SABE TUDO
Artigo de Jair Donato
Há momentos na vida em que o
ser humano emperra o próprio autodesenvolvimento pelo fato de intelectualizar
tudo à volta dele e encher-se disso. É quando ele, mesmo na fase de sofrimento
sobre determinado desafio que não consegue superar, diz que sabe tudo sobre o
que está ocorrendo, estuda sobre o assunto, até ensina e aconselha os demais,
mas dificilmente consegue sair de onde está.
Lembro-me da infância em que tinha
um colega de sala de aula que recebia o apelido de “sabe tudo”. Era um menino
que se destacava no âmbito da aprendizagem, por vezes tinha boa memória e
tirava excelentes notas. Ele respondia tudo que a professora perguntava e fazia
questão de ser o primeiro a levantar a mão quando havia um questionamento para
a sala. Porém, isso gerava inconvenientes em muitas ocasiões, devido ao fato dele
não deixar outros colegas se expressarem também, a ponto da educadora solicitar
sempre que o “sabe tudo” desse a vez para outro. O saber é bom, mas requer um
equilíbrio para expressá-lo. A condição de aprendiz contínuo é algo ligado à
sabedoria. O resto é astúcia.
Há
quem vive como se de tudo já soubesse, porta-se como se dono da verdade fosse e
age de tal modo como se nada mais houvesse para aprender. Apresenta-se como se
fosse uma criatura pronta e sem espaço para o novo, soberbamente detentora do
conhecimento e da sabedoria. O filósofo japonês Masaharu Taniguchi elucidou que
“a vida do ser humano começa a se arruinar
quando ele passa a se envaidecer dos próprios conhecimentos e a se considerar
diplomado”.
Esse
é um tipo de comportamento denominado como “xícara cheia”. A xícara é um
recipiente que pode ser análogo à mente do indivíduo, que se ela estiver sempre
cheia, transbordante, não sobrará espaço para que novo conteúdo seja
adicionado. Há pessoas que vivem assim, “cheias”, “prontas”. Isso é ameaçador,
presunçoso e limitante. Contudo, quando a mente está propícia a receber, a apreender,
naturalmente ali há o desenvolvimento rumo a evolução cotidiana.
O indivíduo que se mantém na mesma posição como se já fosse o
suficiente e sem a postura de aprender o novo ou mesmo reaprender o que já
estudou no passado, poder revelar ai também uma postura de autodefesa em
relação à mudança. Pois aprender implica sempre em mudar, adquirir novos
hábitos, outros comportamentos. Sobre isso, o escritor Leandro Doorneles pontua
que “as pessoas buscam mudanças, mas, quando realmente se deparam com a
oportunidade de mudarem para melhor, elas simplesmente não se esforçam para se
transformarem”.
Na pessoa inflexível à mudança
até mesmo o insight, que é uma habilidade cognitiva de conhecimento adquirido
mais intuitivamente sobre o modo de funcionamento de si mesmo, capaz de provocar
mudanças de comportamento e até mesmo de determinados aspectos da
personalidade, se torna superficial. É quando o sujeito passa a compreender
tudo apenas do ponto de vista intelectual. Ele relata as possíveis causas do
próprio sofrimento, nomeia o que há de errado em si mesmo, mas se contagia pelo
racionalismo extremo a ponto de não se tornar um agente de mudança na própria
vida.
O
saber é importante, desde que isento de inflexibilidade, limites, prazos,
regras ou quaisquer barreiras ligadas ao rótulo e ao preconceito. Foi o físico
alemão Albert Einstein quem disse que a mente é como o paraquedas, é melhor
mantê-los abertos. Afinal, só o saber nem sempre transforma, exceto se aliado à
prática.
Jair Donato - Jornalista em
Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário,
especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

Nenhum comentário:
Postar um comentário