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terça-feira, 6 de outubro de 2015

SABE TUDO
Artigo de Jair Donato 

Há momentos na vida em que o ser humano emperra o próprio autodesenvolvimento pelo fato de intelectualizar tudo à volta dele e encher-se disso. É quando ele, mesmo na fase de sofrimento sobre determinado desafio que não consegue superar, diz que sabe tudo sobre o que está ocorrendo, estuda sobre o assunto, até ensina e aconselha os demais, mas dificilmente consegue sair de onde está.

Lembro-me da infância em que tinha um colega de sala de aula que recebia o apelido de “sabe tudo”. Era um menino que se destacava no âmbito da aprendizagem, por vezes tinha boa memória e tirava excelentes notas. Ele respondia tudo que a professora perguntava e fazia questão de ser o primeiro a levantar a mão quando havia um questionamento para a sala. Porém, isso gerava inconvenientes em muitas ocasiões, devido ao fato dele não deixar outros colegas se expressarem também, a ponto da educadora solicitar sempre que o “sabe tudo” desse a vez para outro. O saber é bom, mas requer um equilíbrio para expressá-lo. A condição de aprendiz contínuo é algo ligado à sabedoria. O resto é astúcia.

Há quem vive como se de tudo já soubesse, porta-se como se dono da verdade fosse e age de tal modo como se nada mais houvesse para aprender. Apresenta-se como se fosse uma criatura pronta e sem espaço para o novo, soberbamente detentora do conhecimento e da sabedoria. O filósofo japonês Masaharu Taniguchi elucidou que “a vida do ser humano começa a se arruinar quando ele passa a se envaidecer dos próprios conhecimentos e a se considerar diplomado”.

Esse é um tipo de comportamento denominado como “xícara cheia”. A xícara é um recipiente que pode ser análogo à mente do indivíduo, que se ela estiver sempre cheia, transbordante, não sobrará espaço para que novo conteúdo seja adicionado. Há pessoas que vivem assim, “cheias”, “prontas”. Isso é ameaçador, presunçoso e limitante. Contudo, quando a mente está propícia a receber, a apreender, naturalmente ali há o desenvolvimento rumo a evolução cotidiana.

O indivíduo que se mantém na mesma posição como se já fosse o suficiente e sem a postura de aprender o novo ou mesmo reaprender o que já estudou no passado, poder revelar ai também uma postura de autodefesa em relação à mudança. Pois aprender implica sempre em mudar, adquirir novos hábitos, outros comportamentos. Sobre isso, o escritor Leandro Doorneles pontua que “as pessoas buscam mudanças, mas, quando realmente se deparam com a oportunidade de mudarem para melhor, elas simplesmente não se esforçam para se transformarem”.

Na pessoa inflexível à mudança até mesmo o insight, que é uma habilidade cognitiva de conhecimento adquirido mais intuitivamente sobre o modo de funcionamento de si mesmo, capaz de provocar mudanças de comportamento e até mesmo de determinados aspectos da personalidade, se torna superficial. É quando o sujeito passa a compreender tudo apenas do ponto de vista intelectual. Ele relata as possíveis causas do próprio sofrimento, nomeia o que há de errado em si mesmo, mas se contagia pelo racionalismo extremo a ponto de não se tornar um agente de mudança na própria vida.

O saber é importante, desde que isento de inflexibilidade, limites, prazos, regras ou quaisquer barreiras ligadas ao rótulo e ao preconceito. Foi o físico alemão Albert Einstein quem disse que a mente é como o paraquedas, é melhor mantê-los abertos. Afinal, só o saber nem sempre transforma, exceto se aliado à prática.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br 

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