SÓ REZAR NÃO ADIANTA
Artigo de Jair
Donato
Há quem apenas dobra o joelho, faz penitência, se dispõe a pagar
promessas, ou apega-se às práticas ascéticas como se barganhasse para mudar de
vida. Mas, isso provavelmente é algo que não mudará o destino de ninguém, caso haja
na mesma intensidade a recusa em mudar de atitude. Pois só o desejo, a súplica
ou querer algo não significa oportunidade para mudanças significantes no âmbito
da identidade do homem.
É grande o muro da lamentação individual. Muitos vivem à espera que
Deus ou qualquer outro ser de natureza poderosa resolva problemas que foram
criados e continuam sendo alimentados pelo indivíduo. A recusa em mudar a si
mesmo, em olhar para os pontos a serem desenvolvidos no próprio caráter
enquanto convive neste mundo de desafios, é o maior entrave.
Ao apoderar-se de um conhecimento novo, outra ideologia, o ser humano
tem a tendência de fixar-se de início na fase do encantamento, algo semelhante
a uma paixão juvenil. É o exemplo daquele religioso fanático ou idealista
político que defende uma bandeira excluindo todas as demais, como se tivesse de
posse de uma verdade absoluta e indicada para todos os demais. São momentos de
muito discurso e pouca vivência.
Há demasiada teoria em detrimento à prática. Tem muita reza para pouca
ação. São regras e normas doutrinárias que por vezes impedem muita gente de se
tornar mais altruísta. Perde-se muito tempo com rituais cerimoniosos e visões
preconceituosas, quando tudo que o mundo precisa é de mais amor, sentimento
natural. Mas o prazer pelo rótulo parece falar mais alto. Para ajudar o outro
ou conectar-se com o que há de melhor em cada um, é desnecessário que haja
súplicas divinas, mortificação do próprio corpo ou da mente.
São muitos templos cheios de pessoas vazias, organizações compostas
por líderes hipócritas e famílias com valores deturpados, que vivem no âmbito
da aparência, do rito e das regras. Mas, nesses lugares também tem gente de
prática, que valoriza mais a ação do que o discurso. Afinal, o verdadeiro lugar
da prática não é no templo. É fora dele, e de preferência isento de apetrechos
sectários. Seja na natureza a céu aberto, ao dar atenção a quem está na rua
abandonado, ou isolado em um asilo qualquer, esses são os lugares de “or-ação”.
São ambientes sem poltronas confortáveis para se sentar, sem cânticos embalados
por treinadas vozes. Mas, lá está a matéria prima que dá ciência a qualquer
oração ou discurso sobre como mudar o mundo.
Qual oração é mais poderosa do que o caráter e os valores morais de
uma pessoa? Seja na igreja ou qualquer outro ambiente, isso pode ser
desenvolvido. Mas, fundamentalmente, através do trabalho do dia a dia, da
doação de si sem defesa de crença ou rótulo religioso.
Afinal, é disso que o mundo precisa. De mais união na consciência e
menos preconceito. Que haja prática e pouco discurso. Muito mais amor fraternal
e menos coerção e punição. Na verdade, pouco reza aquele que muito vivencia.
Talvez seja porque a consciência seja mais livre e autorrealizada. A melhor
reza é o sentimento de naturalidade, é harmonizar-se com o próximo, consigo e
com a natureza. É tratar bem os outros ao redor.
Diz um provérbio africano: “Se você acredita em reza, então reze. Mas,
enquanto isso vá fazendo”. A postura de inflexibilidade diante da vida, deixar
de ser útil ao próximo, recorrer ao orgulho e a vaidade anulam qualquer oração,
por mais bem elaborada que seja. Portanto, a atenção genuína ao altruísmo, ao
caráter, aos valores éticos e ao desenvolvimento moral no trabalho cotidiano seja
a melhor maneira de rezar.
Jair Donato - Jornalista em
Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário,
especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com

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