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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

DESBRAVADOR OU VILÃO?


Artigo de Jair Donato


Recentemente prefeitos do Norte de Mato Grosso que estão na lista do governo federal, após o decreto 6.321 sobre as restrições no desmatamento da Amazônia em 19 municípios do Estado, entraram na luta para defesa dos agricultores no movimento Reage Nortão. Trata-se de algo que afeta o caixa dos municípios tanto ou mais que os interesses dos donos de terras. Foram à Brasília, à Assembléia Legislativa Estadual e se posicionaram, querem que o decreto seja revogado.

Penso que esse é um embate interessante. Afinal, assim é o paradigma capitalista, quando qualquer decisão afeta o bolso, todos procuram se movimentar. Contudo, o curioso é que antes da ‘lista’ nenhum movimento tinha sido encabeçado com tanta ênfase por esses governantes do povo, que considerasse os demais pilares da sustentabilidade.

“Nos últimos 40 ou 50 anos, a economia dominava. Nos próximos 20 ou 30 anos, as questões sociais é que vão dominar”, disse Peter Drucker, guru da administração moderna. E o contexto social está tão inteiramente ligado ao meio ambiente, mais que ao econômico. Para o homem existir, quando nem se pensava em bens ou economia, havia a natureza que sempre o abrigou. Certamente o maior debate neste século será sobre ética e moralidade.

É considerável o discurso dos agricultores, pecuaristas e madeireiros quando se posicionam sobre os empecilhos surgidos para que continuem com as atividades que possuem na Amazônia. Realmente, na atual conjuntura de desenvolvimento do País, não é possível apenas preservar a área verde. Talvez a maior incompetência por parte do governo esteja no fato de não ter planejamentos sustentáveis consistentes que não cesse o lado econômico e que não ameace os biomas. Muito apenas se discute, por enquanto.

Mas, o que vejo como incoerente na postura dos ‘desbravadores da mata’ é quando se colocam como vítimas, dizem que a mídia os faz vilões amazônicos. Muitos ainda se apegam ao discurso de que vieram para cá a convite do governo do Estado desde o período pós-divisão e que a condição na época era derrubar a floresta. Sim, mas essa era uma condição do passado, hoje inaceitável.

As justificativas e a dificuldade de aceitar mudanças estão ligadas, na maioria das vezes, à mediocridade do ser humano, que acha mais fácil trilhar um caminho já explorado antes. E acha difícil aceitar o novo, mesmo quando se trata do risco a própria sobrevivência. Tem muita gente boa por aí, principalmente pequenos produtores, que criam e produzem eticamente e cuidam do meio ambiente. Tem também muitos aproveitadores que ainda ganham somente à custa da destruição dos recursos naturais.

A polêmica atual é que o mundo precisa de soluções novas que exigem ações diferentes. É preciso mais eficácia no controle do desmatamento e da extração ilegal da madeira, no cuidado com os recursos hídricos e com os biomas existentes.

A forma de ganhar dinheiro, de comer e produzir, por uma questão de necessidade, será diferente daqui por diante. Sofrerá menos quem entender logo essa realidade. Nem todos nesse contexto estão impunes e nem são tão éticos que não precisam de fiscalização. Pois erva daninha se dá em todo lugar, seja na lavoura, no pasto ou na floresta. E só pode ser combatida com defensivos. Ao que parece os defensivos agrícolas ainda são mais eficazes do que a fiscalização.

A humanidade está numa transição significativa, talvez a maior da história. Quem tiver visão pode transformar isso em vantagem. Penso que nessa situação não há quem mereça o rótulo de vilão. Cada um deve colher o que merece. Se destruir, que pague e se for parceiro sustentável, que prospere. Quem vai dizer isso, antes de tudo, é o consumidor, que se torna cada vez mais informado e consciente acerca do alimento que põe à mesa, dos móveis que mobília a própria casa e do ar que respira.

Mudar dói, deforma. Mas esse é o paradigma que vai alterar o estilo de vida da dona de casa até as grandes potências de produção, fabricação e consumo. Quem for inflexível e resistente, que saia do cenário. Mudar, conservar, preservar ou perder, esse é o dilema.

