RIGIDEZ COGNITIVA
Artigo de Jair Donato*
Quantas vezes você deixou de ouvir o que uma pessoa tinha a lhe dizer
com a justificativa de que já sabia do que se tratava? Essa é uma atitude que às
vezes impede o indivíduo de ver o que realmente deveria, por considerar apenas
os próprios referenciais internos. Por quantas vezes você consegue ouvir o
outro no contexto dele, além das suas próprias expectativas?
A atitude de não prestar atenção ao indivíduo que está estabelecendo
uma comunicação provoca o reducionismo dele em detrimento às questões do
próprio ego de quem, pressupõe-se, que esteja na escuta. Esse é o risco da
redução, ao tentar deduzir que já sabe o que o outro quer falar, como às vezes
pode fazer o professor em relação ao aluno ou o pai frente ao filho. Essa é uma conduta que pode fazer um ficar
surdo na relação com o contexto do outro e assim deixar de instigá-lo a
exteriorizar o que há de melhor nele. Tal falha cognitiva não faz bem ao
educador ou a qualquer outra pessoa que se dispõe a contribuir para o
desenvolvimento do próximo, seja na vida profissional, como em todas as demais
oportunidades de desenvolvimento do ser humano.
Ao desenvolver as habilidades da empatia, do acolher e do saber ouvir
sem pré-julgamentos o indivíduo pode evitar a síndrome da rigidez cognitiva. Ou
seja, é quando ele se torna mais flexível e passa a entender o outro no
contexto e nas referências e padrões dele. Todas essas habilidades podem ser
desenvolvidas. Dentre elas, o ato de ouvir, por exemplo, não é algo que seja
fácil, especialmente quando se deve captar o que o outro diz implicitamente.
Talvez, por vivermos num mundo em que a pressa, a frivolidade e o que é
superficial recebam mais atenção do que o olho no olho, ouvido no ouvido ou o
contato corpo a corpo.
Reza um provérbio indiano que quem está apaixonado por ti sabe
falar-lhe lindas palavras, mas só quem te ama sabe escutar-te. Talvez o ato de
escutar o que verdadeiramente o outro tem a expressar esteja ligado a um
sentimento mais profundo, a um interesse genuíno, como o sentimento de amor
isento de malogros possa contemplar.
O psicólogo vienense Alfred Adler, elucidou que o indivíduo que não
está interessado no seu semelhante se torna naquele que terá as maiores
dificuldades na vida e causa os maiores males aos outros. É entre tais
indivíduos que se verificam todos os fracassos humanos, completa. Por vezes,
quando o indivíduo se aproxima e deseja uma conversa, ele não solicita mais do
que isso, sequer pede conselho ou que você resolva o problema dele. A necessidade
dele é falar-lhe, apenas. Contudo, nem sempre as pessoas se dispõem a isso,
embora por vezes reclamem que ninguém entende os anseios delas.
Exímios comunicadores revelam que preferem a habilidade dos bons
ouvintes do que apenas a dos bons faladores. Seguramente, o melhor conversador,
com congruência no conteúdo e base para argumentação é aquele que atua como o
melhor ouvinte. Mais que ouvir, escutar e perceber o outro são excelentes alternativas
para que haja mais flexibilidade e compreensão nas relações. Ainda, perceber o
inaudível é uma escuta com profundidade.
Jair
Donato* - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas,
professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de
Vida. E-mail: jair@domnato.com.br

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