SÍNDROME DE COITADISMO
Artigo de Jair Donato
No contexto da sua vida, mesmo sem perceber, em que momentos você se
coloca como vítima e em quais outros assume e responsabiliza-se pelas suas
escolhas? Se em todos você age baseado na segunda opção, então este é um
diferencial marcante em si. Há uma postura mental que denigre a autoimagem e a
estima do indivíduo. É quando ele prefere a via do vitimismo, essa é uma doença
em que as pessoas se consideram punidas com tudo. E agem como se fossem
marionetes nas garras do destino.
Você já deve ter conhecido alguém com uso costumeiro de expressões do
tipo: “ninguém gosta de mim” “ai, como eu sofro”, “o mundo não é justo” ou “eu
nunca tenho sorte” dentre um rol de lamentos que empobrecem a capacidade de
aprendizagem de fatores que possam fortalecê-lo. A sensação de perseguição e injustiça
se torna para pessoas assim um mecanismo de defesa. Se sentem justificadas ante
ao fracasso pessoal que impõem a elas mesmas.
Quem age como vítima sabota a si próprio e deixa de atuar como agente
de mudança. Essa é uma postura autodestruidora que mina a possibilidade de
autonomia, de desenvolvimento e de maturidade individual perante a vida. Geralmente
o perfil de vitimização é tido como tóxico. É o tipo de pessoa que reclama
geral e desconhece o poder da gratidão. Por não preferir admirar, escolhe a inveja, a crítica e o desdenho. Também
o ciúme, a possessão e o egoísmo são armas que cravam a fraqueza que ela carrega.
É gente que cultua problemas e compete para que as dificuldades dela sejam
sempre maiores que as dos outros. O mundo sempre parece estar errado para quem
o vê dessa maneira. A atitude negativa e que não insere comportamentos de
mudança faz com que pessoas assim se tornem negativas, negadoras e reativas.
Ninguém melhor que o próprio indivíduo, após uma tomada de
consciência, pode abrir as portas que ele mesmo trancou na vida. Ele pode pedir
ajuda para isso, e esse um ato saudável e de bravura, inclusive. Há quem mesmo
após ter passado por experiências ou vivências traumáticas, não se dispõe a
viver minando a própria existência como se fosse um coitado. Como a vida é
feita de escolhas, essas pessoas escolhem ações em favor do potencial que há
nelas, e extraem mais disso. Um exemplo dessa maneira de ver a vida é possível
ver nos esportistas das paraolimpíadas. São pessoas que passam pela vivência da
superação e descobrem que o desafio soa-lhes bem melhor.
O psicoterapeuta
suíço Carl Jung acertadamente expressou que aquilo que não enfrentamos em nós mesmos acabaremos
encontrando como destino. Então, como eliminar o coitadismo, a pena de si mesmo?
Sem dúvida, isso é possível e pode ocorrer pelo aumento do grau de resiliência
do indivíduo, o investimento em um projeto para a própria vida. E mais, através
da atitude de coragem para imprimir em si mesmo novos comportamentos, e acima
de tudo, mudar as próprias crenças. Será nesta última dimensão, campo de
crenças, que o indivíduo pode ressignificar os modelos mentais que ele abriga
sobre si mesmo, sobre os outros e sobra o ambiente que o cerca.
Por fim, tudo isso dependerá do desejo da mudança, que é o
passo inicial da transformação. Foi o filósofo Sêneca quem elucidou que faz
parte da cura o desejo de ser curado. Mas, pode ser que a pessoa perceba que os
ganhos secundários obtidos mantendo-se como vítima sejam mais interessantes do
que o processo da mudança e prefira fugir disso. Talvez seja essa uma
maneira segura de receber atenção e cuidados dos demais, e somente assim ela
tem as reivindicações atendidas. É quando ela percebe que pode
ser melhor culpar os outros e o mundo do que assumir responsabilidades pelas
próprias escolhas. Mesmo que ele saiba que a felicidade própria esteja na
mudança, vai preferir agir como um coitado. Afinal, essa é também uma escolha.
