A PERSONALIDADE E A CASA
Artigo de Jair Donato
Você já analisou como se sedimenta a construção de uma casa? Enquanto
umas são frágeis, não suportam peso ou grandes alterações na estrutura. Outras
são fortes. O primeiro passo para iniciar a construção é o alicerce, é o que dá
base. É um processo que se caracteriza pela a profundidade para sustentação das
colunas, a espessura e demais aspectos que possam garantir o levantamento da
obra. O tamanho e a fortaleza de uma casa dependerão do alicerce que tiver,
caso contrário, ela não suportará o peso da edificação. O alicerce ainda não é
a casa, mas a construção a ser feita será sempre conforme o peso que a base
estrutural inicial suportará.
Embora possa parecer rústico, é possível fazer uma analogia desse
exemplo com a personalidade humana, que também é uma construção cujo início é nos
primeiros anos de vida. Afinal, porque existem pessoas mais fortes em alguns
momentos, enquanto em outros não? É na infância que a base, e não
personalidade, de um indivíduo é estabelecida, Ela se forma por traços que
suportarão ou não o que vier nas fases seguintes da vida na construção da
personalidade. Ou seja, os valores, a educação, a orientação inicial equivalem
às colunas e a profundidade da base da construção de si. A qualidade do
material na construção do prédio equipara-se aos estímulos e a percepção obtida
pelo indivíduo.
Nem todo mundo tem consciência da profundidade que possui a base da
casa em que habita, nem a qualidade dos materiais utilizados nela, tampouco se
as colunas suportam muito peso. Tanto que se forem fracas e agirem em
desconformidade a isso, haverá desmoronamento, como ocorre em determinadas
construções civis quando há irresponsabilidade de quem projeta e constrói um imóvel.
Analogamente, nem todo indivíduo tem consciência dos próprios limites
quando recebe as sobrecargas do destino. Uma pessoa pode morar numa casa por
décadas de forma segura, mas se num repente resolve, construir acima dela outro
andar, ou se por uma catástrofe natural uma árvores cai sobre ela, ou qualquer
outro objeto pesado, haverá destruição em consequência disso. O mesmo pode
ocorrer com o ser humano, que pode viver por décadas dentro de uma zona
psicológica e aporte emocional que lhe dê segurança. Pode até ser o alicerce da
família e dos amigos. Mas, por um percurso do destino, ao ocorrer um evento inesperado
na vida dele, sem base suficiente ele poderá perder o equilíbrio, entrar em
surto e desconhecer a si mesmo.
Há desequilíbrios mentais que se desencadeiam em pessoas até então
equilibradas a partir de episódios inesperados, como a perda repentina de um
ente querido, o fracasso na vida ou qualquer outro evento, cuja base interna
não suporta tal experiência. É aí que a pessoa percebe que nela não havia uma
estrutura sólida capaz de suportar tamanho peso. Alguns eventos podem significar
muito pouco para uns, enquanto para outros as mesmas ocorrências chegam a tirar
o equilíbrio delas. São os traços, tudo se liga na base.
É por isso que a personalidade não é algo construído exclusivamente na
infância. A base é que vem de lá. Através da psicanálise, Freud definiu que
essa base da personalidade é formada por traços advindos dessa fase da vida. Um
adulto pode conter traços evidentes de uma neurose histérica ou obsessiva, e
isso nunca ser inconveniente na vida dela, enquanto outras podem perder o
equilíbrio a cada susto que levam, e desenvolver vários transtornos. Sob essa
ótica, qualquer pessoa poderá sofrer um surto a qualquer momento, frente a
qualquer situação. Ninguém está a salvo disso, vai depender da base que possui.
São os traços, as referências internas.
Logo, a construção da personalidade é algo que ocorre todos os dias,
até o fim da vida. Assim como numa casa, que não fica exatamente pronta após a
base ser solidificada. Mesmo após o levantamento da parede, teto, reboco, pintura,
assentamento de portas, janelas, instalação de parte elétrica, hidráulica, e
demais acessórios, necessitará de manutenção e reformas periódicas. Será
necessário reformá-la de tempos em tempos, ora muda-se uma porta de lugar, abre
outra janela, troca o piso, retoca a pintura, enfim, é uma construção contínua
enquanto nela houver moradores.
Por isso é que o ser humano é uma complexidade que pode construir-se e
reconstruir-se sempre. Afirmar que a “pessoa é assim”, que “não pode mudar mais
nada na vida dela” é semelhante ao proprietário de uma casa que diz que não
precisará nunca reforma-la nem fazer reparos nela só porque já está de pé. Qual
será a consequência? Com o tempo, o lixo tomará conta dessa morada, as paredes
ruirão e toda a base cederá facilmente, assim como a pessoa que deixa de cuidar
de si e aperfeiçoar-se.
Ter um projeto de vida, buscar ajuda
profissional para superar algo que provoca sofrimento, ter fé, dedicar-se a um
ideal são reformas em si mesmo. Isso equivale às vigas colocadas numa casa frágil
que a faz revigorar. Qualquer indivíduo, mesmo reconhecendo as fragilidades que
possui, poderá conviver bem consigo e com qualidade de vida. Afinal, ninguém é
tão forte, tão impenetrável que não tenha fragilidades. Então, como está sua
casa, sua base?
Jair Donato -
Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor
universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br
Nenhum comentário:
Postar um comentário