
Artigo de Jair Donato
O vilão que mais desmata a Amazônia é a pecuária, e não a soja, o contrário do que muitos pecuaristas dizem. É o que mostra um estudo realizado pelo Conselho Regional de Economia do Distrito Federal, referência que servirá de base para o planejamento do território amazônico, pelo Ministério da Integração Nacional. “O fantasma da Amazônia não é a soja, é a pecuária", diz o economista Julio Miragaya, autor do estudo, que escreve uma tese de doutorado sobre o papel da pecuária na ocupação da Amazônia.
Somente em Rondônia, plena Amazônia Legal, em 15 anos a criação bovina cresceu em 560%, seguida do Acre com 478%. Mato Grosso e o Pará registram aumento de 200% nesse período. Miragaya mostra que o avanço do plantio de soja em áreas que antes eram ocupadas pela pecuária, como no Centro-Oeste, forçou o avanço do gado para as áreas amazônicas.
Mas, isso não é verdade, contesta o presidente da Sociedade Rural Brasileira, Cesário Ramalho. "Não é a pecuária a responsável pela invasão na região amazônica. Falta na região um melhor controle do direito de propriedade. Muitas das propriedades não têm título e é isso que gera a disputa pela terra e fomenta a invasão de áreas", diz Ramalho. Ele afirma ainda que o próprio mercado decide se vale a pena plantar ou não.
É fato que por falta de planejamento, a região perde muito. Um péssimo exemplo de crescimento dessa natureza é o Centro-Oeste. O avanço desordenado foi uma das causas da crise no agronegócio. Para quem veio há cerca de trinta anos para cá, onde só precisava desmatar e plantar, e depois criar gado, as regras do jogo mudaram. Hoje, o negócio do plantio e da criação bovina precisa ser estratégico e planejado. Para se relacionar com comercio interno ou externo, é necessário atender outras exigências, principalmente em relação ao meio ambiente.
Já não é suficiente ser apenas competitivo nessa época em que o negócio da vez é o desenvolvimento sustentável. O governo precisa fiscalizar melhor, enquanto quem planta e quem cria deve investir mais em consultoria sobre o que faz e os impactos possíveis das ações implementadas. E o consumidor deve ficar sempre atento com o que leva para a mesa, priorizar marcas responsáveis ambientalmente e consumir com racionalidade.
Enquanto isso, o desmate continua. Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre junho e setembro deste ano, houve desmatamento na Amazônia de 8% a mais, se comparado ao mesmo período de 2006. E ainda alerta que a tendência é aumentar. Daí a importância de planejar e de fiscalizar. E o risco de devastação, frente aos interesses eleitoreiros que se aproximam com as eleições de 2008, é grande. Já que consciência parece contar o mínimo possível, infelizmente.
O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), divulgou através do Sistema de Alerta do Desmatamento, que só no Pará, o número de focos de calor, aumentou em 15%. Enquanto em agosto de 2006 ocorreram 1.674 pontos de incêndio, foram detectados 1.920 em agosto deste ano. Mato Grosso também foi péssimo exemplo, de uma queda que havia do ano passado para cá, voltou a crescer, fator que preocupa e mostra o quanto a Amazônia é frágil. Essas queimadas não são apenas acidentais. O aumento do período de estiagem no Cerrado, na Amazônia e no Pantanal já é preocupante.
Penso que não se trata de apenas acusar eu defender quem desmata mais, se é a pecuária ou a soja. O que precisa ser avaliado são os impactos já causados, alguns irreversíveis e partir para a solução. Pois uma coisa é certa, as mudanças climáticas provocadas por pela devastação da Amazônia, não vem das culturas nativas, mas sim da exploração mercantilista, que enriquece poucos, empobrece e mantém a maioria desprovida de condições sustentáveis para o futuro.
É o comportamento do ser humano que precisa ser auto-sustentável, antes de qualquer planejamento e tomada de decisão. Talvez seja esse o caminho mais eficaz para um futuro, cujo meio ambiente seja sinônimo de qualidade de vida às futuras gerações.
Jair Donato – Jornalista em Cuiabá, Consultor – Life Coach -, professor universitário - especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com
Nenhum comentário:
Postar um comentário