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terça-feira, 12 de abril de 2016

RIGIDEZ COGNITIVA
Artigo de Jair Donato*

Quantas vezes você deixou de ouvir o que uma pessoa tinha a lhe dizer com a justificativa de que já sabia do que se tratava? Essa é uma atitude que às vezes impede o indivíduo de ver o que realmente deveria, por considerar apenas os próprios referenciais internos. Por quantas vezes você consegue ouvir o outro no contexto dele, além das suas próprias expectativas?

A atitude de não prestar atenção ao indivíduo que está estabelecendo uma comunicação provoca o reducionismo dele em detrimento às questões do próprio ego de quem, pressupõe-se, que esteja na escuta. Esse é o risco da redução, ao tentar deduzir que já sabe o que o outro quer falar, como às vezes pode fazer o professor em relação ao aluno ou o pai frente ao filho.  Essa é uma conduta que pode fazer um ficar surdo na relação com o contexto do outro e assim deixar de instigá-lo a exteriorizar o que há de melhor nele. Tal falha cognitiva não faz bem ao educador ou a qualquer outra pessoa que se dispõe a contribuir para o desenvolvimento do próximo, seja na vida profissional, como em todas as demais oportunidades de desenvolvimento do ser humano.

Ao desenvolver as habilidades da empatia, do acolher e do saber ouvir sem pré-julgamentos o indivíduo pode evitar a síndrome da rigidez cognitiva. Ou seja, é quando ele se torna mais flexível e passa a entender o outro no contexto e nas referências e padrões dele. Todas essas habilidades podem ser desenvolvidas. Dentre elas, o ato de ouvir, por exemplo, não é algo que seja fácil, especialmente quando se deve captar o que o outro diz implicitamente. Talvez, por vivermos num mundo em que a pressa, a frivolidade e o que é superficial recebam mais atenção do que o olho no olho, ouvido no ouvido ou o contato corpo a corpo.

Reza um provérbio indiano que quem está apaixonado por ti sabe falar-lhe lindas palavras, mas só quem te ama sabe escutar-te. Talvez o ato de escutar o que verdadeiramente o outro tem a expressar esteja ligado a um sentimento mais profundo, a um interesse genuíno, como o sentimento de amor isento de malogros possa contemplar.

O psicólogo vienense Alfred Adler, elucidou que o indivíduo que não está interessado no seu semelhante se torna naquele que terá as maiores dificuldades na vida e causa os maiores males aos outros. É entre tais indivíduos que se verificam todos os fracassos humanos, completa. Por vezes, quando o indivíduo se aproxima e deseja uma conversa, ele não solicita mais do que isso, sequer pede conselho ou que você resolva o problema dele. A necessidade dele é falar-lhe, apenas. Contudo, nem sempre as pessoas se dispõem a isso, embora por vezes reclamem que ninguém entende os anseios delas.

Exímios comunicadores revelam que preferem a habilidade dos bons ouvintes do que apenas a dos bons faladores. Seguramente, o melhor conversador, com congruência no conteúdo e base para argumentação é aquele que atua como o melhor ouvinte. Mais que ouvir, escutar e perceber o outro são excelentes alternativas para que haja mais flexibilidade e compreensão nas relações. Ainda, perceber o inaudível é uma escuta com profundidade.


Jair Donato* - Jornalista em Cuiabá, consultor de desenvolvimento de pessoas, professor universitário, especialista em Gestão de Pessoas e Qualidade de Vida.  E-mail: jair@domnato.com.br

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