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terça-feira, 4 de novembro de 2014

TRAMA E URDIDURA
Artigo de Jair Donato 

Nos princípios da tecelagem artesanal dois termos eram muito utilizados, embora em desuso após a fiação industrial, são ricos em analogia com a vida humana. São eles, a trama e a urdidura. Para quem possui a habilidade com a arte do tear na confecção de peças como vestimentas, acessórios, cortinas, redes, cobertores e tapeçarias sabe lidar com uma infinidade decorativa de beleza ímpar.

Essas duas estruturas são essenciais. A urdidura é o conjunto de fios do mesmo tamanho posicionados longitudinalmente ao longo do tear. E a trama é formada pelas linhas dispostas transversalmente que transitam com liberdade por entre os fios da urdidura através de uma agulha, formando o tecido de forma simples ou com belas gravuras conforme a criatividade de tecelão.

A urdidura fica numa posição fixa como base para que se estabeleça a criatividade da trama que delineia no horizonte, caracterizando desenhos concebidos pelo artesão. Paisagens, aves, nuvens, riachos, estações, gravuras, figuras humanas, tudo é possível quando a trama é lançada perpassando as trilhas da urdidura. Não há limites no mundo das formas quando há convergência entre a uma e outra. A trama é o fio que corre por cima e por baixo, sempre entre o conjunto de fios de urdidura. Ela percorre as mais variadas posições para formar o tecido.

Assim é a vida do homem. Analogamente, a urdidura representa o potencial humano, essencialmente o que ele é desde o nascimento. Todos nascem com uma força potencial imutável. Isso também é denominado de capacidade latente ou limiar intrínseco. Pode ser comparado à força vertical que faz fluir a vida, que mantêm as células vivas e o equilíbrio do organismo para que ele não pereça. Contudo, o destino de cada um no tear da vida, assim como a trama, toma diferentes rumos. E delineia os mais diversos comportamentos através da “agulha” denominada atitude.

A trama individual, ou seja, a atitude de cada indivíduo através do potencial que possui por natureza, poderá produzir resultados inusitáveis. A trama equipara-se a competência que pode ser desenvolvida para produzir obras primas como os inventores, pintores, músicos, artistas em geral, industriários e futuristas fazem. Já a urdidura representa à fonte, o fôlego da criação, aquilo que sustenta.

Parece que a trama tece labirintos formidáveis por si só. Mas, ela depende da urdidura, que necessita de uma postura rígida, posição firme, que atua como princípio básico. Da mesma forma, embora as pessoas pareçam construir proezas por si mesmas, elas nada seriam se não fossem providas pela força latente comum a todos. Força essa que se renova continuamente e potencializa as competências. Trama e urdidura juntas se convergem e geram sinergia. E qual é a lição? Ninguém constrói nada sozinho. Pois há uma interdependência no tear da vida. Esse movimento nas ações coletivas se resulta no trabalho em equipe.

O fio da urdidura é mais fino do que a trama. Assim como o potencial humano, que é mais rarefeito do que a competência expressa. A urdidura pode comparar-se ao mundo das ideias, enquanto a trama equipara-se ao mundo do projeto materializado, ao destino do homem. Se a urdidura frouxar ou deslocar-se, desaparece a beleza da trama que sozinha nada constrói. Assim também será o indivíduo quando perde a vitalidade, a trama dele, ou seja, os feitos deixam de ser produzidos e chegará ao fim.

Cada ser humano conduzirá a trama do próprio destino conforme os valores que possui. Em essência, a verticalização da urdidura representa o grau de consciência em cada momento de escolha. Então, como está a gestão no tear da sua vida?


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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