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

INVERSÃO INCONSCIENTE



Artigo de Jair Donato

Certa ocasião quatro mendigos se encontraram sincronicamente numa encruzilhada da Algéria: um turco, um árabe, um persa e um grego. Para celebrar o acontecimento decidiram fazer uma refeição festiva. Então providenciaram uma cota e cada um após o outro, despejava alguns trocados para ver quanto daria. Mas o que iriam comprar com o dinheiro?
- Uzum, disse o turco.
- Ineh, disse o árabe.
- Inghûr, disse o persa.
- Staphilion, disse o grego.

Cada um havia expressado o próprio desejo em um tom que parecia excluir qualquer possibilidade de entendimento. Surgiu uma discussão violenta e teria havido ali mesmo um conflito se um dervixe poliglota não tivesse aparecido entre eles e se oferecido para revelar o que queriam dizer. Com palavras diferentes, explicou o entendido, vocês quatro querem a mesma coisa: Uvas.

Este conto de Gerard de Nerval é oportuno para uma reflexão sobre a forma de expressão que o homem faz em prol da natureza e o cuidado com o meio ambiente. Não há ninguém em sã consciência que não deseje viver bem e em clima agradável, num lugar onde possa respirar, se alimentar e se servir das múltiplas opções que a biodiversidade pode oferecer.

Mas, qual a razão para destruir o próprio habitat? O que leva o ser humano a destruir a grande casa em que vive? O comportamento atual do homem se confunde em meio a uma inversão inconsciente, rumo à extinção do que representa a vida, a partir do conflito acerca dos próprios interesses e o contexto sócio-ambiental. O consumo irracional dos recursos naturais, a contaminação do solo, do ar e da água é uma forma inconsciente de derrocar a própria caminhada e destruir o caminho a percorrer para as gerações futuras. É como se dissesse a si próprio, caso o inconsciente verbalizasse: já que eu destruo, mereço sofrer. Assemelha-se mesmo a uma atitude de auto-sabotagem e perversão.

Foi divulgado recentemente ao mundo o mais completo levantamento já feito sobre o impacto humano nos oceanos, em uma das últimas edições da revista científica Science. O estudo mostra que não existe mais uma gota de água nos oceanos que não tenha sido afetada de alguma forma pela ação do homem. Quase metade da superfície oceânica, mais de 40% está sob forte pressão de atividades humanas, como pesca e poluição. Apenas 4% permanecem relativamente livres de impacto, nas regiões do Ártico e da Antártida, onde o homem tem dificuldade para chegar.

E as geleiras por lá andam derretendo em proporções assustadoras. Segundo os cientistas que apresentaram esse estudo, os efeitos mais severos na água têm relação com o aquecimento global. Áreas como costa Sudeste do Brasil, o Mar do Norte e o Mar da China, onde há forte concentração de navios e atividade industrial, já sofrem esse impacto da poluição de forma severa.

Mais que políticas ou imposições, é preciso muita consciência acerca do que deve se preservar e conservar, Essa é a condição essencial para manter a vida no ciclo natural. Mas, as línguas ainda parecem estranhas quando se fala nesse assunto. O capitalismo grita alto e o mercantilismo corrompe a ética e o senso moral para resguardar o interesse de uma parcela que ainda produz sem repor o que destrói. E essa não é uma linguagem comum quando se considera o tripé da sustentabilidade, que além do crescimento econômico, visa fundamentalmente a relação prática e efetiva com o social e o meio ambiente. O que fugir disso será sempre um pseudo crescimento que não subsidia o que se perde.

O escritor Rubem Alves disse que antes que qualquer árvore seja plantada, ou que qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardins por dentro não tem jardins por fora. E nem passeia por eles.

A humanidade é parte de um vasto Universo em expansão, diz a Carta da Terra. Mas, o homem se mostra confuso, numa inversão de valores sobre si mesmo e o meio ambiente. Pois nem sempre ele age como parte e pensa como se fosse o centro. É preciso um repensar nas ações. Consciência urgente!

