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terça-feira, 10 de março de 2015

SÓ REZAR NÃO ADIANTA
Artigo de Jair Donato 
        
Há quem apenas dobra o joelho, faz penitência, se dispõe a pagar promessas, ou apega-se às práticas ascéticas como se barganhasse para mudar de vida. Mas, isso provavelmente é algo que não mudará o destino de ninguém, caso haja na mesma intensidade a recusa em mudar de atitude. Pois só o desejo, a súplica ou querer algo não significa oportunidade para mudanças significantes no âmbito da identidade do homem.

É grande o muro da lamentação individual. Muitos vivem à espera que Deus ou qualquer outro ser de natureza poderosa resolva problemas que foram criados e continuam sendo alimentados pelo indivíduo. A recusa em mudar a si mesmo, em olhar para os pontos a serem desenvolvidos no próprio caráter enquanto convive neste mundo de desafios, é o maior entrave.

Ao apoderar-se de um conhecimento novo, outra ideologia, o ser humano tem a tendência de fixar-se de início na fase do encantamento, algo semelhante a uma paixão juvenil. É o exemplo daquele religioso fanático ou idealista político que defende uma bandeira excluindo todas as demais, como se tivesse de posse de uma verdade absoluta e indicada para todos os demais. São momentos de muito discurso e pouca vivência.

Há demasiada teoria em detrimento à prática. Tem muita reza para pouca ação. São regras e normas doutrinárias que por vezes impedem muita gente de se tornar mais altruísta. Perde-se muito tempo com rituais cerimoniosos e visões preconceituosas, quando tudo que o mundo precisa é de mais amor, sentimento natural. Mas o prazer pelo rótulo parece falar mais alto. Para ajudar o outro ou conectar-se com o que há de melhor em cada um, é desnecessário que haja súplicas divinas, mortificação do próprio corpo ou da mente.

São muitos templos cheios de pessoas vazias, organizações compostas por líderes hipócritas e famílias com valores deturpados, que vivem no âmbito da aparência, do rito e das regras. Mas, nesses lugares também tem gente de prática, que valoriza mais a ação do que o discurso. Afinal, o verdadeiro lugar da prática não é no templo. É fora dele, e de preferência isento de apetrechos sectários. Seja na natureza a céu aberto, ao dar atenção a quem está na rua abandonado, ou isolado em um asilo qualquer, esses são os lugares de “or-ação”. São ambientes sem poltronas confortáveis para se sentar, sem cânticos embalados por treinadas vozes. Mas, lá está a matéria prima que dá ciência a qualquer oração ou discurso sobre como mudar o mundo.

Qual oração é mais poderosa do que o caráter e os valores morais de uma pessoa? Seja na igreja ou qualquer outro ambiente, isso pode ser desenvolvido. Mas, fundamentalmente, através do trabalho do dia a dia, da doação de si sem defesa de crença ou rótulo religioso.

Afinal, é disso que o mundo precisa. De mais união na consciência e menos preconceito. Que haja prática e pouco discurso. Muito mais amor fraternal e menos coerção e punição. Na verdade, pouco reza aquele que muito vivencia. Talvez seja porque a consciência seja mais livre e autorrealizada. A melhor reza é o sentimento de naturalidade, é harmonizar-se com o próximo, consigo e com a natureza. É tratar bem os outros ao redor.

Diz um provérbio africano: “Se você acredita em reza, então reze. Mas, enquanto isso vá fazendo”. A postura de inflexibilidade diante da vida, deixar de ser útil ao próximo, recorrer ao orgulho e a vaidade anulam qualquer oração, por mais bem elaborada que seja. Portanto, a atenção genuína ao altruísmo, ao caráter, aos valores éticos e ao desenvolvimento moral no trabalho cotidiano seja a melhor maneira de rezar.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

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