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terça-feira, 7 de outubro de 2014

ÉTICA E CONSUMO DE CARNE
Artigo de Jair Donato*

Você consegue reduzir a quantidade no seu consumo de carne? Você pode pensar nisso sem fundamentalismo. Afinal, o Brasil possui a cultura habitual da carne nas refeições, é o país do churrasco e do petisco. Gostaria apenas de incitar uma reflexão aos consumidores dessa opção alimentar sobre duas maneiras de olhar o mundo e os impactos que o homem provoca nele. A primeira, capitalista, por ser uma visão míope e devastadora, impede de ver que os recursos naturais são destruídos em curto prazo, como se não houvesse futuro. A segunda visão, essa merece uma reflexão mais profunda, é em longo prazo, onde se percebe que o resultado da primeira, na maior parte das vezes, é irreversível.

É fato que as atividades humanas, principalmente no século XX, foram responsáveis pelas alterações do clima no planeta, e provocam o superaquecimento da Terra. Segundo estudos publicados pelo Órgão das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a comida atual da humanidade, à base de carne, se tornou uma das grandes fontes depreciativas e poluidoras do meio ambiente.

Todo o processo de produção e consumo da carne de boi, peixe, frango ou porco, dentre outras, é responsável pela poluição do ar, do solo e da água, quando aplicado sem respeito ao meio ambiente. Os animais são grandes emissores de gases poluentes, além das áreas de recursos naturais que são devastadas para criá-los. Mesmo com as adaptações adequadas do manejo no confinamento para criação de animais, com as devidas certificações e selos conferindo a origem da produção, ainda não é suficiente dizer que seja sustentavelmente correto.

O agravante maior está no consumo exacerbado, alimento do mercantilismo. Isso sem tocar no impacto na saúde, que merece outra pauta, devido o alto índice de aditivos químicos como os aplicados no frango, por exemplo. Ou você acha que se alimenta de uma carne realmente saudável? O interesse na produção capitalista não é atender a quem de verdade precisa, e sim o aumento do lucro. Todo o investimento em tecnologia ocorre para gerar mais lucro, não para atender a demanda da fome, por exemplo. É inegável que maior parte do crescimento da criação bovina no Brasil se deu até agora à custa da destruição das florestas.

Além de poucas vantagens coletivas na atividade bovina, é um péssimo empregador. Poucos cuidam de milhares de cabeças de gado, altamente lucrativas para um segmento, e prejuízo para a natureza. Milhões de m2 da Floresta Amazônica ainda são derrubados para plantio de grãos, seguido da criação de pasto. Segundo levantamento do Ministério da Agricultura, a previsão é de 8 milhões de toneladas de carne só para 2014.

No Brasil, segundo dados do IBGE, o número de cabeças de gado ultrapassa o número da população. Quase 70% da pecuária é representada por bovinos, a maioria para corte, outra parte, para leite. Foi estimada uma emissão em mais de 9 milhões de toneladas de metano, gás liberado pelos animais, que polui até 21 vezes mais do que o gás carbônico, provenientes da pecuária. Quase metade das terras propícias para agricultura, no planeta, já virou pasto. Cerca de 40% de todos os grãos produzidos mundialmente são destinados à ração bovina, quantia que supriria a fome nos países pouco desenvolvidos, carentes de alimentos.

Atualmente, a questão ética se passa por parte do consumidor não está em apenas em adquirir produtos ecologicamente corretos. Ambientalistas, ecologistas e climatólogos apontam a importância do consumo consciente na alimentação à base de carne, como forma de poluir e degradar menos. A redução na quantidade é uma estratégia inteligente.

Mato Grosso, econômica e politicamente, tem títulos internacionais como maior parque pecuário do País e grande produtor de grãos. Na primeira visão, a do velho paradigma de ganho, isso pode ser sinônimo de riqueza e desenvolvimento. Mas, para quem? Para quantos? Por quanto tempo? Pense no impacto dos próximos anos, com advir das próximas gerações, se não houver uma mudança ética nos hábitos alimentares. Sem radicalismos, mas isso merece um repensar individual e coletivo. Mais que uma questão de saúde, essa é uma questão de educação, sua e das próximas gerações. Então, sua visão é em curto ou em longo prazo?


*Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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