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terça-feira, 17 de março de 2015

ELOGIO E NARCISISMO
Artigo de Jair Donato 

Será mesmo, como diz o senso comum, que o elogio estraga? Ou que elogiar nunca é demais? Qual é a verdade e o ponto de equilíbrio nestes adágios populares? Talvez essa possa ser uma confusão que surge do equívoco de que elogiar seja permissividade, prática sem escrúpulos, fingir o que não é ou “passar a mão na cabeça”. Ou então que o elogio deva ser uma lambança generalizada. 

Dentre tantas pesquisas nessa área, recentemente outro alerta foi dado por pesquisadores americanos e holandeses sobre o perigo de elogiar demais a criança, que isso pode torna-la em adulto narcisista, ou seja, pessoas que se acham, supervalorizam-se. Eles conduziram um projeto com cerca de 600 crianças de seis a doze anos de idade e 700 pais. Observaram os estudiosos que os narcisistas tem mais chance de desenvolverem ansiedade, agressividade e depressão.

Embora tenha filhos que são elogiados constantemente e apresentam autoestima baixa, há outros que nunca foram elogiados, mas que “se acham”. Sobre isso, a pesquisa também revelou que há crianças que já nascem com traços narcísicos e que é importante os pais suavizarem isso no processo da educação.

De maneira alguma o estudo invalida ou desaconselha o elogio, apenas evidencia que a prática em excesso dele não contribui para um crescimento saudável da criança. Na verdade, esse efeito pode também se dá na fase adulta. Comece a dizer a alguém que ele é ótimo em tudo só para agradá-lo, e permita que ele continue executando o que tenha que fazer sem esforço algum, para ver no que pode dar. Desastre à vista.

O elogio de fato, quando merecido, é um elemento saudável. Ele propulsiona ao crescimento, pois motiva o elogiado. Contudo, é preciso o cuidado para que ele seja uma prática genuína e específica. O contrário disso é bajulação, fantasia, algo que só alimenta o ego, e quem sabe abre o caminho para a derrocada na vida do indivíduo. Elogio vazio em demasia apenas produz presunção e inconsequência. Dale Carnegie, autor do best-seller “Como fazer amigos e influenciar pessoas” sempre ressaltou que o elogio deve ser honesto e sincero.

Talvez o maior desafio para os educadores seja aplicar o elogio na medida certa, como numa combinação entre o sal e o açúcar. O filósofo Masaharu Taniguchi, que encetou o movimento filosófico Seicho-No-Ie do Japão para o mundo, pondera que a criança cresce na direção em que for elogiada. No entanto, esclarece que o elogio deve ser praticado com amor e sabedoria. Ou seja, deve-se extrair o talento natural da criança através do elogio e incentivá-la, mas sem fazer isso descomedidamente, fazendo-a acreditar naquilo que talvez nunca possa se tornar ou ser quem não seja. Um pai que só educa com amor, sem normas, deixa a criança fazer o que quer pelo fato de amá-la, pode gerar adultos intransigentes, egoístas. Ao contrário, se negar elogios e trata-los só com sabedoria, astúcia, sem incentivo e carinho, utilizando-se de normas rígidas, pode gerar adultos frios e calculistas.

Será preciso critério e adequação ao elogio e fazer com que a criança entenda isso. Este equilíbrio poderá garantir uma autoestima sem afetações no modo de agir no futuro ao chegar à fase adulta. Um elogio que não esteja afeto ao potencial da criança poderá aumentar-lhe apenas ao orgulho e a vaidade. Como no exemplo daquela mãe que diz o tempo inteiro à filha que ela é a menina mais linda do mundo, é a melhor de todas as garotas. Isso pode gerar frustração, revolta e agressividade quando ela crescer e perceber que isso não é tão verdade como a mãe disse. Ou o pai que supervaloriza o filho e diz que ele é mais inteligente que todos os coleguinhas. Esse indivíduo sofrerá uma pressão para manter isso e dificilmente aceitará perder no decorrer da vida, gerando traços narcísicos na fase adulta, se achando melhor do que os outros, além da dificuldade de saber lidar com a frustração.

Uma das necessidades básicas do ser humano é a de “ser reconhecido”. Portanto, se o elogio for sincero não estraga, edifica. A questão é saber direcioná-lo. Afirma ainda o dr. Taniguchi que “até o bem, se colocado de maneira inadequada, deixa de ter o aspecto de bem e passa a ser um mal”. Então, aos educadores, resta-lhes o caminho do meio, o equilíbrio, a dosagem ideal, nem muito ao sal e nem muito ao açúcar. Ou, ora mais ao sal, ora mais ao açúcar. Não há uma receita única para isso, afinal cada indivíduo é uma complexidade ímpar.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

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