REZA
E ASSOMBRAÇÃO
Artigo de Jair Donato*
Parece incoerência, mas existem
reviravoltas que ocasionalmente ocorrem na vida das pessoas, principalmente
quando elas estão em processo de mudança interna, seja através da
espiritualidade, da religiosidade, da reflexão ou até mesmo dedicando-se a
práticas altruísticas. Qual seria a razão para esse fato? Você já ouviu a
expressão de que quanto mais reza, mais assombração aparece?
Esse tipo de expressão popular
pode até impressionar a quem não entende a causa de desintegrações de ordem
física ou emocional quando há mudança de atitude, principalmente quando se
altera o pensamento de um estado pessimista para uma condição entusiasta. A
impressão é como se a prática de atos benfazejos ou adoção de mentalidade otimista
atraísse fatos indesejáveis; embora isso não seja visto assim por todos, pois é
um ângulo distorcido de ver os fatos.
Contudo, essa consideração merece
uma análise. Imagine um copo transparente com água turva pela mistura com um
punhado de terra. A água, que simboliza vida, assemelha-se ao destino do homem,
que pode ficar turvo pelos inúmeros pensamentos e atos distorcidos. No entanto,
se esse copo for colocado numa base fixa e lá deixado, a terra se acomodará no
fundo dele. O mesmo ocorre numa caminhada pela estrada de chão, será natural
que a poeira se levanta a cada passo dado. Mas, se ela não for movida,
continuará no mesmo local.
Aparentemente, dependendo do
ângulo em que for visto esse copo, a água parecerá límpida, porém a sujeira
continua lá, incrustrada como conteúdo interno daquele vasilhame. Entretanto,
se o copo for mudado de posição e for balançado, do fundo poderá ebulir a
sujeira e subir até a borda. Se em seguida, o copo for colocado em baixo de uma
torneira para troca da água com terra, ela momentaneamente voltará a ficar
turva, devido a reviravolta e o atrito com a água limpa. Fato semelhante ocorre
quando o ser humano se propõe a uma mudança no interior de si mesmo e torna-se
acometido por revezes no destino, que a princípio surgem como forma de
obstáculos, mas que se convertem em caminho para tudo ficar bem, se houver
determinação. Pois se retirar o copo debaixo da torneira antes que toda a água
seja trocada e deixá-lo como está, volta a ilusão de que estará límpido.
Enquanto cada pingo d’água limpa
cai dentro do copo sujo, e se essa ação for contínua, gota a gota, chegará o
momento em que o conteúdo do recipiente será totalmente trocado, a terra será
removida até a água voltar a limpidez de antes. De maneira semelhante, se
houver persistência no ato da mudança de si mesmo sem hesitação e com foco,
passo a passo, poderão ser eliminadas do cotidiano as obstruções que até então
provocavam dissabores, dessa maneira a própria vida se torna mais límpida e
coerente.
Esclarecendo melhor essa
analogia, certa vez disse uma sábia amiga fraterna: “O rio corre por si mesmo,
movimenta-se e expele as impurezas que existem no fundo dele. Ao remover tais
impurezas, a água pode ficar temporariamente suja, mas ele purifica-se se
tornando em água límpida. É um processo natural”.
Da próxima vez que você se propor
a mudar e evoluir para melhor, não dê importância aos adventos que surgirem
para atrapalhar sua decisão. Lembre-se que a persistência é como o copo d’água
turva exposto a cada pingo da torneira, com o tempo tudo se tornará
transparente. O fato é que toda transformação implica em deformação. É como a
reforma de uma casa, antes será preciso deformá-la. Uma pintura nova será
aplicada se antes lixar ou desfazer a antiga. Em qualquer área da vida e em
quaisquer situações, sempre vence aquele que persiste com foco, fé, confiança e
determinação. Por fim, não há assombração, há mudança.
*Jair
Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas,
professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de
Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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