
Artigo de Jair Donato
No artigo anterior a abordagem foi sobre a visão de sacralidade, respeito e convivência ética que os primeiros habitantes do continente norteamericano mantiveram por milênios, antes da chegada dos europeus, fato que mudou uma cultura nativa de cerca de 40 mil anos, principalmente na relação com o meio ambiente. O controle do uso da terra para prevenir a extinção de espécies, o uso apenas do necessário, a proibição do desperdício da comida, foram valores éticos transmitidos como sagrados pelas tradições dos mais velhos às gerações seguintes.
Os ameríndios sempre foram dotados de um conhecimento explícito sobre a interação que cada espécie do ecossistema tinha com outras espécies, inclusive com os seres humanos. Por viverem de forma flexível com o mundo natural, a mudança para eles, não era uma linha irreversível, mas uma curva unindo o final ao começo. Havia também uma compreensão intuitiva sobre as questões ecológicas e isso era expresso em lendas e mitos através das tradições transmitidas de geração em geração.
Tamanho era o sentimento de respeito e de sensibilidade ao meio ambiente natural que os nativos americanos rejeitavam métodos que ferissem a terra ao tratá-la, a exemplo da não aceitação que eles tinha aos mineradores de fronteira, que cavavam buracos e até aravam as propriedades dos fazendeiros. Para os nativos isso era como rasgar os seios da mãe terra, pois eles utilizavam apenas bastões para cavar, como símbolo natural do processo de fertilização. Mas, cavar a terra com bastões será adequado nos dias de hoje com número populacional que existe na terra, devido à necessidade de alimentos? Alguém pode argumentar.
Não é essa a lição para os tempos atuais, o que deve ser apreendido nesse contexto é o tratamento dado ao meio ambiente que os ameríndios tinham, o que também pode ser praticado hoje em dia, adequando-se as ferramentas e as tecnologias disponíveis às necessidades da realidade presente, se houver consciência. A produção e o consumo ecologicamente corretos, a cultura por manejo, a preservação e a conservação dos recursos naturais, o fim da exploração descomedida da terra, do ar e da água, são alguns dos exemplos para que homem contemporâneo possa se relacionar bem com a natureza.
O pensamento central dos ameríndios pode ser descrito como circular, intuitivo e inclusivo, a exemplo dos Lakotas, que viviam nas planícies do norte dos EUA, a terra dos búfalos. Eles consideravam essa forma de pensar tanto na simbologia como prática, a exemplo das moradas que eram construídas em forma circular, para lembrá-los que a vida flui em círculos e que todos são interconectados. Na perspectivas deles a vida move-se em círculos, a exemplo da lua e do sol que se movem em círculos. A vida era vista como um ciclo para todos os seres, que é o nascimento, a infância, a fase adulta, o envelhecimento e a morte. Em suma, a mente nativa era repleta de um profundo sentimento de reverência pela natureza, que para eles é um todo maior e a humanidade é apenas uma parte, que deveria se ver como dependente dela e não como dominadora.
Conforme a visão holística dos nativos, tudo possui vida e em cada elemento da natureza está presente essa mensagem, por isso, é fundamental decifrar, interpretar e refletir sobre ela. Em tempos atuais, é importante analisar sobre a consciência ancestral dos ameríndios, que parte do princípio de que o visível é parte do invisível, talvez isso dependa somente da sensibilidade do homem neste atual estágio da humanidade. O próximo artigo abordará a visão dos indígenas das Américas do Sul e Central, que ao longo do tempo estabeleceram uma cultura com relações econômicas, na luta por uma coexistência de harmonia com os elementos naturais.
Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jair@domnato.com.br
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