
Artigo de Jair Donato
O artigo que escrevi, “carne, vilão ecológico”, teve uma notável repercussão, não apenas por ser uma questão ligada à economia e à saúde. Mas, fundamentalmente, por se tratar de uma necessidade ética na alimentação. O hábito de continuar fazendo as mesmas coisas, sem reflexão, porque no passado era assim, impede o ser humano de repensar sobre as ações que comete no presente, principalmente no contexto ambiental que causa impactos irreversíveis ao planeta, agora e no futuro.
Por se tratar de um assunto complexo, que convém a fatores econômicos de poucos, e, dos hábitos alimentares da maioria da população, merece ser pauta de discussão na família, no ambiente acadêmico e no comportamento do consumidor. Certamente, se deixar questões ligadas à devastação da Amazônia só com quem explora, não será a solução que o planeta precisa.
Dos quase 200 milhões de cabeças de gado no País, número que supera a população brasileira, 35% desse rebanho está na Amazônia, às custas do desmatamento e da ocupação de terras públicas, para uma produção mais barata. E o discurso de quem defende a idéia de transformar floresta em pasto é que apenas uma pequena parcela do bioma foi desmatada para criação bovina, assim como para o plantio de grãos. A pergunta é: deveria ser mais?
No entanto, essa chamada ‘pequena fatia’ aumenta. Segundo últimas informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a área destruída na Amazônia brasileira, no período entre junho e setembro deste ano, comparado ao mesmo período de 2006, chegou a 8%. E, claro, a pecuária e agricultura são as principais causas. Isso é fato. E o que necessita são políticas para essa fatia não aumentar desregradamente, a exemplo da mata atlântica, que começou com a ocupação portuguesa e hoje restam apenas 7% de extensão.
A tendência ambiental alerta o consumidor a rever o costume de comer carne, assim como os derivados que dependem da destruição dos recursos naturais. Nos últimos dois anos o consumo de carne bovina, em função da melhoria de renda do brasileiro, passou de 36 para 41 quilos/ano, por habitante, um aumento de dez por cento.
João Meirelles Filho, autor de “O livro de Ouro da Amazônia”, ao considerar um consumo médio de 36 kg de carne por ano, alguém que vive 72 anos, devora um boi a cada 6,6 anos, 11 bois inteiros durante a vida. Isso resulta em 2,6 toneladas de carne. “Destes 11 bois, pelo menos 4 terão vindo da Amazônia, ou seja, a cada três dias o brasileiro come um bife da Amazônia”, mostra Meirelles. Mas, o consumidor da classe média e alta chega a comer mais de 3 vezes esta quantidade.
Não quero, propositalmente, dizer que não deva comer carne. Seria radical propor isso em um país tipo de alimento é cultural, e hoje, praticamente todos, podem ter acesso a ele. Particularmente, nunca comi carne. Mas, imagino que para quem tem esse hábito carnívoro, possa ser difícil ficar sem ele, embora não seja impossível um repensar na diminuição. Mesmo que o boi não seja o único fator responsável pela devastação das nossas florestas e do Cerrado, é inegável que nos últimos 15 anos, o tem sido o maior vilão da Amazônia.
Acredito que o produtor deve investir mais nas maneiras de criação bovina sem destruir os biomas. Todo animal abatido ou vegetal derrubado cria uma cadeia de gases lançados diariamente na atmosfera. Além de emitir gases mais poluentes do que o gás carbônico, como metano e óxido nitroso, a criação bovina demanda o uso de outros bens naturais que são finitos, como o recurso hídrico.
O consumo de água, por exemplo, é muito grande. Para se produzir
Se não contiver o delírio pela economia a base bovina, sem visão de futuro, essa proporção vai aumentar aos poucos. Então, é melhor pensar e resguardar o futuro da Amazônia agora, ou não? Antes de encher o prato de carne daqui por diante, repense. Suas gerações futuras podem viver mais e melhor pela sua decisão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário