Total de visualizações de página

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

EXPECTATIVA E FRUSTRAÇÃO
Artigo de Jair Donato* 

Por que muita gente espera do outro aquilo que ela mesma talvez nunca possa oferecer? Lidar com as expectativas é uma habilidade e quem não a possui pode gerar doenças. A pessoa que espera muito do outro ou faz o que ele não pediu, pode criar uma expectativa que posteriormente não corresponderá ao esperado, e com isso pode frustrar-se e somatizar algum tipo de patologia.

O indivíduo desenvolve a tendência de traduzir o mundo externo conforme os moldes internos que possui, e por vezes enclausurar-se nesse próprio universo. Dessa maneira ignora todas as incongruências adjacentes em si, no outro e no ambiente ao redor dele. Pois nem sempre o mapa é o território. Ou seja, parte do que forma a realidade de um indivíduo não é sedimentada em fatos, e sim nas próprias interpretações, percepções internas.

O filósofo Michel Foucault define que o indivíduo nunca está diante de um objeto real concreto, e sim de um objeto real de conhecimento, algo construído por ele mesmo. O próprio contexto cultural, ambiental e familiar é propício para formação dessa construção.

O descontentamento poderá surgir quando se espera ou exige demais dos outros, a exemplo da mãe que espera que os filhos realizem os desejos que são dela, e não deles. É o exemplo do pai ou da mãe que praticamente obriga os filhos a cursarem na universidade o curso que tem haver com a frustração dos próprios pais, e não com a realização dos filhos. Ou então, a esposa que espera que o marido seja o modelo ideal que ela mesma criou, e têm dificuldades de aceita-lo como ele é. Isso se traduz numa falta de respeito à individualidade do outro, quando se espera que ele aja conforme o que o indivíduo espera ou acha que seja certo.

Então, é importante compreender a posição do outro na vida, mesmo que ele seja seu parceiro por uma vida inteira. Evitar moldar o comportamento dele para não contrariar o seu pode ser a forma certeira de evitar o afastamento e a perda de afinidades, devido à pressão e sufoco provocados. Afinal, cada pessoa tem um canal de percepção sensorial que se distingue conforme a cultura, o meio em que vive, a linguagem que lhe é comum e às crenças que possui. Essa diversidade merece respeito.

A enfermeira australiana Bronnie Ware, após convivência durante anos com doentes terminais, publicou em um livro os cinco maiores arrependimentos que as pessoas têm antes da hora da morte. E o primeiro deles se refere a frustração de não ter  aproveitado a vida do jeito delas, e sim da forma que os outros queriam. Isso é frustrante. Segundo a autora, é na hora que a vida chega ao fim que fica mais fácil perceber quantos sonhos foram deixados para trás, em prol de agradar mais aos outros do que a si mesmo.

Quantas mães fizeram sacrifícios pelos filhos, esposas que fizeram tanto pelos maridos, e vice-versa, um amigo que fez o máximo pelo outro. Mas, será mesmo que eles pediram isso? No entanto, foi colocado um tempo nisso. Então, no fim da vida, é como se a pessoa que se dedicou tanto pensando em agradar, cobrasse pelo que fez, numa espécie de acerto de contas. Daí surge a frustração, o descontentamento e até mesmo a mágoa. “Fiz tanto por você e isso é o que recebo de volta?”, esse é um típico comentário que retrata tal fato. Talvez, não haja declaração mais frustrante do que o arrependimento pelo que poderia ter sido feito antes. E você, o que ainda não fez por você, mas que poderia?


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

Nenhum comentário: