PROJEÇÃO
Artigo
de Jair Donato
Por
que determinados comportamentos simples de uma pessoa incomodam tanto a outra,
enquanto nada significa para alguém que talvez esteja no mesmo ambiente? Já
ocorreu com você de se irritar com a fala, gesto ou modo como alguém conduz uma
ação, enquanto para outras pessoas ao seu redor o mesmo estímulo parecia
agradável e fonte de admiração? Frequentemente vejo pessoas criticarem
determinadas situações ou estilos de outrem ao se comportarem, quando tudo que
elas queriam era ter aquela mesma espontaneidade de agir, mas se reprimem o
tempo todo enquanto atacam como defesa para se esconderem de si mesmas.
Projeção
é um fenômeno da mente humana. Trata-se de um mecanismo que se dá cada vez que
o indivíduo atribui a outra pessoa os próprios sentimentos, pensamentos e
emoções inaceitáveis ou mesmo defeitos pessoais que não pretende aceitar.
Projetar quer dizer arremessar. Para a psicologia a projeção é um mecanismo de
defesa. Ela pode ser algo que permite uma diminuição de ansiedade cada vez que
o sujeito irradia no outro determinado impulso indesejável ou não,
principalmente pela via do inconsciente.
A
corrente psicanalítica encetada por Freud desenvolveu a teoria da Projeção, que
explica que geralmente quando o indivíduo abriga sentimentos ameaçadores,
reprimidos e que não deseja tomar ciência deles, isso é arremessado, projetado
em alguém. É um movimento em que o indivíduo repele e expulsa dele mesmo sejam
qualidades, sentimentos, desejos ou mesmo objetos que ele recusa e também
desconhece. Em seguida localiza isso no outro, pessoa ou situação,
Um
exemplo dessa natureza é o comportamento que a pessoa adquire de culpar os
outros pelo próprio fracasso. Isso porque se torna mais cômodo e menos doído
atribuir a culpa a outrem do que tomar consciência da falha cometida. Este pode
ser um movimento que se replicará por toda a vida, exceto se ela buscar ajuda
para tornar consciente a própria fraqueza e provocar a mudança. Mas, o
indivíduo pode achar isso muito caro e para não investir nessa empreitada, ele passa
a vida inteira em fuga. Contudo, se arriscasse poderia ver o que o barato, ou
seja, permanecer como está é o que lhe custa muito mais. Afinal, ele banca isso
só para não se expor a si mesmo.
Tais
conteúdos projetivos podem ser advindos desde ao longo da infância ligados à
repressão, ao medo da castração, dentre outros equivalentes psíquicos e que no
percorrer do tempo, embora atemporais, foram gerando frustrações que se
projetam no contexto do relacionamento humano.
O
cotidiano das pessoas está repleto de exemplos de projeção. É o caso daquele
pai ou mãe que se frustrou na vida ao fazer o curso que não queria e que tenha
trabalhado com o que não lhe trouxe realização, o que resta a ele? Manipular o
desejo dos filhos para fazerem o que não querem sem respeito à individualidade
deles, é sugar tal realização para si. Ou aquela mãe que enche a filha de
bonecas, sendo que a menina nem liga tanto para isso. Na verdade, as bonecas
nem são para ela, pois é o alimento da infância que essa mãe nunca teve.
Na
empresa, pode ser aquele chefe que persegue um membro da própria equipe quando
o acusa de pouco ágil, incompetente e descomprometido, quando tudo o que
provoca a ira do chefe é a liberdade que o subordinado tem de viver o próprio
tempo e lidar bem com a frustração. Tem o exemplo da recatada, que no shopping
center lança ironicamente o olhar enviesado àquela mulher fina e bem vestida
que adentra esfuziante com o decote à mostra e a cadelinha no braço, e comenta:
“Olha a roupa daquela perua, se veste muito mal e aqui nem é lugar de transitar
com cachorros”. Triste arremesso. Não que ela talvez desejasse ter aquele
cachorro ou o vestido daquela mulher. Mas a elegância e a liberdade de
transitar sem se preocupar com o que os outros poderiam dizer é tudo o que
aquela recatada nunca teve, por isso projeta através da inveja e da ironia toda
a frustração acumulada.
Você
já ouviu falar no adágio popular de que tudo que vai, volta? Então esse é um
fenômeno apresentado pelo psicanalista Jung como contraprojeção, algo que é uma
espécie de efeito da projeção do próprio sujeito. Foi Nietzsche quem deu um claro
exemplo do que é contraprojeção ao se expressar que "aquele que luta com
monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Pois quando se
olha muito tempo para um abismo, o abismo também olha para você”.
Há
pessoas cujo foco na vida se concentra em comentar sobre a vida dos outros. Tecem
falatórios sobre o que eles usam, viagens e lugares que frequentam, bens que
adquirem ou amizades que conquistam. O aparente desprezo por aquilo em que é
criticado pode ser mais que a incompetência em admirar. Gente que desdenha, fala
demais sobre o que detesta, despreza, condena e satiriza, acaba por atrair
sempre mais daquilo, tamanho é o impulso inconsciente gerado. E o senso comum
logo apelida isso tudo de inveja, recalque ou algo do gênero.
“Quase
todas as pessoas que observei recriminado os outros caíram naquilo que
criticavam”, assim pontuou o espiritualista brasileiro Francisco Cândido
Xavier, alguém que conviveu com centenas de milhares de pessoas. Talvez, o mais
importante na observação desses fenômenos humanos seja a consciência dos
próprios movimentos.

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