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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

LIÇÃO DOS INDÍGENAS AMERICANOS - Parte I



Artigo de Jair Donato

As tradições indígenas se traduzem em valiosas lições para o atual estágio da humanidade em que muito se perdeu na conexão com a natureza e o verdadeiro considerar ecológico. A sabedoria do povo indígena é profunda e fala de um progresso de integração pessoal comunitário e ecológico. Nesta série a reflexão será em torno do modo de viver e de interagir com o meio ambiente natural sob a visão indígena, especialmente dos nativos da América do Norte, da América Central e da América do Sul.

Quanto aos nativos norteamericanos, foram mais de quinhentas nações de índios que viveram por cerca de 40 mil anos numa cultura integrada a natureza, com perspectivas e pensamentos bem diferentes da visão dos europeus quando chegaram ao continente deles. Os índios conheciam todas as terras, desde desertos, pântanos, planícies e florestas, até que as colonizações européias começassem a invadir esses territórios e a mudar a vida daquele continente para sempre. Foram nas primeiras colonizações que deram certo, como a dos espanhóis, de Santo Agostinho, por volta de 1565 e a dos ingleses, em 1607, em que os colonizadores trouxeram companhias desagradáveis como a malária e a varíola, doenças que os ameríndios não resistiam por falta de imunidade. Só essas epidemias dizimaram vilas em até 90% das populações

Para os nativos a terra era sagrada e não tinha donos individuais, ela pertencia ao Grande Espírito. Eles não compreendiam o costume dos colonizadores, que comercializavam as terras. E, os europeus, por não reconhecerem a soberania dos nativos, compravam os terrenos deles com ferramentas, dentre outras miscelâneas. Mas, isso para os índios era no máximo, uma espécie de arrendamento e tudo continuava sendo algo coletivo. No entanto, perceberam que se comessem um dos animais criados pelos brancos, era exigido deles uma indenização, o que gerava conflito e revides entre as partes, pois os índios entendiam tal negociação de um jeito equivocado.

Os ameríndios, por serem nômades, mudavam com frequência de moradia e as posses que tinham eram potes, arcos, cestos estacas para cavar e ajudar na vida cotidiana. Cultivavam grãos e uma variedade de plantas sempre com controle de queimadas em áreas de vegetação, garantiam a vitalidade do solo, deixando-o descansar enquanto plantavam em locais diferentes. O antropólogo Marshall Sahlins se refere a esse comportamento indígena como o entendimento que eles tinham de viver ricamente, devido ao profundo conhecimento que possuíam sobre a natureza. “Todas as coisas apareciam quando necessárias e desapareciam quando os propósitos eram atingidos”, diz Sahlins, sobre o pensamento dos nativos.

No entanto, as colônias de invasores nesse território até então sagrado, cresciam vertiginosamente e os nativos americanos eram forçados a recuar. Os europeus, com tecnologia militar superior aos arcos e flechas indígenas, triunfavam, reduzindo-os a confinamentos restritos. Geronimo, o último ameríndio a render-se aos europeus, que resistiu até 1886, foi o símbolo de uma história trágica, de desconsideração àquelas tribos nativas que foram reduzidas drasticamente. Dentre várias passagens tristes dessa história, destaca-se o caso de Cheyenne, que foi levada por mil milhas a pé, por uma caminho que passou a ser chamado de “trilha das lágrimas”, enquanto muitos outros morriam ao longo daquela longa jornada situada da Geórgia até Oklahoma, área designada na época como território dos índios. Segundo registros da história, houve brutalidades, corrupção e tentativas de fazerem com que os índios pensassem como os europeus invasores. Embora muitos deles tenham estudado como o homem branco, no coração ainda pensavam como índios.

Consta no livro “Ecologia dos Índios Norte Americanos” de J. Donald Hughes: “Para os índios americanos, a ecologia não era um assunto separado ou algo para ser pensado somente em determinada parte do tempo, tratava-se de um assunto que envolvia todo um modo de vida. Para eles, as coisas que nós chamaríamos de ecologia afetavam e eram afetadas por tudo o que eles faziam.” Portanto, ao verem aqueles homens com costumes diferentes, de cultura mercantilista, eles os consideraram como pessoas rudes e individualistas, que viam o mundo apenas de uma perspectiva individual, que só pensavam em dominar a Terra e dividi-la em parcelas imobiliárias, cidades, estados e países. Mas, o relacionamento entre nativos americanos e a terra é o de confiança sagrada. Continua no próximo artigo.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail:
jair@domnato.com.br

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