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jairdomnato@gmail.com

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

A JANELA, O ESPELHO E O MEIO AMBIENTE


Artigo de Jair Donato

Conta-se que certa vez um jovem muito rico foi visitar um Rabi e pediu-lhe um conselho para orientar a vida que levava. O Rabi conduziu o jovem até a janela e perguntou:

- O que você vê através dos vidros?

- Vejo homens que vão e vêm e um cego pedindo esmolas na rua. Então o Rabi mostrou-lhe um grande espelho e novamente perguntou:

- Olhe neste espelho e diga-me agora o que você vê?

- Vejo a mim mesmo.

- E já não vê os outros! Repare que a janela e o espelho são ambos feitos da mesma matéria-prima, o vidro. No espelho, porque há uma fina camada de prata colada ao vidro, você não vê nele mais do que a si mesmo.

Você deve comparar-se a essas duas espécies de vidro. A pessoa de boa índole vê os outros e tem compaixão por eles. O egoísta, coberto de prata, hipócrita e pobre de espírito, vê apenas a si mesmo. Você só vale alguma coisa, quando tiver coragem de arrancar o revestimento de prata que tapa os seus olhos, para poder, assim, de novo ver e amar aos outros. Somos como se fossemos anjos de apenas uma asa, complementa o sábio. E só podemos voar quando abraçados uns aos outros.

Analogamente, a prata que cobre o vidro e reflete apenas a própria imagem, pode ser comparada à cegueira provocada pelo mercantilismo que assola o delírio inconsciente da humanidade e que visa mais o interesse próprio. O acúmulo para poucos em detrimento de desníveis no âmbito do social e da natureza, em nome de um crescimento econômico em curto prazo, sem se importar que o meio ambiente, pode inclusive exterminar as espécies de vida no planeta, se não for contido. Imagina o mundo sem água, com ar e terra contaminados. Quem sobreviveria? Isso já é real para muitos.

O grande espelho que rebate a luz solar em demasia na Terra, formado pelas geleiras como as do Ártico, da Groenlândia e da Antártida, estão se esvaindo devido o aquecimento global. Contudo, o maior espelho que precisa ser reciclado em vidro transparente está no interior do homem. Trata-se de uma consciência mais límpida, clara, de visão em longo prazo e consideração ao meio ambiente em que cada um vive.

É importante que governos, corporações e toda a massa individual poluente vejam, ao menos pela janela, se não estiverem dispostos a saírem pela porta e fazerem o que precisa para garantia de uma melhor qualidade de vida. Que possam olhar para a necessidade do outro e os arredores que precisam do verde, do uso racional da água, da conservação do solo e do ar e estabeleçam mais planos de ação.

A janela que precisa ser aberta é a da alma, da consciência, que passa pela porta da sensibilização e do cuidado com a vida. A capacidade do ser humano viver dignamente no planeta está frágil. É fundamental que o mundo adote fontes de energia mais limpa. Esse é um desafio que pode alterar o ritmo da economia, mas garante a sustentabilidade.

É uma equação matemática, pautada na moral, na ética e nos princípios que os países, governos e sociedade devem ter. A energia, por exemplo, é um recurso sem o qual o mundo pára as atividades econômicas e está ligado à sobrevivência dos grandes centros, das indústrias e dos transportes. O setor que mais polui no mundo é o energético, responsável pela maior emissão de gases do efeito estufa.

E as conseqüências provindas desses fatos são irreparáveis. Para evitar tragédia maior, é necessário que nos próximos 15 anos, governos e empresas de todo o mundo estabeleçam padrões consideráveis de redução de gases poluentes na atmosfera, principalmente em relação ao uso dos combustíveis fósseis, alem de evitar e controlar as queimadas e os desmatamentos, também vilões.

O ideal é sair da “zona de conforto”, optar pelas alternativas e agir em prol do bem comum e da melhoria contínua. O mundo depende da mudança que o ser humano estiver disposto a investir. É possível o crescimento da riqueza mundial, desde que todos olhem pela janela e considerem também o meio ambiente.

