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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

CARNE E ESPIRITUALIDADE


Artigo de Jair Donato

O antropocentrismo é uma visão que concebe o homem como superior ao animal e por isso passa a ser normal eles não terem o direito à vida e serem mortos ao bel prazer para alimentação. Mas, seria mesmo justo sacrificar a vida de um animal para alimentar uma pessoa, principalmente se a vida dessa pessoa não depende da vida do animal? A idéia do vegetarianismo mostra que devem co-existir, homem e animal. Desse ponto de vista, não é ético comer carne. O animal pode ser incapaz de pensar, mas, certamente ele é capaz de sofrer.

Na Índia, por milhares de anos, a alimentação vegetariana foi um princípio de saúde e de ética, que após a invasão muçulmana e a colonização católica na região, houve um triste desgaste nesses princípios, mesmo sendo parcial. Porém, ainda hoje, a preferência dos indianos Hindus é o sistema ovo-lacto-vegetariano. Ao se referir a alimentação, Albert Einstein disse que “A ordem de vida vegetariana, por seus efeitos físicos, influenciará o temperamento dos homens de uma tal maneira que melhorará em muito o destino da humanidade”.

Tenho abordado a questão alimentar vegetariana, não apenas como uma dieta puramente saudável, porque a maneira como se produz vegetais atualmente, cheios de defensivos agrícolas, não podemos dizer que estejam isentos de substâncias nocivas, a exceção do que se consome organicamente cultivado. Mas, fundamentalmente, por não destruir o meio ambiente na mesma intensidade que a produção de carnes.

Sidharta Gautama, o iluminado da tribo dos Sakias, na Índia, há cerca de 3000 anos, disse que “Feliz seria a terra se todos os seres estivessem unidos pelos laços da benevolência e só se alimentassem de alimentos puros, sem derrame de sangue. Os dourados grãos que nascem para todos dariam para alimentar e dar fartura ao mundo”. É preciso muita sensibilidade para entender a essência dessa sábia mensagem.

Mas será que haveria grãos para todo mundo ou ocorreria um colapso se o mundo parasse de comer carne? Poderia ser mais fácil isso acontecer se ninguém mudasse. Hoje, o gado ao redor do mundo consome uma quantidade de alimento que equivale às necessidades calóricas de 8,7 bilhões de pessoas, número de seres humanos que a Terra atingirá até o ano de 2050, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Somente o que é destinado para ração animal, cerca de 35% da produção mundial, eliminaria a fome dos países pouco desenvolvidos.

Em tempos de mudanças climáticas, alimentação vegetariana não é a solução, mas é uma boa ajuda na redução da emissão de gases poluentes na camada do efeito estufa, pois diminui o consumo de carne. O relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que a ONU mostrou ao mundo em 2007 em 04 parciais, confirmou que as mudanças climáticas são conseqüências do uso exacerbado dos recursos naturais pelo homem. Portanto, o consumo consciente e seletivo na alimentação é uma maneira segura de poluir menos.

É antagônico, mas o homem consegue envenenar praticamente tudo o que é produzido para se alimentar, e ainda destrói a biodiversidade do planeta em que vive, como se provocasse o próprio fim. Não seria essa uma forma de autopunição? E o dilema é que a humanidade ainda almeja um ideal tão esperado: a paz mundial.

Contudo, é impossível falar em paz no mundo sem concretizar o amor, o respeito e a ética aos seres vivos e ao meio ambiente. Um dos preceitos da constituição da UNESCO reza que é na mente do homem que a paz começa; que deve ser construída. Ou seja, a consciência é o início de tudo. É hipocrisia o homem desejar a paz mundial e não cuidar do meio ambiente, dos hábitos cotidianos, e, amar a natureza e todas as formas de vida nela existente.

Disse São Basílio que “Os vapores das comidas com carne obscurecem o espírito. Dificilmente pode-se ter virtude ao se desfrutar de comidas e festas em que haja carne”. É uma expressão profunda, mas o ser humano talvez ainda não tenha despertado ética, moral e espiritualmente ao ponto de apreendê-la. Embora, ainda é tempo, inclusive de rever o que se come.

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach -, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com

2 comentários:

Unknown disse...

Ops!!!
Os vapores da carne escurecem a alma..
Em se tratando de escurecimento, há escurecimento as alma, há ESCURECIMENTO global e tbém há ESCURECIMENTO com relação a afetividade e a conecção ser humano com o elementar ou divino e a natureza, causando consequentemente um ESCURECIMENTO nas relações que deixam de ser éticas e transparentes...Já parou para pensar neste aspecto da dita 'Natureza Humana"?
Não cuidamos do nosso habitat principal que é o CORPO (matriz da identidade de cada ser), ingerindo alimentos poucos saudaveis, vida atribulada e com ausencia de relacionamentos saudaveis.
PERGUNTO: como podemos cuidar de nosso planeta? e a priori o ser humano tem uma baita crise de identidade ou falta dela...sei lá..
Parabéns pelo artigo!!

DomNato disse...

Verdade carlinha, pela razão de não se cuidar tão bem do habitat interior, despreza-se facilmente o habitat exterior.
Na verdade há uma perfeita conexão, que não existe isoladamente o interior fora do exterior, e vice-versa.
Somos todos UM, uma grande vida! Precisamos mesmo é dessa consciência!
Tanks!