, é o que dá base. É um processo que se caracteriza pela a profundidade para sustentação das colunas, a espessura e demais aspectos que possam garantir o levantamento da obra. O tamanho e a fortaleza de uma casa dependerão do alicerce que tiver, caso contrário, ela não suportará o peso da edificação. O alicerce ainda não é a casa, mas a construção a ser feita será sempre conforme o peso que a base estrutural inicial suportará.

Embora possa parecer rústico, é possível fazer uma analogia desse exemplo com a personalidade humana, que também é uma construção cujo início é nos primeiros anos de vida. Afinal, porque existem pessoas mais fortes em alguns momentos, enquanto em outros não? É na infância que a base, e não personalidade, de um indivíduo é estabelecida, Ela se forma por traços que suportarão ou não o que vier nas fases seguintes da vida na construção da personalidade. Ou seja, os valores, a educação, a orientação inicial equivalem às colunas e a profundidade da base da construção de si. A qualidade do material na construção do prédio equipara-se aos estímulos e a percepção obtida pelo indivíduo.

Nem todo mundo tem consciência da profundidade que possui a base da casa em que habita, nem a qualidade dos materiais utilizados nela, tampouco se as colunas suportam muito peso. Tanto que se forem fracas e agirem em desconformidade a isso, haverá desmoronamento, como ocorre em determinadas construções civis quando há irresponsabilidade de quem projeta e constrói um imóvel.

Analogamente, nem todo indivíduo tem consciência dos próprios limites quando recebe as sobrecargas do destino. Uma pessoa pode morar numa casa por décadas de forma segura, mas se num repente resolve, construir acima dela outro andar, ou se por uma catástrofe natural uma árvores cai sobre ela, ou qualquer outro objeto pesado, haverá destruição em consequência disso. O mesmo pode ocorrer com o ser humano, que pode viver por décadas dentro de uma zona psicológica e aporte emocional que lhe dê segurança. Pode até ser o alicerce da família e dos amigos. Mas, por um percurso do destino, ao ocorrer um evento inesperado na vida dele, sem base suficiente ele poderá perder o equilíbrio, entrar em surto e desconhecer a si mesmo.

Há desequilíbrios mentais que se desencadeiam em pessoas até então equilibradas a partir de episódios inesperados, como a perda repentina de um ente querido, o fracasso na vida ou qualquer outro evento, cuja base interna não suporta tal experiência. É aí que a pessoa percebe que nela não havia uma estrutura sólida capaz de suportar tamanho peso. Alguns eventos podem significar muito pouco para uns, enquanto para outros as mesmas ocorrências chegam a tirar o equilíbrio delas. São os traços, tudo se liga na base.

É por isso que a personalidade não é algo construído exclusivamente na infância. A base é que vem de lá. Através da psicanálise, Freud definiu que essa base da personalidade é formada por traços advindos dessa fase da vida. Um adulto pode conter traços evidentes de uma neurose histérica ou obsessiva, e isso nunca ser inconveniente na vida dela, enquanto outras podem perder o equilíbrio a cada susto que levam, e desenvolver vários transtornos. Sob essa ótica, qualquer pessoa poderá sofrer um surto a qualquer momento, frente a qualquer situação. Ninguém está a salvo disso, vai depender da base que possui. São os traços, as referências internas.

Logo, a construção da personalidade é algo que ocorre todos os dias, até o fim da vida. Assim como numa casa, que não fica exatamente pronta após a base ser solidificada. Mesmo após o levantamento da parede, teto, reboco, pintura, assentamento de portas, janelas, instalação de parte elétrica, hidráulica, e demais acessórios, necessitará de manutenção e reformas periódicas. Será necessário reformá-la de tempos em tempos, ora muda-se uma porta de lugar, abre outra janela, troca o piso, retoca a pintura, enfim, é uma construção contínua enquanto nela houver moradores.

Por isso é que o ser humano é uma complexidade que pode construir-se e reconstruir-se sempre. Afirmar que a “pessoa é assim”, que “não pode mudar mais nada na vida dela” é semelhante ao proprietário de uma casa que diz que não precisará nunca reforma-la nem fazer reparos nela só porque já está de pé. Qual será a consequência? Com o tempo, o lixo tomará conta dessa morada, as paredes ruirão e toda a base cederá facilmente, assim como a pessoa que deixa de cuidar de si e aperfeiçoar-se.

