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terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A MORTE NO MERCADO
 Artigo de Jair Donato

Não se pode confiar nos motivos conscientes para explicar o comportamento humano. Ou seja, o comportamento nunca é determinado apenas por forças externas, é que afirma o renomado psiquiatra Karl Menninger, expoente da corrente psicossomática, na obra “O homem contra si próprio”. Segundo ele, há impulsos de dentro, cujo ajustamento à realidade externa cria pressões e tensões que podem ser muito dolorosas, embora toleráveis para muitos, enquanto para outros esses impulsos se transformam em tendências suicidas.

Ao abordar sobre a tendência suicida do ser humano, elucidada por Freud, na psicanálise, dr. Menninger aborda claramente sobre a ideia de que a pessoa inexoravelmente para os próprios propósitos inconscientes, encontra na realidade uma aparente justificativa para a autodestruição. Elas de algum modo levam a si mesmas a destruírem-se. Isso pode ser desde um vício que perdura, pequenos acidentes e até doenças. São impulsos autodestrutivos que permeiam no decorrer da vida.

Existe uma passagem de que havia na antiguidade em Bagdá um renomado e próspero comerciante de tapetes persas. Ele tinha uma loja tradicional e importante na cidade, permeada por muitos servos que cuidavam do pesado trabalho do transporte e da exibição de raros e enormes tapetes orientais. O comércio possuía também profissionais especializados em incontáveis técnicas da tapeçaria, que conferiam excelência, raridade e valia das diversificadas peças.

Certa ocasião, um dos servidores daquele comerciante, que além de competente profissional, tornara-se amigo íntimo de patrão, pediu permissão para que fosse ao mercado encontrar-se com um renomado comerciante que trazia da Pérsia grande quantidade de tapetes para serem colocados à venda. Recebeu autorização e seguiu numa agradável tarde de sol iraquiano. Mas, de repente aquele servo voltou apressadamente do mercado, pálido, ofegante e amedrontado. Ele chamou o patrão, e assombrado lhe disse que havia esbarrado com a morte na praça do mercado e fora ameaçado por ela. Por isso desejava fugir o mais depressa possível para Samarra, uma cidade vizinha, onde certamente ela não o encontraria. Ele pressentiu que não poderia ficar ali, pois aquela figura estranha poderia vir atrás dele. Então, ao fugir ele ficaria protegido.

Diante do desespero naquele pedido, o senhor deixou-o ir. Entretanto, bastante impressionado com o que havia lhe contado o amigo servo, a curiosidade sobre o assunto fez com que ele se dirigisse a praça do mercado para conferir aquilo que acabara de ouvir. Ao chegar lá de longe avistou a morte em frente a uma das portas do recinto. Encheu-se de coragem e dela se aproximou. Perguntou-lhe porque ameaçara o servo dele. Ao que a ela respondeu: - Não senhor, não fora uma ameaça. Meu olhar foi um gesto de grande surpresa por ver aqui em Bagdá o homem com quem tenho um encontro marcado nesta noite lá em Samarra.

São diversos os casos retratados que fazem lembrar esse conto. São inconvenientes, pequenos incidentes do cotidiano ou fatos constrangedores a que a própria pessoa acaba se expondo como numa espécie de atração inconsciente. Até mesmo um acidente ou a mutilação do corpo pode ocorrer por motivos que não são conhecidos pelo indivíduo no âmbito do consciente.

Há situações em que as pessoas sem perceberam sabotam a si, seja a carreira profissional, a vida financeira, o relacionamento amoroso, as amizades e até colocam em risco a integridade física. E como posição de defesa, por vezes escolhem a fuga. Mas dificilmente fogem do próprio script, da história que se desenrola antes, por dentro de cada um. Então, conhecer-se melhor pode ser mais proveitoso. Afinal, você sabe quais são seus medos?


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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