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terça-feira, 27 de outubro de 2015

O PRAZER DE NEGAR
Artigo de Jair Donato

Sabe o perfil de pessoas que quando você necessita de uma ajuda ou colaboração, antes elas naturalmente negam o que foi solicitado, mesmo sendo possível atender ao pedido feito? Pois é, essa é uma maneira controversa delas se comunicarem. Se você pede uma informação, mesmo que elas saibam, antes negam. Quem age assim só se disponibiliza após o ato concreto de negar. Constata-se que há um tipo de prazer envolvido sempre que algo é negado. Pode ser que elas nem percebam, ou não querem ver. Se isso ocorre ocasionalmente, sem problemas. Porém, se é algo cíclico no comportamento, pode ser o resultado de traços comportamentais que atrapalham a elas mesmas, além de desagradável para os que convivem ao redor.

Mas, o que ocorre em seguida? O negador vem ordeiramente e se presta a fazer o que foi solicitado como se nada tivesse ocorrido, o que pode ser mais uma crise de consciência do que solidariedade. E como autodefesa se justifica dizendo que deu um jeitinho para poder ajudar. Afinal, ele já teve o efêmero momento de prazer ao desapontar o outro, ou se frustrou por ter visto que o outro nem ligou para o que ele não fez. E, quando ele não nega, no mínimo coloca uma série de barreiras e dificuldades para o ato de servir com naturalidade. O prazer está em gerar o mesmo desconforto no outro que um dia ela teve, de ter algo negado, é assim que se sente detentor, poderoso. Esse é um movimento que se a pessoa não perceber nem corrigi-lo, provavelmente será replicado pela vida inteira.

Esse é o indivíduo que difere das pessoas agregadoras, que são aquelas que se disponibilizam antes de negar ao menos para ouvir o outro, entender melhor a necessidade dele para depois dar uma resposta certeira, sem arrependimento. É claro que nem sempre podemos atender a tudo que os outros precisam, pois as vezes há limites da nossa parte. Além do que fazer tudo que os outros pedem pode ser doentio. Isso já seria uma linha oposta de quem nega, seria como justificar a anorexia pela bulimia. Qual então o melhor caminho? O equilíbrio, o que é fundamental nas relações. Se você vive em família ou em equipe dentro das organizações, ou até mesmo no meio social com os amigos, é o ambiente onde deve haver a colaboração ou no mínimo, a boa vontade. É óbvio que nem sempre você conseguirá atender a todos, mas negar o tempo inteiro não é atitude saudável. Tanto aquele que diz sim para tudo como o que a tudo nega, sabota a si próprio.

A atitude de negação nem sempre está relacionada a uma postura de maldade, o que não deixa de ser, antes para próprio negador. É que isso de alguma maneira foi aprendido no decorrer da vida e pode resultar-lhe consecutivamente em ganhos secundários, tais como se sentir melhor e mais importante ou ser reconhecido e com poder. Enfim, encontra-se tal comportamento também em gente de boa índole, que se autopune constantemente por agir dessa maneira, o que gera uma imagem negativa em torno de si mesma.

Este é um típico traço característico de neurose: nega, mas faz. É um comportamento que provoca a ilusão de poder e provisão, um alívio momentâneo para a frustração que o próprio sujeito carrega talvez por terem negado a ele no passado os desejos que tinha de liberdade e de posse. Quem sabe um retrocesso a infância do sujeito que age assim possa explicar algo dessa natureza. Pessoas que geralmente foram criadas num ambiente de negação, que foram privadas daquilo que causavam prazer a elas, seja a aquisição de brinquedos, de roupas ou até mesmo de comidas nos momentos que desejavam, podem desenvolver traços de negação na fase adulta. Mas, é óbvio que o mundo nada tem a ver com isso. Seria como cobrar uma dívida de quem não a contraiu. É por isso que gera desconforto.

Daí o indivíduo vive como se passasse o tempo todo tentando recompensar a falta sentida numa espécie de vingança, negando aos outros aquilo que a ele foi negado. Isso se torna algo gera prazer mesmo no desprazer. A pessoa naturalmente desenvolve mecanismos de apego em relação ao dinheiro que ganha, age de forma desconfiada quanto a segredos bobos, daqueles que ninguém quer saber. Enfim, a frustração é para vida toda porque ela nunca vai reaver o que nunca teve. Quando ela nega e depois oferece, é como se reaviesse algum poder, é o momento quando posa de benfeitor. Só que não, pois isso desagrega e descontenta os demais. Deixar o outro esperar um pouco mais para depois ajudar, agir satiricamente ou esboçar humor irônico e sarcástico, antes de uma ajuda dá a ilusão de alegria a quem tem esse perfil.

Mas, se sou assim ou conheço pessoas que agem dessa maneira, o que fazer? Talvez a percepção de si no caminho da negação contínua junto à escolha de doar-se mais seja o caminho para uma reversão. Por ser um movimento que na maior parte das vezes é inconsciente, a autopercepção ou a busca de ajuda pode ser a saída. A verdade é que há um emaranhado de complexidade em tudo o que compõe a estrutura das relações no comportamento humano. Vale refletir.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

terça-feira, 20 de outubro de 2015

PROJEÇÃO
Artigo de Jair Donato

Por que determinados comportamentos simples de uma pessoa incomodam tanto a outra, enquanto nada significa para alguém que talvez esteja no mesmo ambiente? Já ocorreu com você de se irritar com a fala, gesto ou modo como alguém conduz uma ação, enquanto para outras pessoas ao seu redor o mesmo estímulo parecia agradável e fonte de admiração? Frequentemente vejo pessoas criticarem determinadas situações ou estilos de outrem ao se comportarem, quando tudo que elas queriam era ter aquela mesma espontaneidade de agir, mas se reprimem o tempo todo enquanto atacam como defesa para se esconderem de si mesmas.

Projeção é um fenômeno da mente humana. Trata-se de um mecanismo que se dá cada vez que o indivíduo atribui a outra pessoa os próprios sentimentos, pensamentos e emoções inaceitáveis ou mesmo defeitos pessoais que não pretende aceitar. Projetar quer dizer arremessar. Para a psicologia a projeção é um mecanismo de defesa. Ela pode ser algo que permite uma diminuição de ansiedade cada vez que o sujeito irradia no outro determinado impulso indesejável ou não, principalmente pela via do inconsciente.  

A corrente psicanalítica encetada por Freud desenvolveu a teoria da Projeção, que explica que geralmente quando o indivíduo abriga sentimentos ameaçadores, reprimidos e que não deseja tomar ciência deles, isso é arremessado, projetado em alguém. É um movimento em que o indivíduo repele e expulsa dele mesmo sejam qualidades, sentimentos, desejos ou mesmo objetos que ele recusa e também desconhece. Em seguida localiza isso no outro, pessoa ou situação,

Um exemplo dessa natureza é o comportamento que a pessoa adquire de culpar os outros pelo próprio fracasso. Isso porque se torna mais cômodo e menos doído atribuir a culpa a outrem do que tomar consciência da falha cometida. Este pode ser um movimento que se replicará por toda a vida, exceto se ela buscar ajuda para tornar consciente a própria fraqueza e provocar a mudança. Mas, o indivíduo pode achar isso muito caro e para não investir nessa empreitada, ele passa a vida inteira em fuga. Contudo, se arriscasse poderia ver o que o barato, ou seja, permanecer como está é o que lhe custa muito mais. Afinal, ele banca isso só para não se expor a si mesmo.

Tais conteúdos projetivos podem ser advindos desde ao longo da infância ligados à repressão, ao medo da castração, dentre outros equivalentes psíquicos e que no percorrer do tempo, embora atemporais, foram gerando frustrações que se projetam no contexto do relacionamento humano.

O cotidiano das pessoas está repleto de exemplos de projeção. É o caso daquele pai ou mãe que se frustrou na vida ao fazer o curso que não queria e que tenha trabalhado com o que não lhe trouxe realização, o que resta a ele? Manipular o desejo dos filhos para fazerem o que não querem sem respeito à individualidade deles, é sugar tal realização para si. Ou aquela mãe que enche a filha de bonecas, sendo que a menina nem liga tanto para isso. Na verdade, as bonecas nem são para ela, pois é o alimento da infância que essa mãe nunca teve.

Na empresa, pode ser aquele chefe que persegue um membro da própria equipe quando o acusa de pouco ágil, incompetente e descomprometido, quando tudo o que provoca a ira do chefe é a liberdade que o subordinado tem de viver o próprio tempo e lidar bem com a frustração. Tem o exemplo da recatada, que no shopping center lança ironicamente o olhar enviesado àquela mulher fina e bem vestida que adentra esfuziante com o decote à mostra e a cadelinha no braço, e comenta: “Olha a roupa daquela perua, se veste muito mal e aqui nem é lugar de transitar com cachorros”. Triste arremesso. Não que ela talvez desejasse ter aquele cachorro ou o vestido daquela mulher. Mas a elegância e a liberdade de transitar sem se preocupar com o que os outros poderiam dizer é tudo o que aquela recatada nunca teve, por isso projeta através da inveja e da ironia toda a frustração acumulada.

