QUAL A MULHER IDEAL?
Artigo de Jair Donato
Quais são os valores que você mais preserva
na sua vida? A objetividade e os fatos externos parecem sobrepor à
subjetividade em face do aspecto físico em que prepondera o materialismo, o
poder e a aparência. Há um conto expresso por Sakyamuni em uma das primeiras
Sutras budistas há mais de três mil anos, e que foi preservado pela cultura
budista no Sul da Índia, sobre um homem indiano que tinha quatro mulheres. De
acordo com o sistema social daquela localidade, era possível e aceito que os
homens tivessem várias esposas.
A primeira esposa ele a amava muito.
Vivia sempre cuidando dela em todos os momentos, noite e dia. Oferecia a ela os
melhores nutrientes e vestes, a exibia como se fosse um troféu. Dava-lhe muito
valor estético. A segunda esposa, ela a visitava costumeiramente, e gostava
muito de dar-lhe joias e presentes. Na verdade, tinha medo de perdê-la e a
tratava como se fosse um tesouro. Quanto a terceira esposa ele a visitava de
vez em quando, sem apegos à ela, embora tivesse muita estima. Ela era muito
querida e agradável. Já a quarta esposa, ele a tinha, mas não gostava muito dela. Na
verdade, não lhe dava muita importância, em muitos momentos a tratava com
desprezo, desconsiderando-a, se mostrava enfadado com ela.
Numa determinada ocasião, esse homem precisou viajar para outro
País. Era um lugar muito distante. Então, ele precisava ser acompanhado por uma
das esposas que possuía. E saiu para fazer o convite. Convidou a primeira
mulher, a qual ele amava muito e doava-se a ela. Mas, essa o decepcionou ao
dizer-lhe que sabia que ele a amou e cuidou dela sempre, mas não poderia
acompanha-lo. Ela se separava dele naquela ocasião. Ele, então desapontado, foi
até a segunda mulher e apresentou o convite. Ela frivolamente prometeu segui-lo,
mas não foi. E respondeu a ele friamente que se a primeira não foi, por que ela
haveria de acompanha-lo, dizendo e ele que o sentimento que teve por ela sempre
foi egoísta.
Sem
demora, ele seguiu para onde estava a terceira e após o convite, ela o
acompanhou prontamente. Mas, com lágrimas nos olhos, só foi até o portão e
parou. Não o acompanhou dizendo-se entristecida. Enfim, quem restou a ele? Foi quando lembrou que havia a quarta esposa, pela qual não possuía nenhum afeto. Mas foi
o jeito convidá-la para não partir sozinho, já esperando que ela dissesse uma
negativa a ele, por não trata-la bem. O desespero e a solidão já estavam grandes
que arriscou fazer o pedido a quem ele sequer valorizava. E para surpresa essa
última aceitou sem demora e o acompanhou com maior prazer dizendo-lhe que não
importava o que acontecesse, ela estaria sempre ao lado dele. E assim eles
viajaram.
Quando
Sakyamuni contou essa história, todos compreenderam a mensagem naquela época,
pois estava de acordo com a compreensão do povo de outrora. Contudo, hoje essa
abordagem pode nos parecer sem sentido. Isso porque a mentalidade atual difere
consideravelmente daquela de há mais de três milênios. Um dos mais expressivos
filósofos japoneses do Século XX, Masaharu Taniguchi, apresentou uma leitura desse
conto budista. A viagem citada na história para outro País simboliza a morte, uma passagem para outro mundo da
qual ninguém ficará livre. Já os convites às quatro mulheres representam o
seguinte.
A
primeira esposa que não pôde acompanhá-lo, embora estivesse a vida inteira ao
lado dele, e que ele a tratava bem e adorava exibi-la, representa o corpo
carnal. É algo que por mais que se apegue a ele, mantenha-o bem cuidado,
vestido, nutrido, malhado, no final da vida, mesmo que se espere, ele não tem
como prosseguir. A segunda esposa, a que ele tratava como preciosa, e que não
pôde lhe acompanhar também, simboliza as riquezas e bens materiais acumulados.
Afinal, fortuna, propriedades, fama, emprego e posição social que inebria o ego
humano não há como serem levados.
E
a terceira esposa, aquela que acompanhou o homem, mas somente até o portão,
quem seria? São os parentes, amigos e as pessoas próximas á nós, que apesar da
estima que possuem vão só até o cemitério. Mesmo com consternação e tristeza,
não há nada mais que possa ser feito por eles. E a esposa que restou era a
quarta, ou seja aquela a que o homem menos considerava, dava-lhe pouco tempo e
atenção, e sequer reconhecia o valor que
possuía, e foi a única que o acompanhou, representa a mente.
Quantas
vezes a mente é usada apenas para guardar rancores, avidez, insatisfação, sem
conferir a ela o real valor que possui. É a única que se apresenta na
atemporalidade e sempre presente em mais do que três dimensões. Ou seja é a
alma, a consciência que cada um leva, aquilo que é subjetivo, sem aspectos
materiais ou tangíveis. O criador da Análise Transacional, canadense Eric Berne, afirmava que
os relacionamentos verdadeiramente significativos são aqueles dos quais menos
sabemos. Daí surge a reflexão sobre uma
vivência sem apegos, seja ao próprio corpo, aos bens físicos, e até mesmo às
pessoas ao redor de si.
Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de
desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de
Pessoas e Qualidade de Vida. E-mail: jairdomnato@gmail.com

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