O CERTO E O DUVIDOSO
Artigo
de Jair Donato*
Não por acaso, Esopo, um sábio fabulista grego que viveu bem antes da
Era Cristã, afirmou que se torna um tolo e duas vezes imprudente, aquele que
desiste do certo pelo incerto. Ele elucidou o exemplo do cachorro, que
carregava na boca um pedaço de carne e ao cruzar uma ponte sobre um riacho, de
repente, viu a própria imagem refletida na água.
Diante disso, o cão logo imagina que se trata de outro felino, com um
pedaço de carne maior que o dele. Ele não demorou para agir instintivamente,
deixando cair no riacho o pedaço que carregava, e ferozmente se lançando sobre
o animal refletido na água. O objetivo era um só, tomar do outro aquela porção
de carne que julgava ter o dobro do tamanho da que ele tinha na boca.
E foi através dessa ação que o cachorro acabou perdendo os dois
pedaços de carne. Aquele que tentou pegar na água, por se tratar de um simples
reflexo, o dele próprio. E o que tinha como certo, uma vez que ao largá-lo nas
águas, a correnteza acabou por leva-lo para longe. Mas era um cachorro, de
natureza irracional, alguém poderá argumentar. Pior ainda para o homem que faz
o mesmo, e com a possibilidade de raciocínio, consciência e percepção.
Imagine alguém viciado em jogos, quantos perderam a fortuna que
possuía na ganância de ganhar mais, ao apostar na usura. Há alguma diferença
entre aquele cachorro da narração e o indivíduo que vende a casa em que mora e
demais bens que possui para investir na ilusão de ficar rico da noite para o
dia? Há sim, pois o primeiro é apenas um cachorro, desprovido de racionalidade.
Quantas pessoas perdem a oportunidade de criar vínculos mais profundos
no relacionamento interpessoal, por exemplo, devido a frivolidade das relações
virtuais. Há quem não valoriza a quem mais pode amar e sentir-se amado em face
de paixões que provocam prazer, mas nunca êxtase de autorrealização.
Há quem ao invés de inebriar-se com o belo da natureza, valorizar o
contato com o próximo e sentir o momento presente, decide embriagar-se pelo
álcool ou anestesiar-se pelas drogas, sempre que se vê em situações que deveria
estar presente. Há quem perde todo o pudor da sensibilidade, tratando rudemente
os pertences, as pessoas em volta dele, e faz desse modo de agir o próprio
mundo.
Tem ainda quem não percebe que pode ser única a chance de fazer bem
feito o que surge diante de si, pois aquela poderá ser a melhor oportunidade,
dentre todas, para o sucesso dele na vida. Essas são maneiras de trocar aquilo
que pode ser certeiro por algo que não trará resultados proveitosos.
Afinal, a ambição, o desejo de tornar-se melhor, e também possuidor
das coisas, indubitavelmente, é saudável. Mas, isso não é sinônimo de
inconsequência e ganância, que junto com a imprudência e a tolice, se tornam
entraves para a evolução do homem.
*Jair
Donato - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas,
professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de
Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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