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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

CARNE E ESPIRITUALIDADE
Artigo de Jair Donato

O antropocentrismo é uma visão que concebe o homem como superior ao animal e por isso passa como se fosse normal eles não terem o direito à vida e serem mortos ao bel prazer para alimentação. Mas, seria mesmo justo sacrificar a vida de um animal para alimentar uma pessoa, principalmente se a vida dessa pessoa não depende da vida do animal? A idéia do vegetarianismo mostra que devem coexistir, homem e animal. Desse ponto de vista, não é ético comer carne. O animal pode ser incapaz de pensar, mas, certamente ele é capaz de sofrer.

Na Índia, por milhares de anos, a alimentação vegetariana foi um princípio de saúde e de ética, que após a invasão muçulmana e a colonização católica na região, houve um triste desgaste nesses princípios, mesmo sendo parcial. Porém, ainda hoje a preferência dos indianos Hindus é o sistema ovolactovegetariano. Ao se referir a alimentação, Albert Einstein disse que “A ordem de vida vegetariana, por seus efeitos físicos, influenciará o temperamento dos homens de uma tal maneira que melhorará em muito o destino da humanidade”.

Tenho abordado a questão alimentar vegetariana, não apenas como uma dieta puramente saudável, porque a maneira como se cultiva vegetais atualmente, cheios de defensivos agrícolas, não é possível dizer que estejam isentos de substâncias nocivas, a exceção do que se consome organicamente cultivado. Mas, fundamentalmente, por não destruir o meio ambiente na mesma intensidade que a produção de carnes.

Sidharta Gautama, o iluminado da tribo dos Sakias e fundador do budismo na Índia, há cerca de 3000 anos, disse que “Feliz seria a terra se todos os seres estivessem unidos pelos laços da benevolência e só se alimentassem de alimentos puros, sem derrame de sangue. Os dourados grãos que nascem para todos dariam para alimentar e dar fartura ao mundo”. É preciso muita sensibilidade para entender a essência desta sábia mensagem.

Mas será que haveria grãos para todo mundo ou ocorreria um colapso se o mundo parasse de comer carne? Poderia ser mais fácil isso acontecer se ninguém mudasse. Hoje, o gado ao redor do mundo consome uma quantidade de alimento que equivale às necessidades calóricas de 8,7 bilhões de pessoas, número de seres humanos que a Terra atingirá até o ano de 2050, chegando aos 9 bilhões, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Somente o que é destinado para ração animal, cerca de 35% da produção mundial, eliminaria a fome dos países pouco desenvolvidos.

Em tempos de mudanças climáticas, alimentação vegetariana não é a solução, mas é uma boa ajuda na redução da emissão de gases poluentes na camada do efeito estufa, pois diminui o consumo de carne. Os relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que a ONU apresenta ao mundo anualmente em 04 parciais, têm confirmado que o maior fator para as alterações no clima do planeta são consequências do uso exacerbado dos recursos naturais pelo homem. Portanto, o consumo consciente e seletivo na alimentação é uma maneira segura de poluir menos.

É antagônico, mas o homem consegue envenenar praticamente tudo o que é produzido para se alimentar, e ainda destrói a biodiversidade do planeta em que vive como se provocasse o próprio fim. Não seria essa uma forma de autopunição? E o dilema é que a humanidade ainda almeja um ideal tão esperado: a paz mundial.

Contudo, é impossível falar em paz no mundo sem concretizar o amor, o respeito e a ética aos seres vivos e ao meio ambiente. Um dos preceitos da constituição da UNESCO reza que é na mente do homem que a paz começa; que deve ser construída. Ou seja, a consciência é o início de tudo.  É hipocrisia o homem desejar a paz mundial e não cuidar do meio ambiente, dos hábitos cotidianos, e, amar a natureza e todas as formas de vida nela existente.

Disse São Basílio que “Os vapores das comidas com carne obscurecem o espírito. Dificilmente pode-se ter virtude ao se desfrutar de comidas e festas em que haja carne”. É uma expressão profunda, mas o ser humano talvez ainda não tenha o despertar ético e moral como base da espiritualidade ao ponto de apreendê-la. Contudo, ainda é tempo, inclusive de rever o que se come.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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