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terça-feira, 6 de setembro de 2016

É GOLPE?
Artigo de Jair Donato

Por que é difícil lidar com determinadas características da personalidade humana? Há quem se justifica o tempo todo, pressupõe, agride se for o caso, encoleriza-se, e até age como vitima, como se sempre estivesse correta. Admitir um erro? Difícil, parece mais fácil viver no campo da autodefesa ou do ataque. A intransigência talvez seja o maior entrave na vida do ser humano. Afinal, constitui-se em nobreza o ato de admitir que em determinado momento ou em devida função possa ter falhado, errado e até ter se tornado não merecedor de algo.

É pela força do ego que o indivíduo age de tal forma que não vê a possibilidade de enxergar a si mesmo. Então cria subterfúgios para se convencer de que sua posição é a de vítima, não de alguém que deva prestar contas. Não admitir que possa falhar já é a falha em si mesmo. Na política isso é perceptível, quando políticos mesmo com provas contundentes sobre uma série de situações irregulares, e até condenados, não admitem que erraram. E isso é algo que ocorre em escala nos vários setores, é torpe do ser humano. E o mundo corporativo também não está isento.

Vejo muitas pessoas que chefiam organizações e fazem uso dos cargos que possuem como válvula de escape para as próprias frustrações íntimas. Enquanto a genuidade no ato de servir, o que é relevante, praticamente inexiste. Tudo o que fazem é para defenderem os próprios interesses, e os de quem os interessa, mas não ao coletivo. Você pode estudar a história de um líder-exemplo, seja estadista político ou de outra área, e constate que o perfil dele não se assemelha com quem usa o poder para se manter, e não para ser base para o bem comum.

Veja como Gandhi, Mandela dentre uma série de nomes na esfera global se comportaram frente aos desafios da perda e da oposição que tiveram, e não foram poucos. Ocorre que o indivíduo por vezes projeta no mundo e nas pessoas o conteúdo interno dele, sem ao menos refletir sobre o impacto disso. O que você acha que traz dentro de si uma pessoa que se declara como vítima das normas, da legislação e das autoridades, denominando a tudo de golpe? Que projeção pode ser essa, afinal?

O ser humano precisa desenvolver a habilidade para a perda, pois esse é um ganho para lidar bem com as próprias emoções. Há quem não lida bem com a perda, seja de uma oportunidade, do emprego, de um cargo ou até da vida, quando se esvai um ente querido. Perda e ganho são duas faces de uma moeda que apenas se fortalece, se souber investir nela. Se você encontra alguém que só perde o tempo inteiro, ou só ganha sem cessar, deve haver algo de errado nessa equação; nela falta equilíbrio. Mas, a junção dessas duas esferas é uma habilidade que poucos nobremente a consegue.

Então o que resta aquele que é forçado a uma perda, sem admitir que nela tenham responsabilidades? Geralmente bate em retirada, mas com o desejo de vingança, senão uma profunda mágoa que irá golpeá-la a si mesmo. São os mecanismos de defesa ligados a pulsão de morte que entram no campo de escolhas do indivíduo. Afinal, todo aquele que se vitimiza, está golpeando o que além da própria história?

Golpe é negar, desprezar opinião contrária para defender o próprio umbigo. É se recusar a ver ou admitir os próprios entraves. Isso é peculiar às pessoas inflexíveis, resistentes à mudança, pouco disponíveis ou preocupadas com o bem comum. Saber ouvir desarmado de revide, refletir sobre uma crítica recebida de peito aberto sem se justificar ou se defender, não é para qualquer um. Os profissionais que trabalham na área do relacionamento humano e da gestão de pessoas sabem a importância de perceber e lidar com os diferentes níveis de perfis quando se trata do comportamento. O que justifica manter uma visão de que está sempre certo?


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, professor universitário, palestrante, consultor e especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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