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

SERÁ POSSÍVEL UM MUNDO MAIS VERDE?


Artigo de Jair Donato

Quando o homem perder a capacidade de ter esperança, pode apagar o arco-íris, escreveu o saudoso Mario Lago, escritor e ator brasileiro. Contudo, ter esperança implica antes, em mudar de atitude, rever concepções e fazer diferente. O lexicógrafo inglês, Samuel Johnson, certa vez disse que “As cadeias do hábito são em geral pequenas demais para serem sentidas, até que estejam fortes demais para serem rompidas”.

Os costumes e as práticas ambientalmente incorretas, muito comuns por parte de quem não tomou ciência de que deve mudar o comportamento em relação às questões ambientais, é o que ameaça a vida na Terra e conduz várias espécies à extinção. Estão nesse rol mais que depredadores florestais. As grandes chaminés industriais de gases poluentes e as enormes fontes de energia suja são as principais causas. Em torno de 75% da energia utilizada no mundo ainda vêm dos combustíveis fósseis. Estima-se que em 2010 tenha uma frota de aproximadamente 900 milhões de veículos circulando e o mundo chegará em 2050 com 9 bilhões de pessoas, todas poluidoras, seja em pequena ou grande escala.

Penso que é muito inconseqüente alguém achar que não estamos diante da necessidade de uma mudança na forma de conduzir a economia, as questões sociais e o zelo com o meio ambiente. Isso se assemelha aquele pai, quando desorientado na vida, sem consciência da responsabilidade que possui, chega alcoolizado na própria casa, destrói tudo que vê pela frente, ainda espanca a esposa, e só depois de algum momento de sobriedade, percebe que danificou parte ou tudo que construiu em anos de trabalho. É só uma analogia, porque em se tratando do planeta, o impacto é muito profundo, por vezes irreversível. É preciso sobriedade na mente do homem, agora. É necessário que o delírio pela autodestruição seja curado.

Após muitos alertas nos últimos tempos, um novo estudo internacional recentemente publicado na revista especializada Proceedings of the National Academy of Sciences, mostra que nos próximos 50 anos a floresta amazônica pode virar savana por causa das mudanças climáticas. A Amazônia foi classificada dentre nove sistemas mais ameaçados no planeta pelo superaquecimento global. Outro sistema, um dos mais importantes para o equilíbrio da temperatura na Terra, são as geleiras do Ártico; estão derretendo rapidamente, fato assustador. Sem as calotas polares, todos os continentes sofrerão.

Devemos encarar esse prazo não só como um alerta científico, mas como uma possibilidade de analisar sobre a força dos impactos das próprias ações do homem sobre a tão bela e formidável natureza. E rever enquanto é tempo o paradigma de ganho e sobrevivência até então cômodo para maioria de nós. Acredito que a sensibilização pode se estabelecer mais rapidamente pela via da educação, a exemplo do que as escolas estão fazendo, ao inserir nos conteúdos, de forma interdisciplinar, as questões ambientais.

Embora a educação não deva ser uma responsabilidade única das instituições oficiais de ensino. As empresas devem investir mais na educação corporativa, disseminar as ações sócio-ambientais que fazem parte dos planejamentos estratégicos e envolver colaboradores, clientes e comunidades nos projetos em prol da conservação dos recursos naturais, do uso racional da energia, dos recursos hídricos e do reaproveitamento dos resíduos, numa extensão da casa de cada um ao ambiente coletivo. Muita gente ainda precisa de informação para se sensibilizar. Mas, de fato serão os exemplos que farão as mudanças.

No Século III antes da Era Cristã, o chinês Kuantsu, plantou uma profunda reflexão, essencial para os dias de hoje. “Se quisermos planejar para um ano temos que plantar cereais. Se quisermos planejar para uma década temos que plantar árvores. Se quisermos planejar para a vida toda temos que educar o Homem". Somente a educação tem o poder de transformar consciências e mudar o mundo.

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com