DINHEIRO NO
RALO E PUBLICIDADE DO GOVERNO
Artigo
de Jair Donato
Qual é a razão para o governo federal dissolver pelo ralo quase 60
milhões de reais numa campanha publicitária apenas para apresentar o slogan de
que é possível enfrentar e vencer a crise? Essa é a justificativa numa alusão
às olimpíadas de 2016. E mais, a presidente do país explicou, e muito pouco, que
isso fortalecerá o slogan de que “Somos todos Brasil”. Só que não. Está na hora dos governantes agirem
racionalmente com foco no bem comum. Seguindo o
exemplo, essa é reação é em cadeia. É uma cultura presente em todas as
esferas do governo, do federal ao municipal, que precisa ser mudada.
Infelizmente,
mediante medidas para redução de gastos, vejo o governo do Estado de Mato
Grosso investir altas cifras para uma ação de efeito apenas estético. Veiculam-se
principalmente na TV, peças publicitárias cuja produção não é barata. Uma é
para mostrar as frentes de trabalho que o governo está encetando. Outra ainda
mais absurda é tão somente para mostrar que o governo está pagando uma cifra,
que ficou por volta de 3,8 milhões, para uma consultoria apontar se será viável
ou não a implementação do VLT, do qual um bilhão de reais já se foi. Pode isso?
Por que não mostrar apenas o resultado daquilo que conseguir ficar pronto? Já
seria uma redução de custos. Quer mais? Recentemente foi lançado
edital de concorrência pública para contratação de agências para que elaborem
projetos e campanhas institucionais e de utilidade pública no valor de R$ 70 milhões
para um contrato com vigência de 12 meses, e pode ser prorrogado. Chupa essa
manga contribuintes.
Em tempos de agilidade nas vias de comunicação o governo tem meios de
divulgação suficientes para elucidar sobre o que investe, sem ter que
necessariamente ocupar horários nobres para uma superprodução da própria
gestão. É um absurdo justificar que isso é para manter o povo
informado. Comunicar é preciso, mas falo do princípio da necessidade que é achincalhado
com o intento de campanhas dessa natureza. Quantas campanhas publicitárias
sobre obras faraônicas ficam apenas na veiculação, e nunca são terminadas? Se o
governo começar apenas por investir em campanhas referentes às obras entregues,
já daria um passo consciente.
Sabe o que é mesmo necessário? Seria reduzir tamanha superficialidade e
destinar maior parte desses recursos ou pelo menos metade deles em favor dos
hospitais públicos que matam pelo péssimo atendimento. E as escolas, aonde a
violência se instala, acha que elas não poderiam ser beneficiadas com isso? Além
dos incrementos na infraestrutura dos serviços públicos, eles não seriam
melhores beneficiados se essas verbas fossem destinadas para essa finalidade? É
muita maquiagem no âmbito do governo. Os gestores públicos sambam na cara do
povo fazendo uso de verbas para politicagens que servem antes para eles como campanhas
publicitárias para reeleição dos próprios egos, do que atenderem ao bem comum.
Sei da nobreza da publicidade e da importância do trabalho dos
publicitários neste país. Não é da prestação de serviço deles que me refiro,
até porque os que se beneficiam da enorme fatia do governo são bem poucos em
relação ao mercado que existe. Sei que a publicidade é uma ponte que se move entre
o mundo corporativo e o consumidor. Mas, no mundo dos negócios, o investimento
corresponde aos fatos, o que não ocorre no setor público. O empresário investe
e não apenas joga dinheiro fora a esmo como faz a máquina pública. O mercado publicitário
é um negócio e os profissionais estão aí para produzirem e fomentar a economia,
portanto não deponho contra eles. O que chamo atenção é o absurdo que o governo
faz ao destinar verbas altíssimas, que sequer beneficiam toda a classe
publicitária. Isso é o mesmo que encerrar a casca da maçã para dar brilho, cujo
conteúdo anda bem podre na maior parte das instâncias. A falta do equilíbrio é
a derrota de qualquer gestão.
Ou talvez, eu esteja errado. Não há mesmo problemas sociais no Brasil,
pois se tem dinheiro de sobra. Ha escolas, hospitais, estradas, segurança, emprego
e moradia para todos, sem contar a infraestrutura impecável nos serviços
públicos. Afinal quais seriam os impactos das centenas de milhões de reais que
ao invés de investirem em publicidade de autopromoção, fossem destinadas a
educação, saúde, transporte, segurança pública e emprego? Investimento sem
necessidade também é corromper o erário concedido pela sociedade. Pensa
quanto o Brasil joga pelo ralo anualmente com publicidade que não corresponde
aos fatos. Na verdade, essa é
uma ponta do iceberg, a exemplo de uma série de desperdício monetário em vários
outros setores. Daria uma série se em cada artigo escolhesse uma área em que dinheiro
público é gasto sem uso do princípio da necessidade, tudo isso pela cultura da
displicência com o dinheiro público.
Um
questionamento para os governos. Será mesmo que desperdiçar milhões em
campanhas publicitárias é a maneira de deixar mais claro para a sociedade sobre
o que está sendo feito? O que será que tem maior poder de alcance: imagem ou
reputação? Pense no impacto que pode produzir apenas na divulgação de relatórios
de obras concluídas. Traria ou não maior benefício para a sociedade, além de
permanecer na memória de todos em longo prazo? Isso é reputação. É algo que por
mais vultosa que seja uma campanha publicitária, ela não consegue proporcionar.
Estimo
que nesta ocasião de guerra contra a corrupção e movimentos em prol da ética, o
governo se perceba melhor e contribua com a nação sendo mais parcimonioso na
fala e nos gastos, além de mais contundente nos resultados. Será preciso um
basta no continuísmo do mau uso do dinheiro público, um vício cultural
que necessita ser extirpado.
Jair
Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas,
professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

2 comentários:
Está simplesmente esclarecedor. Muito bem colocado todas as palavras. Tomara que em todas as instancias esse artigo possa chegar. Quem sabe assim, ocorra uma transformação.. Parabéns Pai ...
Grato filho. Como agente de mudanças, temos que fomentar a mudança no cenário sociopolítico do nosso País.
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