A MORTE NO MERCADO
Não
se pode confiar nos motivos conscientes para explicar o comportamento humano.
Ou seja, o comportamento nunca é determinado apenas por forças externas, é que
afirma o renomado psiquiatra Karl Menninger, expoente
da corrente psicossomática, na obra “O homem contra si próprio”. Segundo ele, há
impulsos de dentro, cujo ajustamento à realidade externa cria pressões e
tensões que podem ser muito dolorosas, embora toleráveis para muitos, enquanto
para outros esses impulsos se transformam em tendências suicidas.
Ao
abordar sobre a tendência suicida do ser humano, elucidada por Freud, na
psicanálise, dr. Menninger aborda claramente sobre a ideia de que a pessoa
inexoravelmente para os próprios propósitos inconscientes, encontra na realidade
uma aparente justificativa para a autodestruição. Elas de algum modo levam a si
mesmas a destruírem-se. Isso pode ser desde um vício que perdura, pequenos
acidentes e até doenças. São impulsos autodestrutivos que permeiam no decorrer
da vida.
Existe uma passagem de que havia na
antiguidade em Bagdá um renomado e próspero comerciante de tapetes persas. Ele
tinha uma loja tradicional e importante na cidade, permeada por muitos servos
que cuidavam do pesado trabalho do transporte e da exibição de raros e enormes
tapetes orientais. O comércio possuía também profissionais especializados em
incontáveis técnicas da tapeçaria, que conferiam excelência, raridade e valia
das diversificadas peças.
Certa ocasião, um dos servidores
daquele comerciante, que além de competente profissional, tornara-se amigo
íntimo de patrão, pediu permissão para que fosse ao mercado encontrar-se com um
renomado comerciante que trazia da Pérsia grande quantidade de tapetes para
serem colocados à venda. Recebeu autorização e seguiu numa agradável tarde de
sol iraquiano. Mas, de repente aquele servo voltou apressadamente do mercado, pálido,
ofegante e amedrontado.
Ele chamou o patrão, e assombrado lhe disse que havia esbarrado com a morte
na praça do mercado e fora ameaçado por ela. Por isso desejava fugir o mais
depressa possível para Samarra, uma cidade vizinha, onde certamente ela não o
encontraria. Ele pressentiu que não poderia ficar ali, pois aquela figura estranha
poderia vir atrás dele. Então, ao fugir ele ficaria protegido.
Diante do desespero naquele pedido, o
senhor deixou-o ir. Entretanto,
bastante impressionado com o que havia lhe contado o amigo servo, a
curiosidade sobre o assunto fez com que ele se dirigisse a praça do mercado para
conferir aquilo que acabara de ouvir. Ao chegar lá de longe avistou a morte em
frente a uma das portas do recinto. Encheu-se de coragem e dela se aproximou. Perguntou-lhe
porque ameaçara o servo dele. Ao que a ela respondeu: - Não senhor, não fora uma
ameaça. Meu olhar foi um gesto de grande surpresa por ver aqui em Bagdá o homem
com quem tenho um encontro marcado nesta noite lá em Samarra.
São diversos os casos retratados que
fazem lembrar esse conto. São inconvenientes, pequenos incidentes do cotidiano
ou fatos constrangedores a que a própria pessoa acaba se expondo como numa
espécie de atração inconsciente. Até mesmo um acidente ou a mutilação do corpo
pode ocorrer por motivos que não são conhecidos pelo indivíduo no âmbito do
consciente.
Há situações em que as pessoas sem
perceberam sabotam a si, seja a carreira profissional, a vida financeira, o
relacionamento amoroso, as amizades e até colocam em risco a integridade
física. E como posição de defesa, por vezes escolhem a fuga. Mas dificilmente
fogem do próprio script, da história que se desenrola antes, por dentro de cada
um. Então, conhecer-se melhor pode ser mais proveitoso. Afinal, você sabe quais
são seus medos?
Jair Donato - Jornalista em
Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário,
especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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