Total de visualizações de página

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

INVERSÃO INCONSCIENTE



Artigo de Jair Donato

Certa ocasião quatro mendigos se encontraram sincronicamente numa encruzilhada da Algéria: um turco, um árabe, um persa e um grego. Para celebrar o acontecimento decidiram fazer uma refeição festiva. Então providenciaram uma cota e cada um após o outro, despejava alguns trocados para ver quanto daria. Mas o que iriam comprar com o dinheiro?
- Uzum, disse o turco.
- Ineh, disse o árabe.
- Inghûr, disse o persa.
- Staphilion, disse o grego.

Cada um havia expressado o próprio desejo em um tom que parecia excluir qualquer possibilidade de entendimento. Surgiu uma discussão violenta e teria havido ali mesmo um conflito se um dervixe poliglota não tivesse aparecido entre eles e se oferecido para revelar o que queriam dizer. Com palavras diferentes, explicou o entendido, vocês quatro querem a mesma coisa: Uvas.

Este conto de Gerard de Nerval é oportuno para uma reflexão sobre a forma de expressão que o homem faz em prol da natureza e o cuidado com o meio ambiente. Não há ninguém em sã consciência que não deseje viver bem e em clima agradável, num lugar onde possa respirar, se alimentar e se servir das múltiplas opções que a biodiversidade pode oferecer.

Mas, qual a razão para destruir o próprio habitat? O que leva o ser humano a destruir a grande casa em que vive? O comportamento atual do homem se confunde em meio a uma inversão inconsciente, rumo à extinção do que representa a vida, a partir do conflito acerca dos próprios interesses e o contexto sócio-ambiental. O consumo irracional dos recursos naturais, a contaminação do solo, do ar e da água é uma forma inconsciente de derrocar a própria caminhada e destruir o caminho a percorrer para as gerações futuras. É como se dissesse a si próprio, caso o inconsciente verbalizasse: já que eu destruo, mereço sofrer. Assemelha-se mesmo a uma atitude de auto-sabotagem e perversão.

Foi divulgado recentemente ao mundo o mais completo levantamento já feito sobre o impacto humano nos oceanos, em uma das últimas edições da revista científica Science. O estudo mostra que não existe mais uma gota de água nos oceanos que não tenha sido afetada de alguma forma pela ação do homem. Quase metade da superfície oceânica, mais de 40% está sob forte pressão de atividades humanas, como pesca e poluição. Apenas 4% permanecem relativamente livres de impacto, nas regiões do Ártico e da Antártida, onde o homem tem dificuldade para chegar.

E as geleiras por lá andam derretendo em proporções assustadoras. Segundo os cientistas que apresentaram esse estudo, os efeitos mais severos na água têm relação com o aquecimento global. Áreas como costa Sudeste do Brasil, o Mar do Norte e o Mar da China, onde há forte concentração de navios e atividade industrial, já sofrem esse impacto da poluição de forma severa.

Mais que políticas ou imposições, é preciso muita consciência acerca do que deve se preservar e conservar, Essa é a condição essencial para manter a vida no ciclo natural. Mas, as línguas ainda parecem estranhas quando se fala nesse assunto. O capitalismo grita alto e o mercantilismo corrompe a ética e o senso moral para resguardar o interesse de uma parcela que ainda produz sem repor o que destrói. E essa não é uma linguagem comum quando se considera o tripé da sustentabilidade, que além do crescimento econômico, visa fundamentalmente a relação prática e efetiva com o social e o meio ambiente. O que fugir disso será sempre um pseudo crescimento que não subsidia o que se perde.

O escritor Rubem Alves disse que antes que qualquer árvore seja plantada, ou que qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardins por dentro não tem jardins por fora. E nem passeia por eles.

A humanidade é parte de um vasto Universo em expansão, diz a Carta da Terra. Mas, o homem se mostra confuso, numa inversão de valores sobre si mesmo e o meio ambiente. Pois nem sempre ele age como parte e pensa como se fosse o centro. É preciso um repensar nas ações. Consciência urgente!

Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jairdomnato@gmail.com

Um comentário:

Anônimo disse...

intiresno muito, obrigado