POR
QUE PESSOAS BOAS ADOECEM?
Artigo de Jair Donato*
Na infância, quando morava no
interior, cresci ouvindo minha mãe se expressar, às vezes indignada, sempre que
uma pessoa “boa”, segundo ela, amiga, bem vista na sociedade, e que era modelo
de liderança familiar, vinha a falecer de alguma doença como câncer. Ela se
expressava questionando sobre aqueles que estavam presos na cadeia e eram
saudáveis. Por que tais indivíduos viviam tanto tempo com saúde, enquanto
aquelas pessoas boas, amigas, que nunca tinham usurpado bens de ninguém, e que
não mereciam tais doenças, morriam cedo? Que justiça divina poderia ser aquela?
Dizia ela.
Hoje, estudos mostram que pessoas
consideradas “boazinhas”, que sempre procuram agradar a tudo e a todos, e que
só dizem “sim” sempre que solicitadas, mesmo querendo dizer “não”, podem viver
a vida inteira com uma espécie de “capa” para esconder como elas
verdadeiramente pensam ou sentem. Elas aprendem esse modelo desde cedo com os
pais e educadores, de que para viver bem, serem aceitas no meio social, têm que
serem sempre boas e agradáveis. E mais, aprendem que ser “bom” é dizer apenas
sim, e agradar os demais, e com isso acabam por não preservarem a si mesmas.
Será mesmo uma atitude saudável dizer
sempre sim aos outros, mesmo que não queira? Saber ceder, ter flexibilidade ou
empatia são habilidades inteligentes, mas não devem ser confundidas com
anulação e submissão do próprio ser. Por
essa razão é que muita gente se torna pouco assertiva nos relacionamentos. Há
pessoas “boas” que vivem numa via dupla, do tipo que agrada pais, cônjuges,
filhos, parentes, amigos, vizinhos, menos a si mesma. Qual é a consequência
desse comportamento? A princípio, vai depender de como a própria pessoa
trabalha isso internamente, se ela extravasa, compensa de alguma maneira ou
não.
Mas, ao depender da intensidade e
da condição cíclica de tais ocorrências, isso pode gerar tamanha frustração
íntima, e uma somatória de ressentimentos petrificados que no fim da vida, pode
resultar em uma das tantas formas de doenças que corroem por dentro, devido ao
processo de somatização, como simbolismo de intransigência no campo emocional.
Isso pode ocorrer mesmo que a pessoa envolvida nunca tenha pensado ou
“merecido”, como se referia minha saudosa mãe. Afinal, é difícil rotular alguém
de “bom” apenas pelo modo aparente do indivíduo se comportar. Essa é uma
definição que antes tem haver como os moldes internos de cada um.
Estamos na época do fim de um
ciclo cronológico em que muita gente costuma refletir sobre o ano que passou,
as atitudes e as ações decorrentes da maneira como se relacionou com os demais.
Perdão, reconciliação, melhor entendimento entre as pessoas são mais comuns
nesses períodos em que há uma expectativa coletiva de mudança. Então, este é um
período oportuno para que cada um repense sobre tudo aquilo que pode ter
acumulado, mas que poderia ter sido expresso antes. Que nota você daria hoje
para sua assertividade? Quantos sentimentos reprimidos podem ter sidos internalizados?
Quantos ressentimentos você pode ter gerado. Lembre-se que eles são prejudiciais,
é melhor livrar-se desse tipo de acúmulo. Talvez esse seja o meio mais adequado
para preservação da sua saúde física, psicológica e emocional.
Jair
Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas,
professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de
Vida. E-mail: jair@domnato.com.br












