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sábado, 2 de maio de 2009

CHAPADA DOS GUIMARÃES PODE SECAR



Artigo de Jair Donato

Foi esse o título da reportagem que publiquei em 2001, ocasião em que despertou meu interesse mais amplo sobre as questões ambientais. De lá para cá muita coisa ainda não mudou. Mas, não desistirei. O enfoque da matéria, na ocasião, era sobre o potencial hídrico do município de Chapada dos Guimarães, essa beleza exuberante, com formações exóticas, desenhadas secularmente pela chuva e pelo vento desde há 15 milhões de anos. O que foi gelo há meio bilhão de anos, fundo do mar 300 milhões de atrás e tomou a forma atual após o surgimento da Cordilheira dos Andes, hoje está secando. Quem diria?

As fontes de água que abastecem a cidade já não são as mesmas nas últimas décadas. Dentre os fatores que mais contribuíram para o desequilibro da região, a interferência humana é destacável. O próprio cultivo desatencioso, o garimpo, as pastagens e construções irregulares, comprometem ao longo do tempo o paraíso de recursos naturais que é a Chapada, além de levarem várias espécies à extinção.

Pesquisadores mostraram através de estudos que a situação erosiva, principalmente no Parque Nacional de Chapada dos Guimarães, se agravaram mais pelas atividades do homem do que pelo fenômeno natural do meio ambiente. Conheci, ainda no final da década de 1980 as belezas de Chapada e lembro-me da areia natural da cachoeira principal da Salgadeira. Cachoeira que só existe hoje por causa de uma construção que garantiu o não desmoronamento do local. A falta de consciência é o que rege qualquer destruição.

O assoreamento dos rios, as erosões, a seca das nascentes, as queimadas desenfreadas castigaram muito a exuberância chapadense. Esse é um triste foco que se repete em todo o estado, único que abriga 03 biomas fascinantes, o Cerrado, o Pantanal e a Amazônia. Além da Chapada, tem o Araguaia, a beleza indígena, belíssimos vales e muita história secular.

O alerta continua. Se o homem não rever a posição que ocupa em relação ao meio em que vive, toda a riqueza natural que hoje ainda está visível pode apenas fazer parte da história. E questiono, que história? Será contada pra quem? Afinal, é a capacidade do homem viver na Terra que está em risco.

Na indescritível Chapada, desde as belas cavernas de arenito, cachoeiras, canyons, penhascos, paredões, grutas, riachos e mirantes, tudo se apresenta frágil diante da falta de sensibilização humana, que ainda explora mais do que repõe. Isso acontece também nas demais localidades do Estado, no País e de forma global. Esse é o maior entrave que provoca as alterações climáticas, a exemplo do aquecimento global.

A preocupação com os recursos hídricos, estudo de vários pesquisadores, deveria ser uma preocupação de todos.O Brasil ainda é recorde em desperdício de água por habitante no mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Talvez essa falta de consciência quanto ao uso exacerbado de água se dá pela falta de valor e o descaso em relação a esse bem. O País é o maior potencial hídrico mundial e por isso muitos devem pensar que água é um recurso infinito.

Mas, o abuso provoca perdas irreversíveis. Ainda é tempo de mudar, a começar pela casa de cada um. Á água utilizada no banheiro, na cozinha, na lavanderia, no jardim, tudo isso pode ser revisto, assim como o cuidado com a eliminação de vazamentos. São pequenas ações, contudo, de grande valia. E esse mesmo cuidado é o que vale para o cerrado, aonde brota a água. E para as matas, aonde correm os rios.

Na Carta da Terra, documento elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), consta no referencial sobre responsabilidade universal: “Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um modo no qual as dimensões local e global estão ligadas. Cada um compartilha da responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem-estar da família humana e de todo o mundo dos seres vivos.”

O que dirão as gerações futuras diante da irresponsabilidade humana, quando não encontrarem as mesmas belezas que existem hoje? Por que vocês não fizeram nada antes? Se assim perguntarem, o que dizer a eles? Para que situação seja diferente depois é preciso que tudo comece a ser feito agora. Necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente, sinaliza a Unesco.

As belezas que existem no cerrado da Chapada, no Pantanal, na Amazônia, e todas as demais riquezas naturais disponíveis, são dádivas. O que falta é gratidão, cuidado, amor, ética e consciência. Se cada um cuidar, nada pode secar.

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jairdomnato@gmail.com

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