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terça-feira, 21 de abril de 2015

SABEDORIA MÉDICA
- Artigo de Jair Donato

Às vezes uma compreensão sobre os fatos do cotidiano se torna óbvia muito mais pela maneira como ela é apresentada do que apenas ao expor as circunstâncias. Há um conto que retrata um episódio ocorrido certa vez entre o médico e a paciente. Ela chegou apavorada no consultório ginecológico, com um filho nos braços e disse: Doutor, o senhor terá de me ajudar num problema muito sério. Este meu bebê ainda não completou um ano e estou grávida novamente. Não quero filhos em tão curto espaço de tempo, mas num espaço grande entre um e outro. E então o médico perguntou: Muito bem. E o que a senhora quer que eu faça? A mulher respondeu: Desejo interromper esta gravidez e conto com a sua ajuda.

O médico então pensou um pouco e depois de um período de silêncio disse algo para aquela mulher.  Acho que tenho um método melhor para solucionar o problema. Ele é menos perigoso para a senhora. Ela sorriu, acreditando que o médico aceitaria o pedido que fez. E então ele completou. Veja bem minha senhora, para não ter de ficar com os dois bebês de uma vez, em tão curto espaço de tempo, vamos matar este que está em seus braços. Assim, a senhora poderá descansar para ter o outro, e ainda terá um período de descanso até o outro nascer. Se vamos matar, não há diferença entre um e outro. Até porque sacrificar este que a senhora tem nos braços é mais fácil, pois a senhora não correrá nenhum risco.

A mulher apavorou-se e disse: Não doutor! Que horror! Matar uma criança é um crime. Também acho minha senhora, mas me pareceu tão convencida disso que por um momento pensei em ajudá-la, disse ele. O médico sorriu e depois de algumas considerações, viu que aquela lição estratégica surtira efeito. Convenceu a mãe que não há menor diferença entre matar a criança que nasceu e matar uma ainda por nascer, mas já viva no seio materno. Pois o crime seria exatamente o mesmo.   

O aborto é um assunto polêmico. Ao mesmo tempo em que ele é tratado por alguns como um absurdo, um crime perante a vida, para outros não. Afinal, o que pensa muita gente é que o ser humano possui o direito de interromper uma vida no ventre materno, se assim o entender, em nome da “liberdade”. Contudo, a polêmica que existe em torno desse tema se deve pelo fato de algo que está ligado aos valores que cada um possui sobre o que constitui a vida.

Analogicamente e numa visão macro, pensando globalmente, seria mesmo essa a única forma de aborto provocada pelo homem? Nas últimas décadas tem sido constatada a fragilidade da vida humana na Terra, na mesma medida em que as pessoas perdem a capacidade de cuidar do meio ambiente natural em que vive. O homem capitalista está abortando num ritmo veloz a oportunidade de preservar a qualidade de vida no planeta e conservar os recursos naturais, através da atitude criminosa do desperdício, do consumo demasiado e da destruição sem reposição. O ar limpo, tão necessário para as gerações presentes, como para as futuras, está cada vez mais poluído, uma espécie de asfixia que aflige o ser humano, mas é algo provocado por ele mesmo, cada vez que polui o ambiente em que vive, numa espécie de autosuicídio e de extermínio dos próprios descendentes.

É este ser humano mercantilista que foi gerado no “ventre da mãe Terra”, cujos corpos são semelhantes na constituição orgânica, dentro de uma vasta diversidade de recursos naturais, que consegue destruir numa velocidade incomensurável a própria casa que o abriga e polui o ambiente que acolhe a si e aos próprios descendentes. A destruição da enorme complexidade natural do planeta ocorre de maneira tão insensível como se expelisse um feto, cujo significado parece está apenas na concentração de interesses próprios, do orgulho e da vaidade.

E assim como o conselho médico da analogia acima, as catástrofes ambientais que ocorrem no mundo inteiro atualmente, soam como sérios alertas ao homem, sobre a situação que ele está provocando. Contudo, mais do que nunca, faz-se necessário que haja sensibilidade e percepção sobre o fato de que abortar as possibilidades de recuperar e preservar os recursos naturais do planeta coloca em risco a própria capacidade de viver na Terra.

Jair Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jairdomnato@gmail.com

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