A RELIGIÃO, O EXAGERO E O
TRANSTORNO
Tudo que é exagero e enfatizado pelo excesso é anormal. Até o bem, se
aplicado de maneira inadequada, deixa de ter tal aspecto. Vejo gente eufórica
como criança que se lambuza com doces, ao se filiar a uma dissidência cristã,
por exemplo, afirmar pejorativamente que “aceitou Jesus” e despreparadamente
transitar tentando alienar os demais, além de posar como se fosse um modelo de
religiosidade. Sendo que tudo que fez foi aceitar as regras de uma igreja, onde
presta culto e cerimônias carregados de proibições e condições estereotipadas
para conter as próprias pulsões do ego. De certa maneira o freio desacelera,
mas é uma operação “tapa-buraco”. Para quem assim age, acha mais fácil submeter-se
a regras externas do que conter-se e gerir os próprios impulsos.
Há indivíduo que procura religião não para aperfeiçoar-se na moral ou
buscar entendimento sobre os mecanismos da fé, do amor e da vida, mas para esconder de
si mesmo os impulsos ligados ao vício, a paixão e ao apego. É quando a religião
passa a ser uma maquiagem na vida do transeunte que passa a viver com uma capa
de um personagem que não o é. Muitas pessoas usuárias da citação “de que
aceitou Jesus” reincidem nos desejos primitivos do vício, desrespeitam a
diversidade da vida e facilmente julgam o próximo em detrimento aos estilos que
combinam com os dogmas do rótulo religioso a que pertencem.
Lembra-se da paixão da adolescência? É uma passagem tão fugaz, em que há
juras de “amor eterno” como se fossem para sempre. Meses depois, o lance esfria
e outros casos surgem. É o mesmo que acontece com um religioso empolgado com
uma nova religião, sai como se quisesse convencer a todos e como se a religião
dele fosse absoluta e detentora de uma verdade universal. Religião, como tudo
na vida, só é bom para quem tem o preparo de permeá-la com equilíbrio, pois
dessa maneira é que se conseguirá absorver tudo que ela poderá oferecer de
conforto, encorajamento e reflexão. Mas, vivenciar apenas a empolgação de um
rito ou de um discurso esfuziante é semelhante a fase de uma criança encantada
quando se vê diante de um novo brinquedo.
O próprio fato de existir centenas de correntes religiosas provindas
de um mesmo líder, seja no cristianismo, no budismo e nas demais grandes
concentrações doutrinárias, é o resultado de diferentes interpretações sobre
uma mesma diretriz, algo característico do ego humano. Não há uma doutrina religiosa
melhor do que a outra, exceto a moral de quem a pratica. Aceitar Jesus, Buda,
Maomé, Brahma, Krishna, Confúcio ou qualquer outro mestre como orientador de
condutas na vida, se for pelo caminho da naturalidade, não necessita de ligação
com dogma religioso, tampouco com regras que os diferenciem uns dos outros.
Você conhece pessoas que se declaram agnósticas, mas que praticam
caridade, tratam bem os familiares e colegas no trabalho? Conhece alguém que é
ético, visita asilos, cria empregos, recolhe os impostos sem sonegação e não
discrimina os outros pela orientação sexual, raça ou condição social? Então,
ele só não tem religião. E quem disse que ela é condição imprescindível? Esses
são os que aceitam o Ensinamento, a mensagem que os iluminados deixaram e não
fizeram questão de cadastrar pessoas como seguidores deles, tampouco elegerem
os que seriam supostamente salvos.
Sem dúvida, não são rótulos religiosos a garantia para o despertar da
espiritualidade. As vezes o título é uma fantasia que privilegia muito mais o
orgulho e a vaidade. Seja a religião, um relacionamento, um trabalho
voluntário, um partido político, ou quaisquer movimentos ou crença que o
indivíduo procurar, que não seja para propiciar entendimento da natureza de si
mesmo, provocando-lhe reforma íntima, se torna um aspecto alienante. Ou, um
álibi para encobrir o que há de nefasto em si mesmo, fuga. Basta que a escolha
feita deixe de atender as próprias carências ou tornar-se uma ameaça, que ele a
abandona. Esse é o risco da euforia e do encantamento fácil. Há muita gente de
moral ilibada que nenhum credo aprendeu até hoje, e ele nem necessita disso. Você
a reconhece pelos resultados das ações a que apreendem.
Jair
Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas,
professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de
Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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