Você já ouviu falar no adágio popular de que tudo que vai, volta? Então esse é um fenômeno apresentado pelo psicanalista Jung como contraprojeção, algo que é uma espécie de efeito da projeção do próprio sujeito. Foi Nietzsche quem deu um claro exemplo do que é contraprojeção ao se expressar que "aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Pois quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para você”.

Há pessoas cujo foco na vida se concentra em comentar sobre a vida dos outros. Tecem falatórios sobre o que eles usam, viagens e lugares que frequentam, bens que adquirem ou amizades que conquistam. O aparente desprezo por aquilo em que é criticado pode ser mais que a incompetência em admirar. Gente que desdenha, fala demais sobre o que detesta, despreza, condena e satiriza, acaba por atrair sempre mais daquilo, tamanho é o impulso inconsciente gerado. E o senso comum logo apelida isso tudo de inveja, recalque ou algo do gênero.

“Quase todas as pessoas que observei recriminado os outros caíram naquilo que criticavam”, assim pontuou o espiritualista brasileiro Francisco Cândido Xavier, alguém que conviveu com centenas de milhares de pessoas. Talvez, o mais importante na observação desses fenômenos humanos seja a consciência dos próprios movimentos.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br 

terça-feira, 6 de outubro de 2015

SABE TUDO
Artigo de Jair Donato 

Há momentos na vida em que o ser humano emperra o próprio autodesenvolvimento pelo fato de intelectualizar tudo à volta dele e encher-se disso. É quando ele, mesmo na fase de sofrimento sobre determinado desafio que não consegue superar, diz que sabe tudo sobre o que está ocorrendo, estuda sobre o assunto, até ensina e aconselha os demais, mas dificilmente consegue sair de onde está.

Lembro-me da infância em que tinha um colega de sala de aula que recebia o apelido de “sabe tudo”. Era um menino que se destacava no âmbito da aprendizagem, por vezes tinha boa memória e tirava excelentes notas. Ele respondia tudo que a professora perguntava e fazia questão de ser o primeiro a levantar a mão quando havia um questionamento para a sala. Porém, isso gerava inconvenientes em muitas ocasiões, devido ao fato dele não deixar outros colegas se expressarem também, a ponto da educadora solicitar sempre que o “sabe tudo” desse a vez para outro. O saber é bom, mas requer um equilíbrio para expressá-lo. A condição de aprendiz contínuo é algo ligado à sabedoria. O resto é astúcia.

Há quem vive como se de tudo já soubesse, porta-se como se dono da verdade fosse e age de tal modo como se nada mais houvesse para aprender. Apresenta-se como se fosse uma criatura pronta e sem espaço para o novo, soberbamente detentora do conhecimento e da sabedoria. O filósofo japonês Masaharu Taniguchi elucidou que “a vida do ser humano começa a se arruinar quando ele passa a se envaidecer dos próprios conhecimentos e a se considerar diplomado”.

Esse é um tipo de comportamento denominado como “xícara cheia”. A xícara é um recipiente que pode ser análogo à mente do indivíduo, que se ela estiver sempre cheia, transbordante, não sobrará espaço para que novo conteúdo seja adicionado. Há pessoas que vivem assim, “cheias”, “prontas”. Isso é ameaçador, presunçoso e limitante. Contudo, quando a mente está propícia a receber, a apreender, naturalmente ali há o desenvolvimento rumo a evolução cotidiana.

O indivíduo que se mantém na mesma posição como se já fosse o suficiente e sem a postura de aprender o novo ou mesmo reaprender o que já estudou no passado, poder revelar ai também uma postura de autodefesa em relação à mudança. Pois aprender implica sempre em mudar, adquirir novos hábitos, outros comportamentos. Sobre isso, o escritor Leandro Doorneles pontua que “as pessoas buscam mudanças, mas, quando realmente se deparam com a oportunidade de mudarem para melhor, elas simplesmente não se esforçam para se transformarem”.

Na pessoa inflexível à mudança até mesmo o insight, que é uma habilidade cognitiva de conhecimento adquirido mais intuitivamente sobre o modo de funcionamento de si mesmo, capaz de provocar mudanças de comportamento e até mesmo de determinados aspectos da personalidade, se torna superficial. É quando o sujeito passa a compreender tudo apenas do ponto de vista intelectual. Ele relata as possíveis causas do próprio sofrimento, nomeia o que há de errado em si mesmo, mas se contagia pelo racionalismo extremo a ponto de não se tornar um agente de mudança na própria vida.

O saber é importante, desde que isento de inflexibilidade, limites, prazos, regras ou quaisquer barreiras ligadas ao rótulo e ao preconceito. Foi o físico alemão Albert Einstein quem disse que a mente é como o paraquedas, é melhor mantê-los abertos. Afinal, só o saber nem sempre transforma, exceto se aliado à prática.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br