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terça-feira, 7 de abril de 2015

QUAL A MULHER IDEAL?
Artigo de Jair Donato

Quais são os valores que você mais preserva na sua vida? A objetividade e os fatos externos parecem sobrepor à subjetividade em face do aspecto físico em que prepondera o materialismo, o poder e a aparência. Há um conto expresso por Sakyamuni em uma das primeiras Sutras budistas há mais de três mil anos, e que foi preservado pela cultura budista no Sul da Índia, sobre um homem indiano que tinha quatro mulheres. De acordo com o sistema social daquela localidade, era possível e aceito que os homens tivessem várias esposas.

A primeira esposa ele a amava muito. Vivia sempre cuidando dela em todos os momentos, noite e dia. Oferecia a ela os melhores nutrientes e vestes, a exibia como se fosse um troféu. Dava-lhe muito valor estético. A segunda esposa, ela a visitava costumeiramente, e gostava muito de dar-lhe joias e presentes. Na verdade, tinha medo de perdê-la e a tratava como se fosse um tesouro. Quanto a terceira esposa ele a visitava de vez em quando, sem apegos à ela, embora tivesse muita estima. Ela era muito querida e agradável. Já a quarta esposa, ele a tinha, mas não gostava muito dela. Na verdade, não lhe dava muita importância, em muitos momentos a tratava com desprezo, desconsiderando-a, se mostrava enfadado com ela.

Numa determinada ocasião, esse homem precisou viajar para outro País. Era um lugar muito distante. Então, ele precisava ser acompanhado por uma das esposas que possuía. E saiu para fazer o convite. Convidou a primeira mulher, a qual ele amava muito e doava-se a ela. Mas, essa o decepcionou ao dizer-lhe que sabia que ele a amou e cuidou dela sempre, mas não poderia acompanha-lo. Ela se separava dele naquela ocasião. Ele, então desapontado, foi até a segunda mulher e apresentou o convite. Ela frivolamente prometeu segui-lo, mas não foi. E respondeu a ele friamente que se a primeira não foi, por que ela haveria de acompanha-lo, dizendo e ele que o sentimento que teve por ela sempre foi egoísta.

Sem demora, ele seguiu para onde estava a terceira e após o convite, ela o acompanhou prontamente. Mas, com lágrimas nos olhos, só foi até o portão e parou. Não o acompanhou dizendo-se entristecida. Enfim, quem restou a ele? Foi quando lembrou que havia a quarta esposa, pela qual não possuía nenhum afeto. Mas foi o jeito convidá-la para não partir sozinho, já esperando que ela dissesse uma negativa a ele, por não trata-la bem. O desespero e a solidão já estavam grandes que arriscou fazer o pedido a quem ele sequer valorizava. E para surpresa essa última aceitou sem demora e o acompanhou com maior prazer dizendo-lhe que não importava o que acontecesse, ela estaria sempre ao lado dele. E assim eles viajaram.

Quando Sakyamuni contou essa história, todos compreenderam a mensagem naquela época, pois estava de acordo com a compreensão do povo de outrora. Contudo, hoje essa abordagem pode nos parecer sem sentido. Isso porque a mentalidade atual difere consideravelmente daquela de há mais de três milênios. Um dos mais expressivos filósofos japoneses do Século XX, Masaharu Taniguchi, apresentou uma leitura desse conto budista.  A viagem citada na história para outro País simboliza a morte, uma passagem para outro mundo da qual ninguém ficará livre. Já os convites às quatro mulheres representam o seguinte.

A primeira esposa que não pôde acompanhá-lo, embora estivesse a vida inteira ao lado dele, e que ele a tratava bem e adorava exibi-la, representa o corpo carnal. É algo que por mais que se apegue a ele, mantenha-o bem cuidado, vestido, nutrido, malhado, no final da vida, mesmo que se espere, ele não tem como prosseguir. A segunda esposa, a que ele tratava como preciosa, e que não pôde lhe acompanhar também, simboliza as riquezas e bens materiais acumulados. Afinal, fortuna, propriedades, fama, emprego e posição social que inebria o ego humano não há como serem levados.

E a terceira esposa, aquela que acompanhou o homem, mas somente até o portão, quem seria? São os parentes, amigos e as pessoas próximas á nós, que apesar da estima que possuem vão só até o cemitério. Mesmo com consternação e tristeza, não há nada mais que possa ser feito por eles. E a esposa que restou era a quarta, ou seja aquela a que o homem menos considerava, dava-lhe pouco tempo e atenção, e sequer  reconhecia o valor que possuía, e foi a única que o acompanhou, representa a mente.

Quantas vezes a mente é usada apenas para guardar rancores, avidez, insatisfação, sem conferir a ela o real valor que possui. É a única que se apresenta na atemporalidade e sempre presente em mais do que três dimensões. Ou seja é a alma, a consciência que cada um leva, aquilo que é subjetivo, sem aspectos materiais ou tangíveis. O criador da Análise Transacional, canadense Eric Berne, afirmava que os relacionamentos verdadeiramente significativos são aqueles dos quais menos sabemos. Daí surge a reflexão sobre uma vivência sem apegos, seja ao próprio corpo, aos bens físicos, e até mesmo às pessoas ao redor de si.


Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

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