Ter um projeto de vida, buscar ajuda profissional para superar algo que provoca sofrimento, ter fé, dedicar-se a um ideal são reformas em si mesmo. Isso equivale às vigas colocadas numa casa frágil que a faz revigorar. Qualquer indivíduo, mesmo reconhecendo as fragilidades que possui, poderá conviver bem consigo e com qualidade de vida. Afinal, ninguém é tão forte, tão impenetrável que não tenha fragilidades. Então, como está sua casa, sua base?


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

SOB A REDOMA
Artigo de Jair Donato 

Como se comportaria a humanidade para garantir a sobrevivência caso fosse acometida por um colapso na terra? Continuariam pacíficos todos que fazem uso dos recursos naturais desmedidamente caso soubessem que eles seriam extintos e saqueados por outras pessoas desesperadas? Esta é uma reflexão apropriada para este novo ciclo que adentra a metade da segunda década do século XXI. Há uma série da TV americana já vista por milhões de expectadores nos últimos dois anos, reproduzida no Brasil como “O Domo”. Trata-se de uma produção baseada no romance de ficção científica “Sob a Redoma” de Stephen King. Ela apresenta uma ideia bem adaptável aos dias atuais, sobre como as pessoas se comportam quando são bruscamente isoladas a partir da sociedade que sempre fizeram parte.

É uma trama envolvente e tudo acontece quando de uma hora para outra, a pequena cidade americana denominada Chester Mill se vê isolada do resto do mundo por uma redoma transparente e todos se veem como se estivessem num aquário formado por um campo de força que não é destruído nem por míssil. A princípio, de lá ninguém sai e nem entra.  A série mostra como se torna o relacionamento das pessoas mediante a escassez dos recursos naturais, o racionamento de água, comida, perda e separação de entes queridos, além das alterações bruscas no clima.

É uma analogia cheia de mistérios que a princípio dá para ser associada à maneira como estão sendo tratados os recursos naturais do planeta, e como pode se comportar a humanidade mediante quaisquer colapsos advindo da maneira como o homem se relaciona com a redoma ambiental em que vive, que poderá massacrá-lo se ele não cuidar bem dela. Como se comportaria os humanos ou pelo menos a metade dos terráqueos mediante a falta de água, de alimentos e de energia? Pode parecer abundante tudo isso para boa a maior parte das pessoas, mas a terra é um organismo vivo, que sente, reage e vocifera. Ela pode entrar em colapso.

Na trama de King o tráfego aéreo, fluvial, terrestre e a conexão virtual, tudo se torna impossibilitado como num passe de mágica. É interessante o exercício de imaginar como os indivíduos poderiam reagir neste mundo de correria, de relacionamentos instantâneos e superficiais, se de repente por um colapso ficassem apenas sem energia elétrica e conexão wifi. Você sofreria para adaptar-se esse estilo de vida diferente? Só recentemente cientistas da NASA afirmaram que o nosso planeta esteve bem próximo de um colapso dessa natureza em 2012 e que não está descartado um evento desse porte ainda neste século.

É possível ver que as pessoas se comportem das mais diversas maneiras em situações que colocam a vida delas em risco, mostrando-se às vezes o pior que possa surgir nelas, enquanto de quem menos se espera, possa manifestar os mais nobres sentimentos e ações para melhoria da vida de todos. O ser humano é assim, um emaranhado de complexidade, que se bem orientado, poderá conduzir o destino do planeta para a  melhor saída ou para o caos. Luta e fuga são mecanismos que de acordo com os traços de personalidade de cada indivíduo e os estímulos recebidos, poderão fazer com que do caos se organize a solução para um mundo melhor. Tudo pode depender da relação estabelecida entre todos nas próximas décadas.

Adaptar-se aos novos desafios, cuidar melhor das relações, cada um com si mesmo, com os outros e com o meio ambiente em que vive, talvez seja o comportamento que livre a humanidade da redoma da falta de consciência. O maior campo de força que prende o ser humano é realmente invisível mesmo, pois estará sempre dentro de si.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br