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segunda-feira, 27 de junho de 2016

SÍNDROME DE COITADISMO
Artigo de Jair Donato

No contexto da sua vida, mesmo sem perceber, em que momentos você se coloca como vítima e em quais outros assume e responsabiliza-se pelas suas escolhas? Se em todos você age baseado na segunda opção, então este é um diferencial marcante em si. Há uma postura mental que denigre a autoimagem e a estima do indivíduo. É quando ele prefere a via do vitimismo, essa é uma doença em que as pessoas se consideram punidas com tudo. E agem como se fossem marionetes nas garras do destino.

Você já deve ter conhecido alguém com uso costumeiro de expressões do tipo: “ninguém gosta de mim” “ai, como eu sofro”, “o mundo não é justo” ou “eu nunca tenho sorte” dentre um rol de lamentos que empobrecem a capacidade de aprendizagem de fatores que possam fortalecê-lo. A sensação de perseguição e injustiça se torna para pessoas assim um mecanismo de defesa. Se sentem justificadas ante ao fracasso pessoal que impõem a elas mesmas.

Quem age como vítima sabota a si próprio e deixa de atuar como agente de mudança. Essa é uma postura autodestruidora que mina a possibilidade de autonomia, de desenvolvimento e de maturidade individual perante a vida. Geralmente o perfil de vitimização é tido como tóxico. É o tipo de pessoa que reclama geral e desconhece o poder da gratidão. Por não preferir admirar, escolhe a inveja, a crítica e o desdenho. Também o ciúme, a possessão e o egoísmo são armas que cravam a fraqueza que ela carrega. É gente que cultua problemas e compete para que as dificuldades dela sejam sempre maiores que as dos outros. O mundo sempre parece estar errado para quem o vê dessa maneira. A atitude negativa e que não insere comportamentos de mudança faz com que pessoas assim se tornem negativas, negadoras e reativas.

Ninguém melhor que o próprio indivíduo, após uma tomada de consciência, pode abrir as portas que ele mesmo trancou na vida. Ele pode pedir ajuda para isso, e esse um ato saudável e de bravura, inclusive. Há quem mesmo após ter passado por experiências ou vivências traumáticas, não se dispõe a viver minando a própria existência como se fosse um coitado. Como a vida é feita de escolhas, essas pessoas escolhem ações em favor do potencial que há nelas, e extraem mais disso. Um exemplo dessa maneira de ver a vida é possível ver nos esportistas das paraolimpíadas. São pessoas que passam pela vivência da superação e descobrem que o desafio soa-lhes bem melhor.

O psicoterapeuta suíço Carl Jung acertadamente expressou que aquilo que não enfrentamos em nós mesmos acabaremos encontrando como destino. Então, como eliminar o coitadismo, a pena de si mesmo? Sem dúvida, isso é possível e pode ocorrer pelo aumento do grau de resiliência do indivíduo, o investimento em um projeto para a própria vida. E mais, através da atitude de coragem para imprimir em si mesmo novos comportamentos, e acima de tudo, mudar as próprias crenças. Será nesta última dimensão, campo de crenças, que o indivíduo pode ressignificar os modelos mentais que ele abriga sobre si mesmo, sobre os outros e sobra o ambiente que o cerca.

Por fim, tudo isso dependerá do desejo da mudança, que é o passo inicial da transformação. Foi o filósofo Sêneca quem elucidou que faz parte da cura o desejo de ser curado. Mas, pode ser que a pessoa perceba que os ganhos secundários obtidos mantendo-se como vítima sejam mais interessantes do que o processo da mudança e prefira fugir disso. Talvez seja essa uma maneira segura de receber atenção e cuidados dos demais, e somente assim ela tem as reivindicações atendidas. É quando ela percebe que pode ser melhor culpar os outros e o mundo do que assumir responsabilidades pelas próprias escolhas. Mesmo que ele saiba que a felicidade própria esteja na mudança, vai preferir agir como um coitado. Afinal, essa é também uma escolha.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br