SABEDORIA
MÉDICA
- Artigo de Jair Donato
Às
vezes uma compreensão sobre os fatos do cotidiano se torna óbvia muito mais
pela maneira como ela é apresentada do que apenas ao expor as circunstâncias. Há
um conto que retrata um episódio ocorrido certa vez entre o médico e a paciente.
Ela chegou apavorada no consultório ginecológico, com um filho nos braços e disse:
Doutor, o senhor terá de me ajudar num problema muito sério. Este meu bebê
ainda não completou um ano e estou grávida novamente. Não quero filhos em tão
curto espaço de tempo, mas num espaço grande entre um e outro. E então o médico
perguntou: Muito bem. E o que a senhora quer que eu faça? A mulher respondeu:
Desejo interromper esta gravidez e conto com a sua ajuda.
O
médico então pensou um pouco e depois de um período de silêncio disse algo para
aquela mulher. Acho que tenho um método
melhor para solucionar o problema. Ele é menos perigoso para a senhora. Ela
sorriu, acreditando que o médico aceitaria o pedido que fez. E então ele
completou. Veja bem minha senhora, para não ter de ficar com os dois bebês de
uma vez, em tão curto espaço de tempo, vamos matar este que está em seus
braços. Assim, a senhora poderá descansar para ter o outro, e ainda terá um
período de descanso até o outro nascer. Se vamos matar, não há diferença entre
um e outro. Até porque sacrificar este que a senhora tem nos braços é mais
fácil, pois a senhora não correrá nenhum risco.
A
mulher apavorou-se e disse: Não doutor! Que horror! Matar uma criança é um
crime. Também acho minha senhora, mas me pareceu tão convencida disso que por
um momento pensei em ajudá-la, disse ele. O médico sorriu e depois de algumas
considerações, viu que aquela lição estratégica surtira efeito. Convenceu a mãe
que não há menor diferença entre matar a criança que nasceu e matar uma ainda
por nascer, mas já viva no seio materno. Pois o crime seria exatamente o mesmo.
O
aborto é um assunto polêmico. Ao mesmo tempo em que ele é tratado por alguns como
um absurdo, um crime perante a vida, para outros não. Afinal, o que pensa muita
gente é que o ser humano possui o direito de interromper uma vida no ventre
materno, se assim o entender, em nome da “liberdade”. Contudo, a polêmica que existe em torno desse tema se deve pelo fato de
algo que está ligado aos valores que cada um possui sobre o que constitui a
vida.
Analogicamente e numa visão macro, pensando
globalmente, seria mesmo essa a única forma de aborto provocada pelo homem? Nas
últimas décadas tem sido constatada a fragilidade da vida humana na Terra, na
mesma medida em que as pessoas perdem a capacidade de cuidar do meio ambiente
natural em que vive. O homem capitalista está abortando num ritmo veloz a
oportunidade de preservar a qualidade de vida no planeta e conservar os
recursos naturais, através da atitude criminosa do desperdício, do consumo
demasiado e da destruição sem reposição. O ar limpo, tão necessário para as
gerações presentes, como para as futuras, está cada vez mais poluído, uma
espécie de asfixia que aflige o ser humano, mas é algo provocado por ele mesmo,
cada vez que polui o ambiente em que vive, numa espécie de autosuicídio e de
extermínio dos próprios descendentes.
É este ser humano mercantilista que foi gerado no “ventre
da mãe Terra”, cujos corpos são semelhantes na constituição orgânica, dentro de
uma vasta diversidade de recursos naturais, que consegue destruir numa
velocidade incomensurável a própria casa que o abriga e polui o ambiente que
acolhe a si e aos próprios descendentes. A destruição da enorme complexidade
natural do planeta ocorre de maneira tão insensível como se expelisse um feto,
cujo significado parece está apenas na concentração de interesses próprios, do
orgulho e da vaidade.
E assim como o conselho médico da analogia acima, as
catástrofes ambientais que ocorrem no mundo inteiro atualmente, soam como
sérios alertas ao homem, sobre a situação que ele está provocando. Contudo,
mais do que nunca, faz-se necessário que haja sensibilidade e percepção sobre o
fato de que abortar as possibilidades de recuperar e preservar os recursos
naturais do planeta coloca em risco a própria capacidade de viver na Terra.

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